Vídeo não mostra manifestantes incendiando o túmulo de Khomeini, líder da Revolução Islâmica, durante protestos no Irã em 2026

  • Publicado em 16 de janeiro de 2026 às 15:21
  • 4 minutos de leitura
  • Por AFP Brasil

O Irã começa 2026 com uma das maiores ondas de protestos desde a Revolução Islâmica de 1979. Mas, ao contrário do que afirmam publicações que somam mais de 12 mil interações nas redes sociais desde 9 de janeiro, um vídeo não mostra pessoas queimando o túmulo do aiatolá Ruhollah Khomeini, líder da revolução iraniana. O registro é de um confronto entre manifestantes e forças de segurança iranianas no Grande Bazar de Teerã, em 6 de janeiro de 2026. A AFP não encontrou informações sobre um possível ataque ao Mausoléu de Khomeini.

“Manifestantes iranianos estão queimando o túmulo de Khomeini, fundador da Revolução Islâmica no Irã em 1979. Isso é INACREDITÁVEL!!”, dizem postagens que circulam no X, no Instagram e no Facebook.

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Captura de tela feita em 15 de janeiro de 2025 de uma publicação no Facebook (.)

As manifestações no Irã, iniciadas em 28 de dezembro de 2025, começaram como um protesto contra a crise econômica no país, mas evoluíram para um movimento contra o regime teocrático que governa os iranianos desde a revolução de 1979, que derrubou a monarquia e estabeleceu a República Islâmica. 

Até o momento, ao menos 3.428 pessoas morreram na repressão à insurgência contra o regime comandado por Ali Khamenei, segundo a ONG Iran Human Rights, sediada na Noruega.

Os protestos também provocaram um aumento da pressão internacional contra o Irã, principalmente por parte dos Estados Unidos, que ameaçam intervir militarmente no país. 

Mas, ao contrário do que indicam as publicações virais, o vídeo não mostra manifestantes ateando fogo no túmulo de Ruhollah Khomeini, líder da revolução iraniana e fundador da República Islâmica.

Registro de confronto em outro local

Uma busca reversa por fragmentos da sequência viral levou ao mesmo vídeo publicado pela mídia internacional em 6 de janeiro de 2026, informando se tratar de imagens de um confronto entre manifestantes e forças de segurança iranianas (1, 2). Segundo o portal sueco Aftonbladet, na ocasião os policiais usaram cassetetes e gás lacrimogêneo contra manifestantes que protestavam no Grande Bazar de Teerã, no centro da capital do Irã.

Em nenhum momento as reportagens mencionam que o conflito teria afetado o túmulo do aiatolá Ruhollah Khomeini. Nessa data, a mesma gravação foi compartilhada por usuários nas redes sociais. O incidente também foi reportado pela AFP.

O túmulo do ex-líder político-religioso está no Mausoléu Ruhollah Khomeini, no cemitério Behesht-e Zahra (O Paraíso de Zahra), ao sul da capital Teerã. Trata-se de um complexo que abriga os restos mortais de Khomeini e de outras figuras políticas e revolucionárias iranianas, sendo também um centro cultural e turístico.

Registros fotográficos comprovam não se tratar do mesmo local do vídeo viral. O edifício do Mausoléu possui uma arquitetura moderna, revestido por materiais nobres. Já o Grande Bazar de Teerã é um extenso mercado público, considerado um dos mais antigos do mundo. Nas suas instalações, é possível ver espécies de “túneis de acesso” a outras seções, revestidos principalmente por tijolos e azulejos, conforme o local do registro viral.

O local do túmulo de Khomeini também não é acessível por um desses túneis presentes na rua, mas na parte interna do Mausoléu, como é possível ver em um registro feito pela AFP.

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Peregrinos visitam o túmulo do fundador da República Islâmica do Irã, o aiatolá Ruhollah Khomeini, em seu Mausoléu no sul de Teerã, em 1º de fevereiro de 2019. STR / AFP (AFP / STR)

 A equipe da AFP em Paris foi capaz de confirmar que o vídeo viralizado foi gravado no Bazar de Teerã por meio de imagens de satélite.

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Comparação feita em 15 de janeiro de 2026 entre uma publicação no X (E) e uma imagem do Google Maps (.)

Uma consulta ao Google Maps mostrou que ambos os locais ficam em pontos diferentes de Teerã, com o bazar localizado na parte central e o Mausoléu ao sul da capital. Existem duas principais rotas de acesso: uma com 23 km de distância e outra com aproximadamente 25 quilômetros.

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Captura de tela feita em 15 de janeiro de 2026 da rota traçada pelo Google Maps entre o Grande Bazar de Teerã e o Mausoléu de Khomeini (.)

Contatada pelo AFP Checamos, a equipe de verificação da AFP no Oriente Médio informou que, até o momento, não reportou nenhum ataque ao Mausoléu de Khomeini, mas que, em função do período crítico e da gravidade das manifestações, não é possível comprovar totalmente a informação.

O AFP Checamos não encontrou registros de um ataque recente ao Mausoléu de Khomeini, tampouco imagens do edifício em datas posteriores ao início dos protestos no Irã.

Referências:

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