Audiência de Anthony Fauci nos EUA faz ressurgir desinformação sobre covid-19
- Publicado em 7 de agosto de 2026 às 22:48
- 5 minutos de leitura
- Por AFP Brasil
Após o imunologista ex-encarregado de doenças infecciosas dos Estados Unidos, Anthony Fauci, se negar a depor em uma audiência do Senado norte-americano em 29 de julho de 2026, alegações falsas sobre a pandemia de covid-19 voltaram a circular nas redes sociais. Impulsionados por publicações de políticos com dezenas de milhões de visualizações, usuários replicam desinformação sobre a eficácia da ivermectina e da hidroxicloroquina no tratamento da doença, a composição de vacinas e orientações sobre o uso de máscaras.
“Fauci alegou FRAUDULENTAMENTE que a ivermectina não funcionava para que o governo pudesse injetar em toda a população terapias gênicas autorizadas para uso de emergência”, diz uma publicação compartilhada no Instagram.
Outra postagem, no X, afirma: “Bolsonaro tinha razão. Ivermectina 70% de eficácia. Senador confrontou Faucci por ter bloqueado o uso de hidroxicloroquina e ivermectina no combate à Covid”.
Conteúdos semelhantes circulam no Facebook e no Threads.
Em 29 de julho de 2026, o ex-diretor do Instituto Nacional de Alergia e Doenças Infecciosas Anthony Fauci, que aconselhou os presidentes Donald Trump e Joe Biden durante a pandemia de covid-19, invocou seu direito constitucional de não responder em um depoimento no Senado dos Estados Unidos.
“A única razão pela qual estão me chamando perante este comitê é conseguir que eu diga algo, o que for, que possa respaldar suas promessas públicas reiteradas de que eu acabe, em suas palavras, entre aspas, 'atrás das grades’”, afirmou.
O silêncio de Fauci diante de mais de cem questionamentos foi interpretado nas redes sociais como uma admissão de culpa em acusações feitas contra ele acerca da suposta eficácia de remédios descartados e da “arbitrariedade” de medidas sanitárias.
Essa interpretação foi amplificada no Brasil por políticos e figuras públicas, como o deputado federal Nikolas Ferreira (PL) e a jornalista e candidata ao Senado pelo Paraná Cristina Graeml (PSD).
No entanto, as acusações incluem teorias conspiratórias e alegações já desmentidas sobre a pandemia de covid-19.
Diários de Fauci
Poucos dias antes do depoimento de Fauci, o senador republicano Rand Paul, presidente da comissão do Senado sobre Segurança Interna e Assuntos Governamentais, divulgou diários que o imunologista manteve durante a pandemia de covid-19 e que supostamente foram guardados em servidores informáticos.
As publicações virais alegam que os documentos mostram contradições entre as posições públicas de Fauci e suas anotações privadas, como uma suposta admissão de que as máscaras eram ineficazes contra o coronavírus — alegação já checada pela AFP.
No entanto, trechos do diário mostram que o imunologista sustenta em diversos momentos (pág. 619) a eficácia das máscaras para conter a propagação do vírus, apesar de criticar a abordagem “ultra-conservadora” dos Centros de Controle e Prevenção de Doenças (CDC, na sigla em inglês) que orientava para o seu uso ao ar livre (pág. 727).
O uso de máscaras também foi recomendado pela Organização Mundial da Saúde (OMS) em uma estratégia abrangente para evitar a transmissão da doença, que incluía o distanciamento físico e a limpeza das mãos.
Vários veículos norte-americanos desmentiram as alegações de que as anotações de Fauci contrariavam suas orientações ao público dos Estados Unidos durante a pandemia (1, 2, 3).
A hidroxicloroquina e a ivermectina funcionam contra a covid-19?
As publicações também apontam que estudos comprovariam que o uso de cloroquina e de ivermectina é eficaz para a prevenção ou o tratamento da covid-19 — alegações que o Checamos já verificou em outras ocasiões (1, 2). Ambos os medicamentos continuam não sendo recomendados pela OMS para o tratamento da infecção (1, 2).
Alexandre Barbosa, professor, médico infectologista e ex-Vice-Presidente da Sociedade Brasileira de Infectologia (SBI), afirmou ao Checamos em 6 de agosto que, após “mais de cinco anos de pesquisa, centenas de estudos publicados e dezenas de ensaios clínicos randomizados envolvendo milhares de pacientes em diferentes países”, concluiu-se que “a hidroxicloroquina não é eficaz nem para prevenir a covid-19 nem para tratar pessoas infectadas pelo SARS-CoV-2”.
A mesma conclusão foi alcançada no caso da ivermectina.
“No início [da pandemia], pequenos estudos levantaram a hipótese de que a ivermectina poderia apresentar algum benefício”, recordou Barbosa. No entanto, “quando estudos maiores, melhor desenhados e metodologicamente mais robustos foram concluídos, o benefício simplesmente não se confirmou”, explicou.
Segundo ele, as doses necessárias para a eficácia observada em laboratório eram “dezenas de vezes superiores” às seguras para seres humanos. Estudos clínicos conduzidos nos Estados Unidos e no Brasil não encontraram benefícios significativos com o uso da ivermectina, “mesmo aumentando a dose e prolongando o tratamento”.
As Diretrizes Pan-Americanas para o tratamento da covid-19, elaboradas pela SBI em conjunto com a Associação Pan-Americana de Infectologia e das quais Barbosa é um dos autores, apresentam uma recomendação forte contra o uso da hidroxicloroquina e da ivermectina em pacientes ambulatoriais, após uma revisão de centenas de estudos.
Outras revisões sistemáticas rigorosas (1, 2) chegaram à mesma conclusão: ambos os medicamentos — que possuem indicações legítimas para outras doenças — não apresentam benefícios relevantes no tratamento da covid-19, enquanto os riscos permanecem.
“Sempre haverá estudos individuais apontando resultados diferentes”, destacou Barbosa. “O que realmente orienta a prática médica é o conjunto das evidências, analisado de forma crítica e sistemática".
Vacinas feitas com bebês abortados?
Outra desinformação repetida pelas publicações virais é a de que vacinas contra a covid-19 teriam sido desenvolvidas com células de bebês abortados — alegação que também já foi verificada pelo Projeto Comprova, iniciativa de checagem colaborativa da qual o AFP Checamos faz parte.
Os conteúdos distorcem uma técnica utilizada na produção da vacina desenvolvida pela Universidade de Oxford/Astrazeneca. O imunizante usa uma linhagem celular originada de células de um feto abortado legalmente na Holanda na década de 1970 e que foram desenvolvidas em laboratório para crescer de forma contínua.
A mesma linhagem é utilizada na indústria farmacêutica em todo o mundo, e a técnica é comum em pesquisas científicas. O seu uso, no entanto, não pressupõe a realização de novos abortos.
O AFP Checamos já verificou outras alegações sobre a pandemia de covid-19 e os imunizantes desenvolvidos contra a infecção.
Referências
- Diários de Anthony Fauci
- Recomendação da OMS para o uso de máscaras
- Artigos sobre os diários de Fauci (1, 2, 3)
- Páginas da OMS sobre cloroquina e ivermectina (1, 2)
- Perfil de Alexandre Barbosa
- Estudos clínicos feitos no Brasil e nos Estados Unidos (1, 2)
- Diretrizes Pan-Americanas para o Tratamento da Covid-19
- Revisões sistemáticas sobre o uso da ivermectina e da cloroquina no tratamento da covid-19 (1, 2)
- Página da FDA sobre o uso da ivermectina para tratar a covid-19
- Artigo sobre uso de linhagem celular em vacinas
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