Fotos de cientistas com tubarões circulam incorretamente como uma história de amizade

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Uma história sobre um pescador australiano que se tornou amigo do tubarão que ele libertou de uma rede foi compartilhada no Facebook mais de 1.200 vezes desde o último 7 de junho. No entanto, as três fotos em que  pessoas acariciam o animal mostram, na verdade, cientistas trabalhando com uma técnica para verificar os reflexos dos tubarões brancos ao serem tocados.

“EXISTEM ANIMAIS QUE NUNCA ESQUECEM VOCÊ SE VOCÊ AJUDAR OU PREJUDICÁ-LOS! O pescador australiano Arnold Pointer salvou um tubarão branco (fêmea) da morte há dois anos, libertando-o da rede.  Hoje ele tem um problema: ela o segue por toda parte”, dizem as publicações no Facebook (1, 2, 3). 

A história continua: “É difícil se livrar de um tubarão de 5 metros quando o tubarão branco é uma espécie protegida para conservação, mas uma afeição mútua se estabeleceu entre Arnold e "Cindy".  Arnold diz: ‘Quando eu paro o barco, ela vem até mim, vira de lado e permite que eu a acaricie, ela grunhe, aperta os olhos e agita suas nadadeiras de felicidade …’”.

A mesma história com as fotografias circulou em inglês e espanhol.

Captura de tela feita em 18 de junho de 2021 de uma publicação no Facebook

No entanto, as imagens não correspondem à história que circulou nas redes.

Foto das brânquias

Uma busca reversa no Google pela fotografia em que um homem com uma camiseta azul e boné branco toca um tubarão na lateral levou a um artigo publicado em 13 de março de 2008 pelo jornal britânico Mirror. No texto, menciona-se um cientista que estava testando um "escudo contra tubarões", um dispositivo eletrônico projetado para manter os tubarões longe dos surfistas.

A publicação acrescenta que a foto foi feita na costa australiana, mas não identifica o cientista.

Foto do focinho

Uma pesquisa no Google pela imagem de um homem tocando o focinho de um tubarão levou a uma publicação feita em um blog em francês sobre tubarões em 26 de setembro de 2006.

A imagem é creditada a Michael Scholl, um especialista em tubarões na África do Sul, cujo nome também aparece na marca d'água.

Foto de cima

A terceira imagem foi encontrada em um blog, em uma postagem de 20 de abril de 2008, junto a várias outras, incluindo as outras duas fotos viralizadas no Facebook. 

Uma publicação de 17 de março de 2008 em outro blog identifica que duas das imagens correspondem ao “escudo do tubarão”.

Reflexo de tubarões

Procurado pela AFP, Michael Scholl disse que reconheceu as três fotos e descartou que elas mostrassem a amizade entre um pescador e um tubarão, versão que, segundo ele, "circula há mais de uma década nas redes sociais".

O especialista contou que fez a foto na qual Michael Rutzen, outro especialista em grandes tubarões brancos, aparece tocando o focinho do animal. As outras duas "não me lembro quem as tirou (...) Acho que uma delas foi tirada por Andy B. Casagrande", disse, acrescentando que Morne Hardenberg, outro especialista em tubarões, aparece nas outras duas imagens.

Casagrande confirmou à AFP que ele é o autor das outras fotografias. "Não sei nada sobre um pescador ou alguma história de amor. É apenas um tubarão interagindo conosco no barco", afirmou.

Segundo Scholl, as imagens foram tiradas entre 1999 e 2004 perto da Ilha Dyer, no Cabo Ocidental da África do Sul. Ele explicou:

Scholl não mencionou, contudo, qualquer relação com o "escudo do tubarão".

“Minha opinião (mas existem outras teorias e opiniões) é que se trata de um reflexo de proteção automático para o tubarão, em que o focinho é uma região sensível (onde se concentra a Ampola Lorenzini, o eletrorreceptor sexto sentido nos tubarões) que se encontra em um ponto cego do tubarão”, disse. 

"O focinho fica perto dos olhos do tubarão, então o reflexo é abrir a boca e arquear para trás, fazendo com que aquilo que tocou o focinho seja colocado diretamente na frente da boca e dos dentes", continuou.

“É uma espécie de reação de defesa do tubarão para proteger a cabeça e os olhos. Outros dizem que ao tocar ali se estimulam os eletrorreceptores", acrescentou.

Essa técnica foi usada para "ser exibida para a mídia" no final dos anos 1990 e no início dos anos 2000, afirmou. A foto de capa de abril de 2000 da National Geographic foi feita com essa técnica, contou.

Por fim, Scholl disse que “há tubarões mais curiosos e 'brincalhões' do que outros, alguns pareciam gostar ou não se importavam em ser tocados no focinho e voltavam querendo mais. Alguns desses tubarões arqueavam-se tanto que caíam de costas e nadaram lentamente sobre elas".

Tradução e adaptação