Joenia Wapichana denuncia situação dos Yanomami desde posse como deputada, em 2019

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  • Publicado em 8 de fevereiro de 2023 às 22:49
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  • Por AFP Brasil
Joenia Wapichana, presidente da Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai), denunciou, sim, a crise humanitária vivida pelo povo Yanomami durante seu mandato como deputada federal, ao contrário do compartilhado centenas de vezes desde 2 de fevereiro. A afirmação de que Joenia nunca teria falado sobre o problema circula em meio a denúncias de lideranças indígenas sobre a situação no território no início de 2023. Mas desde sua posse como legisladora em 2019 e após assumir a Funai, Joenia denunciou crimes e a desnutrição na região, inclusive tendo liderado comissões e debates sobre o assunto.

“Quatro anos como deputada Federal, eu nunca vi a índia Joenia Wapixana falar alguma coisa sobre a fome dos Yanomamis”, dizem publicações compartilhadas no Twitter, no Telegram e no Facebook.

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Captura de tela feita em 6 de fevereiro de 2023 de uma publicação no Twitter ( .)

As publicações circulam em meio à crise humanitária que assola a Terra Indígena Yanomami, denunciada por organizações indígenas e pela imprensa em janeiro de 2023.

As mensagens sugerem que Joenia Wapichana teria se pronunciado sobre a situação apenas em 2023, após assumir a presidência da Funai no governo Lula. Mas registros da Câmara dos Deputados e de suas contas nas redes sociais mostram que isso é falso.

Registros desde a posse

Desde o início de 2019, quando tomou posse como deputada federal, Joenia fez diversas publicações sobre a situação dos Yanomami.

Em maio de seu primeiro ano de mandato, recebeu lideranças indígenas e disse: “Davi Kopenawa traz suas preocupações com invasão de garimpeiro, saúde indígena e outras problemáticas que atingem a terra indígena Yanomami”.

Em novembro, comentou: “Garimpo ilegal, violência, doenças e infraestrutura precária marcam a Terra Indígena Yanomami, em Roraima, segundo especialistas ouvidos nesta terça-feira (26) em audiência pública conjunta de três comissões da Câmara dos Deputados”.

Ela se referia ao debate sobre garimpo na TI Yanomami, do qual foi uma das organizadoras, em 26 de novembro de 2019. Uma matéria da Câmara sobre o evento, intitulada “Debatedores apontam risco de genocídio dos Yanomami”, destaca uma fala de Joenia sobre a demora da Justiça em condenar criminosos pela prática de exploração mineral na região.

Em abril de 2021, a então deputada federal foi uma das requerentes de uma reunião da Comissão de Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável da Câmara dos Deputados para debater a situação socioambiental em terras indígenas. Em uma de suas falas, ela ressaltou:

“Nós sabemos que um dos povos que mais tem denunciado, por questões legais e de justiça, é o povo Yanomami. Aqui eu quero reforçar esse respeito, por mim, por nós, indígenas de Roraima, que temos visto no dia a dia a luta do povo Yanomami para combater um crime que é justamente o garimpo ilegal. Temos que deixar claro aqui: o garimpo hoje em terra indígena é crime, não tem nenhuma previsão constitucional de mudar”.

Em seguida, comentou sobre uma carta aberta de indígenas do povo Yanomami endereçada a parlamentares e leu um trecho: “Nós queremos nossos direitos e sabemos que o garimpo na terra indígena Yanomami é ilegal. Os garimpeiros estão envenenando as pessoas e contaminando nossos rios, nossos peixes, nossos alimentos e espantando a nossa caça”.

E continuou relatando: “Sabemos que o mercúrio usado no garimpo está contaminando o nosso povo. No rio Uraricoera, mais de 90% das pessoas que foram analisadas pela Fiocruz apresentaram alto índice de contaminação”.

Já em 2022, Joenia foi coordenadora e relatora da Comissão Externa para Acompanhar a Situação do Povo Yanomami da Região Waikás – Cexwaika, criada em maio.

Um trecho do relatório da comissão destaca a preocupação da presidente da Funai com questões como a desnutrição de crianças Yanomami: “A coordenadora, Dep. Joenia Wapichana, (...) solicitou que os convidados abordassem alguns temas presenciados pela Comissão na visita ao local, tais como ameaças aos direitos indígenas, subnutrição ou desnutrição em crianças, a ausência de estruturas escolares e de professores, disseminação da Covid-19, assédio e exploração sexual, tráfico de drogas e dificuldade de acesso aos serviços públicos”.

O AFP Checamos já verificou outros conteúdos sobre a crise humanitária na Terra Indígena Yanomami (1, 2, 3).

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