Imagem ilustrativa de dois celulares exibindo sites que exploram a identidade visual de programas jornalísticos do Brasil e da Argentina para aplicar golpe (AFP / Luis ROBAYO)

Programas jornalísticos do Brasil e da Argentina têm identidade visual explorada para fraude financeira

Imagens bombásticas dos "bastidores" de programas de TV seguidas de textos sobre uma suposta oportunidade imperdível para fazer dinheiro: o padrão se repete em uma série de anúncios identificados pela AFP, em português e espanhol, que acumulam milhares de visualizações na rede social X desde março de 2026. As postagens se apropriam da identidade visual de conhecidos programas da região com inteligência artificial para induzir usuários a clicar em links que promovem portais de investimento. Segundo especialistas, trata-se de uma fraude baseada em engenharia social.

“Momento captado nos bastidores da TV”, dizem publicações (1, 2) promovidas no X em português junto a imagens que parecem mostrar brigas no programa Roda Viva, da TV Cultura.

Conteúdo semelhante circula em espanhol (1, 2, 3) com supostas imagens de bastidores do La noche de Mirtha, tradicional programa de entrevistas argentino.

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Capturas de telas feitas em 11 e 18 de junho de 2026 de publicações no X. Símbolo de inteligência artificial (Ai) adicionado pela AFP (.)

As postagens seguem o mesmo padrão: trazem uma chamada apelativa e vaga, sugerindo que houve uma discussão em um dos programas. A alegação é embasada em supostas imagens chocantes mostrando, por exemplo, pessoas brigando ou convidados jogando líquido no rosto dos apresentadores. 

Ao clicar nos posts, o leitor é direcionado a sites que usam a identidade visual de portais de notícia. Ambos exibem um texto sobre uma suposta edição do Roda Viva ou do La Noche de Mirtha em que uma figura relevante do cenário financeiro de cada país teria entrado em confronto com os apresentadores por não querer revelar os detalhes de uma suposta oportunidade econômica imperdível.

 “Vocês estão roubando as famílias argentinas/brasileiras” é a frase usada, por exemplo, nas chamadas dos sites. 

Levantamento da AFP compilou ao menos 50 publicações em português e 15 em espanhol com este teor.

Entrevistas que nunca aconteceram 

Nos textos em português, a briga teria acontecido entre os convidados Roberto Sallouti, CEO do BTG Pactual, e a jornalista Vera Magalhães. O artigo sugere que Vera Magalhães teria mencionado uma plataforma chamada “NeoCapital” que promete rendimento de R$ 22 mil por mês, em uma conversa sobre o alto custo de vida no Brasil. 

Sallouti teria afirmado que a plataforma não é confiável. Em resposta, Magalhães teria acusado o CEO de estar “mentindo na cara do povo” para proteger sua instituição financeira. 

Contudo, Sallouti e Vera Magalhães nunca foram entrevistados no Roda Viva. A jornalista deixou o comando do programa em janeiro de 2026 e Ernesto Paglia assumiu a função. Uma pesquisa por palavras-chave no Google e uma busca na página do programa pelas últimas edições não localizou nenhuma entrevista com Sallouti.

Os textos são ilustrados com supostas imagens da briga entre os dois, mas os registros foram gerados com inteligência artificial — como indicou análise no SynthID, ferramenta de detecção de IA do Google DeepMind.

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Capturas de telas feitas em 18 de junho de 2026 da análise do SynthID. Símbolo de inteligência artificial (Ai) adicionado pela AFP (.)

Já o conteúdo em espanhol sugere que o ministro da Economia da Argentina, Luis Caputo, teria “abandonado” uma entrevista no programa La Noche de Mirtha, veiculado no canal argentino El Trece, após o jornalista Nicolás Wiñazki supostamente afirmar que ganhou 5,7 milhões de pesos argentinos (aproximadamente R$ 20 mil) em um mês com um aplicativo. 

De acordo com a publicação, a página mostra o que “tentaram apagar do ar”. Wiñazki já participou do programa, mas, até o momento, o ministro da Argentina não foi entrevistado.

As imagens dos artigos em espanhol também foram produzidas com IA, de acordo com a análise do SynthID. 

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Capturas de telas feitas em 18 de junho de 2026 da análise do SynthID. Símbolo de inteligência artificial (Ai) adicionado pela AFP (.)

Os artigos em ambos idiomas terminam com o depoimento (1, 2) de supostas pessoas comuns que teriam ganhado dinheiro com as plataformas financeiras. Algumas das imagens (1, 2) desses supostos perfis estão disponíveis em bancos públicos de fotos.

O Checamos identificou oito domínios diferentes (1, 2, 3, 4, 5, 6, 7, 8) em português e três (1, 2, 3) em espanhol que replicam o conteúdo fictício. 

Fábio Diniz, presidente do Instituto Nacional de Combate ao Cibercrime (INCC) no Brasil, analisou os links dos textos em português enviados pela AFP e constatou que essas URLs “contêm parâmetros de programa de afiliados, o que indica um esquema industrializado, em que divulgadores são remunerados por vítima encaminhada, padrão recorrente em redes internacionais de falsos investimentos”

Fraude eletrônica

Ao mencionar a suposta oportunidade financeira, as páginas que simulam o layout do Roda Viva e dos portais de notícias argentinos incluem links para uma plataforma de investimentos. Ao clicar, o usuário é redirecionado a uma interação (1, 2) com um chat virtual de mensagem, que se apresenta como “gerente pessoal na plataforma NeoCapital”, no Brasil, e da “Profitiva Fundres” ou “Profitina Fundcore” na Argentina.

A suposta assistente, chamada Mariana no Brasil e Valentina na Argentina, possui a mesma foto em ambos os idiomas — uma imagem que também está disponível em bancos de imagens públicos. 

Na conversa, ela solicita dados do usuário como nome, sobrenome, e-mail e número de celular. No questionário, também é perguntado se a pessoa possui conta bancária no país, seja no Brasil ou na Argentina. Em seguida, afirma que o próximo passo é aguardar a ligação de um “representante oficial” para confirmar os dados antes de fazer o depósito. 

O Checamos fez testes com nomes fictícios em diferentes domínios e constatou que, mesmo sem a ligação, algumas páginas são atualizadas e o usuário é redirecionado para fazer um depósito online (1, 2). Ao terminar de preencher o cadastro, é exibida uma área de investimento (1, 2). 

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Captura de tela feita em 8 de junho de 2026 do suposto site de investimento (.)
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Captura de tela feita em 19 de junho de 2026 do suposto site de investimento (.)

“No direito brasileiro, a conduta configura, em tese, estelionato na modalidade de fraude eletrônica, além de possíveis crimes contra a economia popular e violações à LGPD [Lei Geral de Proteção de Dados Pessoais] pela coleta enganosa de dados”, explica o presidente do INCC. 

Ao finalizar a inscrição nos sites em português, é exibida uma página onde se vê supostas negociações, entre elas, de Forex (mercado de moedas) e ações de CFD (Contratos por Diferença) – derivativos financeiros que permitem especular sobre a valorização ou desvalorização de ativos, moedas e commodities, sem adquirir o ativo em si.  

Contudo, essas práticas não são autorizadas no Brasil, como explicou a Comissão de Valores Mobiliários (CVM) à AFP em 10 de junho de 2026.

Os participantes do mercado de ações que possuem registro junto à CVM podem ser consultados no Cadastro Geral de Regulados, disponível no site da CVM

“Em relação a promessas de retornos fixos ou expressivos, a CVM alerta que não existem investimentos com rentabilidade garantida e risco reduzido nesse tipo de operação”, alertou a autarquia.

Sinais de coordenação e automação das contas no X

Os perfis que compartilham os falsos anúncios no X apresentam características semelhantes que indicam uma ação coordenada. 

Todos se descrevem como “Influenciador nas mídias sociais”, possuem poucos seguidores, e apesar de possuírem diferentes datas de criação, foram verificados no mesmo mês: em junho de 2026. 

Com poucas postagens, todos os perfis compartilharam imagens de pássaros de bancos de imagens públicos em datas próximas.

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Capturas de telas feitas em 11 de junho de 2026 de perfil no X (.)

Para Diniz, do INCC, esses elementos permitem identificar “com bom grau de confiança” sinais de coordenação e automação “que vincula os perfis a uma mesma rede de monetização”.

O programador argentino Maximiliano Firtman também analisou o conteúdo viralizado e identificou que, em espanhol, as publicações começaram no Facebook e logo migraram para o X. “Há muitas contas que não faziam publicações ou tuítes há uma década. Na investigação que conduzi envolvendo cerca de dez contas, [verifiquei que] elas têm origem em vários países — como Turquia, Turcomenistão e Uzbequistão”.

Segundo Diniz, essas postagens combinam três técnicas diferentes: falsificação de identidade visual de programas jornalísticos para emprestar credibilidade ao golpe (brand spoofing); oferta de investimento inexistente ou enganosa; e coleta de dados pessoais por meio de um falso atendente. “Engenharia social típica de phishing”, afirma. 

Essas técnicas são usadas para enganar usuários e obter informações e dados pessoais. Esse tipo de golpe usa da vulnerabilidade humana para explorar a confiança, o medo e a urgência, detalha Rodolfo Avelino, especialista em cibersegurança e professor no Insper. 

“É uma manipulação psicológica de pessoas, para que elas realizem uma ação que normalmente não fariam. O foco é sempre na pessoa, e não na exploração de falhas técnicas. Explorar a confiança, explorar a curiosidade das pessoas”, diz Avelino.

“Começar desconfiando” 

Especialistas do Brasil e da Argentina recomendam cautela com qualquer promessas de ofertas com rápido retorno. “A maneira de se proteger de golpes financeiros é desconfiar de qualquer coisa” que ofereça “retornos exorbitantes”, afirmou Firtman.

Pedro Henrique dos Santos, advogado e pesquisador do Data Privacy, concorda. Ao Checamos, Santos destacou que o primeiro passo é “começar desconfiando, de qualquer link, de qualquer site que aparece. O segundo é verificar se esse site ou empresa de fato existem e tentar buscar sempre os canais oficiais”

Isso porque o risco é real, alerta: “o roubo de dados é um tipo de situação em que, com poucas informações — como CPF, nome, endereço —, é possível realizar uma espécie de roubo de identidade”.

O Data Privacy tem um guia online sobre como o cidadão pode exercer seus direitos garantidos pela LGPD.

De acordo com as regras do X  sobre anúncios, é proibida a veiculação de conteúdo “enganoso e fraudulento”. O Checamos constatou que as contas que divulgavam o anúncio em português foram suspensas da plataforma.  

Em nota, a Fundação Padre Anchieta, entidade mantenedora da TV Cultura, afirmou que “tem acompanhado com rigor os casos de manipulação e uso indevido de seus conteúdos e marcas em plataformas digitais para a disseminação de informações falsas”.

Referências

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23 de junho de 2026 Atualiza imagem de capa

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