Vídeo sobre delação de Vorcaro contra Lulinha e Moraes foi feito com IA; delação do banqueiro ainda não aconteceu

Daniel Vorcaro está preso desde o início de março de 2026 por tentar obstruir as investigações relacionadas ao Banco Master, instituição que controlava. Nesse contexto, um vídeo que ultrapassa 1 milhão de visualizações nas redes sociais desde 22 de abril alega que o banqueiro delatou Fábio Luís Lula da Silva — o Lulinha — e o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Alexandre de Moraes como envolvidos no atentado contra Jair Bolsonaro em 2018. Mas o vídeo foi feito com inteligência artificial (IA). A defesa do banqueiro tenta negociar uma delação à Justiça, o que ainda não aconteceu.

De acordo com o vídeo viral, que se assemelha a um telejornal, Daniel Vorcaro teria enviado à Polícia Federal (PF) 147 páginas que revelariam “os verdadeiros rostos por trás do atentado contra Jair Bolsonaro”.

As postagens, que circulam no Facebook, no Instagram, no YouTube, no TikTok e no Kwai alegam que Moraes “não apenas sabia do plano contra a vida do ex-presidente, como teria atuado nos bastidores para que as investigações sobre Adélio Bispo nunca chegassem aos verdadeiros mandantes”.

Filho do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), Lulinha teria sido mencionado por Vorcaro como “o elo que conecta o submundo do crime aos gabinetes luxuosos do poder”.

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Captura de tela feita em 29 de abril de 2026 de uma publicação no YouTube (.)

Daniel Vorcaro foi preso pela primeira vez em novembro de 2025, na primeira fase da Operação Compliance Zero, da Polícia Federal (PF). Solto na sequência, o banqueiro foi novamente preso em 4 de março de 2026, por atrapalhar as investigações sobre uma fraude bilionária envolvendo o Banco Master. A prisão preventiva foi determinada pelo ministro do STF André Mendonça, a pedido da PF.

Há quase dois meses na prisão, o banqueiro que comandava o Banco Master busca, junto à PF, um acordo de delação premiada que, até a publicação desta verificação, não aconteceu.

A Polícia Federal, por sua vez, já concluiu em dois inquéritos (1, 2) que Adélio Bispo de Oliveira — homem que desferiu uma facada contra Jair Bolsonaro durante a campanha presidencial de 2018 — agiu sozinho. 

A instituição não divulgou nenhuma informação sobre a entrega de qualquer documento por Vorcaro.

Vídeo viral foi feito com IA

A ferramenta de detecção de inteligência artificial (IA) Hive Moderation apontou 98,3% de chance de a fala no vídeo falso ter sido gerada por inteligência artificial. Teste realizado na ferramenta de checagem InVID WeVerify também sinalizou a presença de áudio sintético ao longo do vídeo.

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Captura de tela do teste de detecção de IA realizado na Hive Moderation em 29 de abril de 2026 (.)

Além disso, o conteúdo tem origem em um canal de notícias fictícias.

Em 13 de março de 2026, o AFP Checamos desmentiu uma outra alegação falsa baseada em um vídeo do mesmo suposto apresentador. 

A análise do conteúdo revelou a presença de inteligência artificial na publicação e localizou um canal no YouTube como origem da desinformação.

Uma busca nesse mesmo canal mostra que o vídeo sobre a delação de Vorcaro tem a mesma origem. Embora o conteúdo esteja sinalizado como tendo sido gerado por IA na publicação original, a informação é omitida em postagens virais em outras redes sociais.

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Captura de tela feita em 28 de abril de 2026 no YouTube (.)

Em ambos os vídeos, o “estúdio” onde o telejornal fictício acontece apresenta as mesmas características visuais, o que indica o reaproveitamento da imagem sintética para diferentes conteúdos. Os televisores ao fundo, por exemplo, exibem as mesmas imagens estáticas.

Relatos na imprensa brasileira dão conta de que Vorcaro pretende fechar um acordo para a delação premiada até o início de maio de 2026 (1, 2).

A possibilidade de delação tem gerado temores em Brasília em razão das conexões já reveladas entre Daniel Vorcaro e figuras do alto escalão da política nacional. No entanto, não há relatos públicos de que uma eventual delação do banqueiro possa revelar novos fatos sobre o atentado contra Jair Bolsonaro em 2018.

Conteúdo semelhante foi checado por Reuters e por Aos Fatos.

Referências

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