A foto de uma manifestante com um cartaz contra a saúde pública é uma montagem

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Uma foto de uma manifestante exibindo um cartaz com a frase “Não à saúde pública” foi compartilhada milhares de vezes em redes sociais desde o último dia 1º de novembro, como se o registro tivesse sido feito no ato do mesmo dia em São Paulo, em oposição ao governo estadual e a uma possível obrigatoriedade da vacina contra covid-19. A foto é, contudo, uma montagem feita a partir de um registro de uma YouTuber que pedia, no cartaz original, o fim da “heterofobia”, ironizando partidários do presidente Jair Bolsonaro em um ato de maio de 2019.

“ABSURDO! Bolsominions são completamente sem noção! Show de horrores na manifestação da Av Paulista apelidada de #Dia01NovEuVou”, diz uma das publicações, compartilhadas mais de 2.800 vezes no Facebook (1, 2, 3) e Twitter (1, 2, 3) em cerca de dois dias.

“Ontem, domingo à tarde, na avenida Paulista. Tá pouco? Quer mais?”, escreveu outra usuária em 2 de novembro, um dia após um grupo de apoiadores do presidente Jair Bolsonaro realizar uma manifestação na Avenida Paulista. O ato tinha como objetivo se opor ao governador de São Paulo, João Doria, e à sua afirmação de que a vacina contra a covid-19 da farmacêutica chinesa Sinovac Biotech pode ser obrigatória no estado.

Uma busca no Google por registros anteriores da foto permite concluir, contudo, que ela é antiga e foi alterada digitalmente para incluir a frase viralizada. 

Captura de tela feita em 3 de novembro de 2020 de uma publicação no Facebook

A pesquisa levou a uma reportagem sobre a participação da YouTuber Mariana Motta, responsável pelo Canal Púrpura na plataforma, em um ato pró-Bolsonaro realizado em 26 de maio de 2019, na Avenida Paulista. A foto que ilustra a matéria é idêntica à compartilhada nas redes, com exceção dos dizeres no cartaz.

Na imagem original, publicada também por Motta em sua conta no Instagram em 27 de maio de 2019, o cartaz diz: “Mestre Olavo de Carvalho. Não à ditadura gayzista. Chega de heterofobia. Chega de direitos”.

Abaixo, uma comparação entre ambas as fotos:

Comparação feita em 3 de novembro de 2020 entre imagem publicada no Facebook (esquerda) e foto publicada no Instagram por Mariana Motta

Como explicou em sua publicação no Instagram, Motta levou esse e outros cartazes à manifestação pró-governo para ironizar partidários do presidente Jair Bolsonaro.

“Hoje, eu me vesti de #barbiefascista e fui pro meio dos coxa com cartazes cheios de frases escrotas que eles vivem mandando pro @canalpurpura. A ação tinha como objetivo construir imageticamente o estereótipo do ódio que levou (e leva) parte da população a apoiar um governo antipovo”, escreveu a YouTuber.

Além disso, no dia da manifestação, Motta publicou um vídeo de sua participação no ato no qual é possível ver o cartaz original da foto viralizada nas redes.

Frente à repercussão da imagem alterada, Motta esclareceu no Twitter que a foto com o cartaz “Não à saúde pública” é uma montagem feita a partir de seu registro original.

Essa não é a primeira vez em que uma foto do experimento de Motta é compartilhada como se ela fosse uma partidária de Bolsonaro.

Esse conteúdo também foi verificado pela Agência Lupa.

Em resumo, é falso que uma manifestante tenha exibido um cartaz com os dizeres “Não à saúde pública” no protesto realizado no último dia 1º de novembro na Avenida Paulista. A foto é uma montagem, feita a partir de um registro de maio de 2019, quando uma YouTuber se vestiu como uma ativista pró-governo para ironizar partidários do presidente Jair Bolsonaro.

AFP Brasil