Esta foto não mostra um “vazio no espaço”, mas uma nuvem de gás e poeira que esconde estrelas

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Uma fotografia de um suposto vazio no espaço, com um tamanho de centenas de milhões de anos luz, foi compartilhada mais de mil vezes em redes sociais desde 29 de julho de 2022. Mas, na realidade, a imagem mostra uma nuvem molecular, formada de gás e poeira, que, ao absorver a luz, esconde as estrelas, que ainda podem ser vistas com aparelhos de luz infravermelha.

“Esse é um vazio no espaço profundo tão grande que, se você viajasse por ele, não encontraria nada por 752.536.988 anos”, diz uma das publicações que circulam no Facebook (1, 2), Twitter e Instagram

A fotografia, creditada à Administração Nacional da Aeronáutica e do Espaço dos Estados Unidos (Nasa), mostra uma zona escura rodeada de estrelas. 

Captura de tela feita em 2 de agosto de 2022 de uma publicação no Facebook ( . / )

Versões similares circulam em inglês e espanhol

Uma busca reversa pela imagem no Google levou a uma publicação no site da Nasa, feita em 8 de outubro de 2017, explicando que a imagem corresponde à “nuvem molecular Barnard 68”, na qual “uma alta concentração de poeira e gás molecular absorve praticamente toda a luz visível emitida pelas estrelas ao fundo”

“O fato de que estrelas não sejam vistas na parte central indica que Barnard 68 está relativamente próxima, com medições que a localizam a 500 anos de luz de distância” e com uma largura de meio ano luz

“Não se sabe exatamente de que maneira nuvens moleculares como a Barnard 68 são formadas, mas sabe-se que estas nuvens são em si próprias lugares prováveis para que se formem novas estrelas”, acrescenta.

Gonzalo Tancredi, doutor em astronomia e membro da União Astronômica Internacional, explicou à AFP que “é totalmente incorreto falar de um vazio, de fato está cheio de matéria”.

“No infravermelho, diferentemente da imagem no espectro visível, a nuvem pode ser mais transparente e por isso algumas das estrelas que estão atrás podem ser observadas”, apontou.  

O Observatório Europeu do Sul (ESO, em sua sigla em inglês) publicou, em 2 de julho de 1999, uma imagem da Barnard 68 na qual, por medições de cor, as estrelas são observadas de trás da nuvem. 

O ESO detalha que as nuvens deste tipo estão “compostas majoritariamente de hidrogênio molecular (H2) e, porque são muito frias, 99% de sua massa é indetectável à observação direta” .

Tancredi acrescentou que elas são nomeadas de “nuvens moleculares gigantes”, porque os gases são encontrados em formato de moléculas e não de átomos.