Discurso de Leonel Brizola com acusações e críticas a Jair Bolsonaro foi gerado com inteligência artificial

  • Publicado em 18 de fevereiro de 2026 às 17:29
  • 3 minutos de leitura
  • Por AFP Brasil

Uma gravação em que o falecido político gaúcho e fundador do Partido Democrático Trabalhista (PDT) Leonel Brizola parece chamar o ex-presidente Jair Bolsonaro de oportunista foi visualizada mais de 1,1 milhão de vezes nas redes sociais, desde pelo menos 10 de fevereiro de 2026. Mas a gravação — na qual Brizola também acusaria Bolsonaro de ter associações com milícias — foi  manipulada com inteligência artificial, a partir de um discurso de Brizola a eleitores jovens sobre o futuro da política. Não foram localizados registros de que o ex-governador tenha feito críticas públicas a Bolsonaro.

“NÃO FOI FALTA DE AVISO! Leonel Brizola morreu há 22 anos e previu que não estaria vivo para presenciar o futuro dos jovens; mas revelou naquela época o que sempre foi um certo cidadão que hoje está preso!”, diz o texto sobreposto às publicações compartilhadas no Facebook, no Instagram, no Threads, no X e no Kwai.

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Captura de tela feita em 12 de fevereiro de 2026 de uma publicação no Facebook. Símbolo de inteligência artificial (Ai) acrescentado pela AFP. (.)

Na sequência viralizada, Leonel Brizola parece dizer: “Sei que não vou estar vivo para presenciar o futuro dos jovens. Tive diversas experiências na política, mas há um deputado federal da ala conservadora do Rio de Janeiro que me causa grande inquietação”.

E continua: “Ele está associado a milícias. Embora não seja amplamente reconhecido no Brasil, seu nome é Jair Messias Bolsonaro. Trata-se de um oportunista que se sustenta em inverdades e demagogia, sendo reeleito por via. Vários anos sem ter realizado nada significativo”.

No entanto, o vídeo não é um registro autêntico do político gaúcho criticando o ex-presidente Bolsonaro.

Vídeo gerado com IA

Uma busca no Google pelas palavras-chave “Leonel Brizola” e “discurso” encontrou vídeos (1, 2) de uma mensagem do ex-governador ao eleitorado jovem, na qual ele aparece de maneira similar àquela vista na sequência viral: de camisa social azul, gravata preta e à frente de um fundo preto. No entanto, não há qualquer menção a Jair Bolsonaro no vídeo.

Uma análise das imagens do suposto discurso compartilhado nas redes permite identificar inconsistências gráficas no rosto de Brizola  que são compatíveis com conteúdos gerados por inteligência artificial, como oscilações de seus traços faciais.

Submetido à análise da ferramenta de detecção de deepfakes do plugin de verificação InVID-WeVerify, o vídeo apresentou evidências “muito fortes”, com 94% de probabilidade, de que ele contenha rostos manipulados com IA.

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Captura de tela feita em 12 de fevereiro de 2026 de uma análise do InVID-WeVerify. Símbolo de inteligência artificial (Ai) acrescentado pela AFP. (.)

Uma análise do áudio da sequência feita com a ferramenta Hiya, do plugin de verificação, também resultou em uma probabilidade de 99% de ter sido gerado com inteligência artificial.

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Captura de tela feita em 12 de fevereiro de 2026 de uma análise do Hiya (.)

Políticos contemporâneos

Antes de ser eleito presidente da República, Jair Messias Bolsonaro foi vereador no Rio de Janeiro de 1989 a 1990, momento em que Brizola se candidatava, sem sucesso, à Presidência da República após ter sido governador do estado.

Posteriormente, em 1990, Bolsonaro elegeu-se deputado federal pelo Rio de Janeiro, cargo que ocupou de 1991 a 2019. De 1991 a 1994, Brizola exerceu o segundo mandato como governador do estado, período em que tanto ele como Bolsonaro, portanto, estavam ativos na política fluminense.

Após 1994, Brizola tentou se eleger à Presidência, à Vice-Presidência e à Prefeitura do Rio de Janeiro, mas não foi eleito. O político gaúcho morreu em junho de 2004.

Uma nova pesquisa no Google, desta vez pelos termos “Leonel Brizola” e “Jair Bolsonaro” conduziu a relatos de críticas e acusações trocadas entre Bolsonaro e parentes de Brizola após sua morte, em 2010 (1, 2, 3). Contudo, não há evidências de que o ex-governador tenha citado o ex-presidente em um de seus discursos públicos.

O AFP Checamos entrou em contato com a Fundação Leonel Brizola (FLB) para confirmar possíveis citações ou críticas feitas pelo político a Jair Bolsonaro, mas não obteve resposta até a data desta publicação.

Referências

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