Ativistas pintam com sinais verdes barris de petróleo durante um protesto na sede do Banco Mundial, em Washington, em 10 de outubro de 2008 ( AFP / Tim Sloan)

“Greenwashing”, o novo campo de batalha da desinformação sobre o clima

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As grandes empresas enviam mensagens enganosas sobre os seus esforços para reduzir as emissões de gases do efeito estufa e frear a mudança climática, especialmente através das redes sociais, advertem ativistas e analistas. Para eles, o “greenwashing” ou “impostura ecológica”, que consiste em manter um discurso ecológico ao mesmo tempo em que se segue promovendo os combustíveis fósseis, é o novo campo de batalha na luta contra a desinformação sobre o clima.

Os críticos dessa prática consideram que tais mensagens “verdes” buscam disfarçar a atividade das empresas poluidoras, mesmo conscientes de que o impacto das energias fósseis na mudança climática está devidamente documentado.

As emissões líquidas zero

O Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC), da ONU, explica que as emissões de gases de efeito estufa devem ser reduzidas ao líquido zero até 2050, para respeitar o limite de 1,5 ºC de aumento das temperaturas em relação à era pré-industrial estabelecido no Acordo de Paris, o que, em tese, permitiria evitar as piores consequências ambientais da mudança climática.

A Agência Internacional de Energia (AIE) publicou em 2021 um roteiro para a transição a fontes de energia não fósseis para chegar a esse objetivo. Um dos principais meios é “não investir em novos projetos de abastecimento de combustíveis fósseis”.

Apesar disso, grandes bancos têm financiado com milhares de milhões de dólares empresas que extraem petróleo e gás, segundo uma análise da organização ShareAction, especializada em vigilância de investimentos éticos.

E não são só bancos: muitas empresas que assumiram o compromisso seguem defendendo os combustíveis fósseis, segundo investigadores.

Ativistas climáticos e especialistas destacam a diferença entre o discurso “verde” e as ações reais.

Consultados pela AFP, ExxonMobil e Chevron afirmaram que os cenários previstos pelo Acordo de Paris e pela AIE entendem que os combustíveis fósseis desempenharão um papel durante a transição, junto às novas fontes de energias renováveis.

A comparação de imagens abaixo mostra um exemplo dessa prática, por parte da companhia energética britânica BP: em uma publicação no Facebook (à esquerda), afirma que “as empresas que estão se transformando para serem mais sustentáveis permitem alcançar os objetivos do Acordo de Paris mais rapidamente, graças a seu tamanho e seus recursos”, enquanto em outra da África do Sul incentiva a encher o tanque para participar de um concurso.

Capturas de tela de duas publicações da BP no Facebook, feitas em 7 de julho de 2022

A BP não respondeu às perguntas da AFP sobre essa questão.

Outro exemplo na mesma rede social é o da francesa TotalEnergies: em uma publicação de fevereiro de 2022 (à esquerda), alega “participar da descarbonização do transporte rodoviário”, ao mesmo tempo em que sua página para o Marrocos sorteia a cada semana “um ano de combustível” grátis.

Capturas de tela de duas publicações da TotalEnergies no Facebook, feitas em 7 de julho de 2022

Ao ser contatada para este artigo, a TotalEnergies se referiu ao discurso de seu diretor geral, Patrick Pouyanné, na assembleia geral de acionistas de maio de 2022, em que detalhou o plano da empresa para alcançar um nível de emissão líquida zero até 2050: “Este enfoque não é uma ilusão nem um exercício de ‘greenwashing’, está ancorado em objetivos quantificáveis de redução de nossas emissões de gás de efeito estufa”, disse.

Pinguins e petróleo

A chave para identificar o “greenwashing” é observar quanto diferem as ações das empresas das normas que os cientistas consideram necessárias para reduzir realmente as emissões, explicou à AFP a ativista e pesquisadora norte-americana Genevieve Guenther.

O Greenpeace sinaliza que as empresas recorrem a "afirmações audaciosas, imagens inspiradas na natureza e a palavras ‘verdes’ da moda”, enquanto “ignoram outras questões ambientais mais importantes”.

O observatório Eco-Bot.net, cujo objetivo é “revelar a desinformação em torno da mudança climática e do ‘greenwashing’ das empresas durante a COP26”, celebrada em 2021, aponta por sua vez a comunicação que “apresenta ações simbólicas para construir uma imagem de marca simpática”. A organização identificou anúncios e mensagens em redes sociais sobre a proteção dos bichos-da-seda (da empresa mexicana Cemex), dos sapos (da empresa de gás TransCanada), dos pinguins (da brasileira Petrobras), dos bosques (da espanhola Repsol, entre outras) e uma mensagem da gigante norte-americana ExxonMobil sobre a reciclagem de redes de pesca na Patagônia chilena.

Capturas de tela de publicações no Facebook da Repsol (esq.) e da ExxonMobil, realizadas em 8 de julho de 2022

Zona cinza

Este tipo de mensagem usualmente escapa ao trabalho de verificação da informação (fact-checking) tradicional, assinalam vários dos especialistas consultados pela AFP.

“A impostura ecológica é uma forma muito mais complexa de desinformação”, não pode ser classificada como “verdadeira” ou “falsa”, apontou Melissa Aronczyk, professora de Comunicação da Universidade Rutgers, de Nova Jersey, e coautora de vários estudos sobre o tema.

Emmanuel Vincent, fundador do site de verificação especializado em questões climáticas Climate Feedback, concordou e destacou que o “greenwashing” se encontra em uma “zona cinza” para a verificação.

Protesto contra o “greenwashing” em Poitiers, na França, em 22 de agosto de 2012 ( AFP / Alain Jocard)

A própria natureza das atividades de “greenwashing” faz com que elas sejam “difíceis de identificar”, analisou Aronczyk. “Se uma empresa diz que está avançando para as emissões líquidas zero ou que luta contra a mudança climática com veículos elétricos (...), como pode alguém investigar ou refutar isso?”

Impacto e atraso

Segundo ativistas climáticos, a promoção de slogans ambientais tranquilizadores (como as iniciativas das empresas sobre a proteção da fauna local) e os planos de ação com uma utilidade limitada prejudicam o trabalho que deve ser feito para conter as mudanças climáticas.

“Este ‘branqueamento ecológico’ é fundamentalmente uma tática que busca atrasar a regulação governamental. Também pode enganar o público, ao convencê-lo que já foram tomadas medidas a favor do clima quando as ‘Big Oil’ [as grandes companhias petroleiras] seguem pressionando para que haja novas explorações petroleiras e de gás”, considera Faye Holder, diretora de programa em InfluenceMap.

Esse grupo de reflexão tem analisado milhares de documentos para avaliar as mensagens de empresas energéticas em redes sociais e compará-las com suas ações.

“Temos visto que as grandes petroleiras usam diferentes estratégias de mensagens públicas para tentar acalmar as preocupações” sobre as mudanças climáticas, explicou Holder.

Um estudo publicado em fevereiro de 2022 pela revista científica PLOS One analisou também a diferença entre as palavras e os atos sobre a mudança climática de quatro multinacionais energéticas: BP, Shell, ExxonMobil e Chevron.

Suas estratégias “verdes” estão “dominadas mais pelas promessas do que pelas ações concretas”, concluiu o estudo, cuja autora principal é Mei Li, da Universidade de Tohoku, Japão.

Contatadas pela equipe de checagem da AFP, essas empresas detalharam os esforços que fazem em temas climáticos: energias alternativas, captura e armazenamento de carbono.

A ExxonMobil e Chevron destacaram suas medidas a favor do clima em vários informes. A Shell sublinhou seu objetivo de emissões líquidas zero e suas políticas de transição. A BP não respondeu à solicitação da AFP (sua estratégia climática pode ser consultada aqui).

O “greenwashing” diante da justiça

A empresa francesa TotalEnergies tem dirigido parte de sua produção para o gás, uma energia criticada pelos ativistas, porém considerada uma forma de garantir a transição para as energias limpas, já que emite menos gases de efeito estufa que o carbono e o petróleo.

Isso não a impediu de ser levada para a justiça por “práticas comerciais enganosas” por ONGs ao apresentar seus produtos em uma campanha na mídia e na internet em 2021. Eles põem em dúvida sua ambição declarada de neutralidade de carbono até 2050 e que apresente o gás como a energia fóssil “mais limpa”.

“A TotalEnergies executa sua estratégia de forma concreta (investimentos, novos ofícios, redução significativa de gases de efeito estufa…) e está alinhada com os objetivos que a empresa estabeleceu para alcançar a neutralidade de carbono em 2050”, respondeu um porta-voz do grupo petroleiro. “Por isso, é falso dizer que nossa estratégia é ‘greenwashing’”, disse à AFP.

Nos Estados Unidos, a cidade de Nova York lançou em 2021 uma ação judicial parecida contra ExxonMobil, Shell, BP e American Petroleum Institute (API), um poderoso grupo de pressão, acusados de “enganar intencional e sistematicamente os nova-iorquinos" com sua publicidade.

Ativistas climáticos protestam em frente da Suprema Corte de Nova York, em 22 de outubro de 2019 ( AFP / Angela Weiss)

Grupos de pressão

Segundo os ativistas do clima, os vínculos entre essas empresas e os grupos de pressão (conhecidos como “lobistas”) favoráveis às energias fósseis demonstram a natureza ambivalente de sua comunicação pública em matéria de energia e mudanças climáticas.

Uma análise do InfluenceMap mostrou que as cinco maiores empresas petroleiras e de gás que cotam na bolsa gastaram 1 bilhão de dólares para promover mensagens “enganosas” sobre o clima através “da imagem da marca e atividades de pressão” nos três anos posteriores à assinatura do Acordo de Paris.

Nos Estados Unidos, uma comissão liderada pelos democratas colocou à prova grandes empresas ao solicitar que seus dirigentes declarassem sobre suas atividades de lobby.

“Por um lado, se comportam como se atuassem em conformidade com esses importantes objetivos em matéria de mudança climática. Por outro, criam grupos de pressão para transmitir uma mensagem que vai diretamente no sentido contrário a esses objetivos”, declarou o deputado democrata John Sarbanes, em uma audiência da comissão em 8 de fevereiro de 2022.

“Grande parte das atividades de pressão foram realizadas de forma indireta, inteligente, hábil e cínica por grupos comerciais industriais formados por essas empresas”, disse Sarbanes à comissão.

Em uma reportagem publicada pela emissora pública britânica Channel 4 News, em 2021, um lobista que trabalhou para a ExxonMobil foi gravado enquanto admitia, durante uma entrevista com ativistas do Greenpeace, que faziam-se passar por caça-talentos, que havia “lutado de forma muito ativa contra certos dados científicos” para “proteger [seus] investimentos”.

Os montantes que os grupos de combustíveis fósseis gastam em ações de lobby federal nos Estados Unidos e diante das instituições europeias em Bruxelas são públicos e consultáveis. Porém as quantias declaradas são insignificantes em comparação com os valores globais que as empresas dedicam a publicidade, relações públicas e outras formas de influência, segundo estudos realizados por investigadores como Aronczyk.

Tradução e adaptação
Clima