Goering não disse nos julgamentos de Nuremberg que para escravizar as pessoas é preciso assustá-las

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Publicações compartilhadas mais de 10 mil vezes em redes sociais desde o último mês de setembro asseguram que o dirigente nazista Hermann Goering disse que gerar medo é um método eficiente para escravizar as pessoas. Segundo os usuários, a declaração foi dada em seu julgamento nos tribunais de Nuremberg, mas não há registro de tal fala nas transcrições do processo.

“Cerca de 75 anos atrás, Hermann Göring, militar alemão levado ao tribunal de Nuremberg, foi questionado: ‘Como você fez o povo alemão aceitar tudo isso?’”, começam as postagens replicadas no Facebook (1, 2, 3) e Twitter (1, 2, 3), ao menos desde 19 de setembro deste ano.

De acordo com os usuários, o dirigente nazista teria respondido: “Se você consegue imaginar uma maneira de assustar as pessoas e convencê-las que é para o seu próprio bem, pode obrigá-las a fazer o que você quiser”. Goering também teria garantido que essa técnica funcionaria em um “regime nazista, socialista, comunista, em uma monarquia e até mesmo em uma democracia”.

O texto, que também foi compartilhado pelo deputado federal do PSL e filho do presidente Jair Bolsonaro, Eduardo Bolsonaro, e pela deputada federal do mesmo partido Bia Kicis, é ilustrado por uma imagem de uma mulher usando um protetor facial de plástico sobre uma máscara, enquanto está dentro de um carro. 

Captura de tela feita em 23 de outubro de 2020 de publicação no Twitter

A alegação também circulou em espanhol, francês e polonês.

Julgamentos de Nuremberg

Goering foi um líder nazista de alto escalão e um dos mais fiéis aliados de Adolf Hitler no Partido Nacional-Socialista dos Trabalhadores Alemães (NSDAP).

O militar se entregou voluntariamente às forças norte-americanas em 8 de maio de 1945, após o fim da Segunda Guerra Mundial.

Entre 13 e 22 de março de 1946, Goering testemunhou em um dos interrogatórios dos julgamentos de Nuremberg (1945-1946), realizados contra os principais criminosos de guerra do Terceiro Reich, como também é conhecida a Alemanha nazista.

As transcrições dos testemunhos estão publicadas na biblioteca alemã Zeno e no site da Faculdade de Direito da Universidade do Missouri (1, 2, 3, 4), nos Estados Unidos.

A equipe de checagem da AFP consultou os documentos históricos, em inglês e alemão, e não encontrou qualquer registro das frases compartilhadas nas redes sociais.

Declaração sobre guerra

Os verificadores da AFP na Polônia localizaram, por sua vez, uma declaração semelhante de Goering em uma obra de Gustave Gilbert, um psicólogo prisional norte-americano que tinha livre acesso a todos os presos de uma penitenciária de Nuremberg, na Alemanha.

Seu livro “The Nuremberg Journal” (O diário de Nuremberg), publicado em 1947, contém entrevistas com todos os acusados, assim como resumos dos julgamentos.

A conversa do psicólogo com Goering aconteceu em 18 de abril de 1946. A Gilbert, o dirigente nazista disse que é mais fácil para os líderes dos países influenciar as pessoas quando as atacam e condenam por falta de patriotismo, acrescentando que esse princípio vale para todos os países.

A fala de Goering, em inglês, pode ser consultada neste link.

“Naturalmente, as pessoas comuns não querem guerra, nem na Rússia, nem na Inglaterra, nem nos Estados Unidos, nem na Alemanha. Isso é compreensível. Mas, no final das contas, são os líderes do país que determinam a política e é sempre uma questão simples carregar as pessoas junto, seja em uma democracia, em uma ditadura fascista, em um sistema parlamentar ou em uma ditadura comunista”.

Quando Gilbert sinaliza que há uma diferença no caso de democracias, já que o povo pode escolher seus representantes, Goering responde: “as pessoas sempre podem ser levadas a defender seus líderes. Isso é fácil. Tudo que você precisa fazer é dizer-lhes que eles estão sendo atacados e denunciar os pacifistas por falta de patriotismo e por expor o país ao perigo. Funciona da mesma maneira em qualquer país”.

A declaração dada por Goering a Gilbert possui algumas semelhanças com o parágrafo compartilhado nas redes, mas se refere apenas ao apoio da população a uma guerra e não a sua “escravização”.

O dirigente nazista se suicidou em 15 de outubro de 1946, horas antes de sua execução, ingerindo cianeto.

Esta desinformação circula em meio à pandemia de covid-19, momento em que alguns questionam as medidas sanitárias impostas por alguns países para deter a propagação do novo coronavírus, como o uso de máscaras e o isolamento social.

Em resumo, não há registro de que o líder nazista Hermann Goering tenha dito que para escravizar as pessoas basta “assustá-las”, durante seu julgamento no tribunal de Nuremberg após a Segunda Guerra Mundial.

Tradução e adaptação
AFP Brasil