Relatório de congressistas republicanos não diz que Pelosi organizou a invasão ao Capitólio dos EUA

Um relatório elaborado por cinco congressistas republicanos dos Estados Unidos publicado em dezembro de 2022 responsabiliza a presidente da Câmara dos Representantes, Nancy Pelosi, por falhas na segurança registradas durante o ataque ao Capitólio em 6 de janeiro de 2021. Publicações visualizadas mais de dez mil vezes nas redes sociais desde 22 de dezembro afirmam que nessa investigação estabelece-se que foi ela quem “organizou” a invasão. Isso é enganoso: o relatório aponta Pelosi como chefe das diretrizes de segurança do local, mas em nenhum momento lhe atribui a organização do ataque.

“Eles encontram e-mails que provam que foi Pelosi quem organizou o ataque ao Capitólio”, diz uma das publicações compartilhadas no Telegram, no Facebook e no Twitter.

Esse conteúdo circulou também em espanhol.

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Captura de tela feita em 28 de dezembro de 2022 de uma publicação no Telegram ( .)

As publicações difundem a captura de tela de uma publicação do jornalista John Solomon na plataforma Truth Social, que contém o link para um artigo no site “Just the News” intitulado, em inglês, “O Partido Republicano localiza e-mails e textos que mostram que o gabinete de Pelosi esteve diretamente envolvido na falha de segurança de 6 de janeiro”.

Solomon foi acusado de promover teorias da conspiração sobre Hillary Clinton e outros temas envolvendo os democratas e sua relação com a Ucrânia.

O artigo se baseia em um relatório feito a pedido dos congressistas republicanos Jim Banks, Rodney Davis, Jim Jordan, Kelly Armstrong e Troy Nehls. No entanto, o artigo não cita Pelosi como a responsável por organizar o ataque, e sim relata parte das descobertas da investigação liderada pelos representantes.

Pelosi não é acusada de organizar a invasão

No relatório, os republicanos responsabilizam a presidente da Câmara de Representantes pelas falhas de segurança no Capitólio, no ocorrido em janeiro de 2021, mas em nenhum momento assinalam que foi Pelosi quem organizou a invasão.

“Em 9 de fevereiro de 2022, a presidente da Câmara de Representantes, Nancy Pelosi, disse: ‘Não tenho poder sobre a polícia do Capitólio’. Isso é falso. Os documentos fornecidos pelo Sargento de Armas da Câmara mostram como o então Sargento de Armas da Câmara, Paul Irving, desempenhou suas funções com uma clara deferência à presidente, à sua equipe e a outros funcionários democratas”, indica o relatório, que assegura que as regras “ditam em várias circunstâncias que o Sargento de Armas deve informar diretamente o presidente da Câmara”.

Além disso, na conclusão, o texto afirma que “o Sargento de Armas da Câmara ‘acatou ordens dos funcionários do gabinete da presidente da Câmara’ e excluiu intencionalmente os republicanos de entrevistas-chave e conversas relacionadas à segurança do Capitólio” e que “funcionários do escritório do Sargento de Armas enviaram e-mails a Paul Irving dizendo que o 6 de janeiro era culpa de Pelosi”.

Também assinalam que Irving não preparou adequadamente o Capitólio para possíveis episódios de violência que poderiam ocorrer e que a polícia do Congresso segue sem sequer ter o “equipamento necessário para proteger seus funcionários”.

Consultado sobre as alegações, o porta-voz de Pelosi, Drew Hammill, disse à equipe de verificação da AFP que “vários checadores independentes confirmaram que a presidente Pelosi não planejou seu próprio assassinato”. E acrescentou: “Deixando de lado as mentiras desesperadas do ex-presidente [Donald Trump], a presidente não tinha mais responsabilidade sobre a segurança do Capitólio dos Estados Unidos nesse dia do que Mitch McConnell [líder republicano da minoria do Senado dos Estados Unidos].

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Apoiadores do então presidente dos Estados Unidos Donald Trump protestam no Capitólio, em 6 de janeiro de 2021, em Washington ( AFP / Saul Loeb)

O relatório também assegura que “a presidente da Câmara e líderes democratas estiveram muito envolvidos nas decisões de segurança no período que antecedeu o 6 de janeiro de 2021”. No entanto, em seu depoimento em fevereiro de 2021, Irving comentou que não discutiu com líderes do Congresso até 6 de janeiro sobre solicitar mais apoio da Guarda Nacional.

Questionado sobre esse tema em abril de 2021, Hammil respondeu à AFP que “o gabinete da presidente deixou claro pública e repetidamente que nosso escritório não foi consultado nem contatado sobre nenhuma solicitação da Guarda Nacional antes de 6 de janeiro”.

Veículos como o New York Post, que reportaram a análise feita pelo Partido Republicano, também explicam que o relatório expõe o papel de Pelosi como líder da Câmara nas falhas de segurança no Capitólio durante o ataque.

Relatórios do Comitê de investigação e do Senado

A Câmara de Representantes dos Estados Unidos conta com um Comitê que investiga a invasão de 6 de janeiro e publicou seu relatório final em 22 de dezembro de 2022. O documento, de 814 páginas, conclui que Trump conspirou para reverter o resultado eleitoral: “A causa central do 6 de janeiro foi um homem, o ex-presidente Donald Trump, ao qual muitos seguiram”.

O texto aponta que, durante o ataque, “os líderes do Congresso, incluindo a presidente Pelosi, o senador Schumer, o senador McConnell e o vice-presidente, estavam tomando medidas”.

“Contataram o secretário de Defesa, o procurador-geral, os governadores e funcionários da Virgínia, de Maryland e do Distrito de Columbia pedindo ajuda”, acrescenta.

Ainda que o relatório assinale que “existem passos adicionais que deveriam ter sido tomados para abordar uma potencial violência nesse dia”, o texto não responsabiliza Pelosi pelo incidente e ainda reúne mensagens de ódio e ameaças por parte dos participantes da invasão ao Capitólio dirigidas a diferentes membros do governo norte-americano, entre eles a presidente da Câmara.

O texto também estabelece que Trump “tinha autoridade e responsabilidade de enviar a Guarda Nacional ao Distrito da Columbia, mas nunca deu nenhuma ordem para enviá-la em 6 de janeiro ou em qualquer outro dia”.

O Senado publicou uma investigação realizada pelo Comitê de Segurança Nacional e Assuntos Governamentais, e pelo Comitê de Normas e Administração, que ressalta que um fator-chave que contribuiu para o ocorrido em 6 de janeiro foi “que a comunidade de Inteligência não analisou, avaliou e divulgou adequadamente as informações às forças de ordem sobre o potencial de violência e ameaças conhecidas para o Capitólio e seus membros presentes nesse dia”. O documento igualmente não responsabiliza Nancy Pelosi.

A AFP já verificou anteriormente alegações de que o ataque foi uma encenação de Pelosi.

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