Água com limão ou deixar de comer açúcar para prevenir o câncer, a desinformação do “Dr. Gupta”

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Deixar de consumir açúcar não previne o câncer, e tampouco beber água com limão, explicaram especialistas à AFP. No entanto, publicações compartilhadas mais de 133 mil vezes desde 2018 garantem que são eficazes. A mensagem viralizada inclui uma longa lista de receitas supostamente recomendadas por um “Dr. Gupta”, ou “Dr. Guruprasad Reddy B V”, cuja identidade e credenciais acadêmicas são falsas. Os especialistas ouvidos consideraram que estas recomendações para “não morrer de câncer” são “absurdas” e carecem de sustentação científica.

O conteúdo, com cerca de 20 recomendações, circula no Facebook (1, 2) e em sites em português desde pelo menos 2018.

Captura de tela feita em 29 de julho de 2022 de uma publicação no Facebook ( . / )

Publicações semelhantes circulam em espanhol, árabe, turco, russo, inglês e em romeno.

O que essa mensagem diz “não é correto”, disse Dorota Kiprian, do Centro de Oncologia do Instituto de Maria Skłodowska em Varsóvia, ao ser consultada pela AFP em 2019. “O método proposto é inconsistente com a medicina acadêmica. Ninguém curou o câncer ainda sem comer açúcar, consumir leite de coco e beber água morna com limão”, explicou.

Os conselhos são atribuídos ao “Dr. Gupta” ou “Dr. Guruprasad Reddy B V”, dependendo da publicação, e incluem uma foto de um homem com vestimenta médica. Após várias buscas reversas, a AFP não conseguiu identificar o homem da fotografia viral.

A pesquisa por esse nome levou a perfis homônimos mas de cirurgiões plásticos, pesquisadores de tecnologia dos materiais ou especialistas em medicina cardiovascular. Nenhum deles com o perfil acadêmico ou com a foto publicada no conteúdo viralizado.

Em algumas publicações (1, 2), o nome do suposto profissional é acompanhado dos termos “Universidade de Medicina Estatal de Osh, Moscou”.

A busca por esses termos no Google somente levou à Universidade Estatal de Osh, no Quirguistão (país que se tornou independente da União Soviética em 1991), não em Moscou, Rússia. No site da instituição não há registro de acadêmicos com os nomes mencionados. 

Pesquisando no Google por “Guruprasad Reddy + cancer”, é possível chegar a verificações de outros veículos, como o AfricaCheck.

Eliminar o açúcar

Segundo a publicação, “o primeiro passo é parar de comer açúcar, quando não há açúcar no organismo, as células cancerosas morrem naturalmente”.

Mario Bruno, vice-presidente da Sociedade Argentina de Oncologia, disse em 21 de julho de 2022 à AFP que essa alegação é “absurda”, assim como “o restante das alegações” do post viral.

O oncologista e doutor em Medicina explicou que, ainda que o açúcar seja o alimento de células cancerígenas, também “é o combustível das células normais” do corpo. “Se você não ingere açúcar, as células cancerígenas morrem, mas também morrem as normais. Então se mata o câncer, matando a pessoa. É como se você lhes desse cianeto: mata as células cancerosas e as normais. Você consegue matar o câncer, mas às custas de matar o portador”, afirmou.

Bruno explicou que, ainda que não se coma açúcar diretamente, muitos alimentos, como massas e pães, são transformados em açúcar quando ingeridos.

Uma colher de açúcar, em 22 de abril de 2020 em Colombo, no Sri Lanka (AFP / Lakruwan Wanniarachchi)

No mesmo sentido, a Mayo Clinic, dos Estados Unidos, informa em seu site: “Todo tipo de células, incluindo as cancerígenas, dependem da glicose no sangue para sua energia. Mas dar mais açúcar para as células cancerosas não faz com que cresçam mais rápido. Do mesmo modo, privar as células cancerosas de açúcar não faz com que cresçam mais lentamente”.

O site do Instituto Nacional do Câncer dos Estados Unidos indica que esse é um mito comum sobre a doença: “Embora pesquisas tenham indicado que células cancerígenas consomem mais açúcar (glicose) do que as células normais, nenhum estudo demonstrou que consumir açúcar fará com que seu câncer piore ou que, se deixar de consumi-lo, o câncer diminui ou desaparece”.

“No entanto, uma alimentação com um alto teor de açúcar pode ter como consequência um aumento excessivo de peso, e a obesidade está associada a um risco elevado de vários tipos de câncer”, acrescenta.

Mónica Katz, médica especialista em nutrição e presidente da Sociedade Argentina de Nutrição (SAN), disse à AFP em 19 de julho de 2022 que “a relação entre açúcar e câncer não é direta, e sim por meio do aumento de peso (...), por meio da obesidade, essa sim é cancerígena”.

Água morna com limão

“Tomar suco de limão quente pode prevenir o câncer”, assegura a publicação viral, e acrescenta: “Um estudo da Universidade de Maryland descobriu que as medicinas naturais são 1000 vezes melhores do que os químicos”.

Alegações similares já foram verificadas pela AFP. Em 2019, a Associação Espanhola contra o Câncer (AECC) disse à AFP que não há nenhuma evidência científica de que a água quente com limão possa curar o câncer, e afirmou que essa fruta “não tem nenhuma propriedade anticancerígena” e que “tampouco é verdade que seja mais potente do que a quimioterapia”

Em 2018, a AECC já havia alertado que “a água com limão é saudável, mas não cura o câncer”.

“Alguns estudos indicam que limões e outras frutas cítricas têm substâncias naturais que podem ter propriedades para combater o câncer, especificamente pectina cítrica modificada e limonóides. Estas propriedades não foram testadas em humanos”, indica o site do Centro Nacional de Investigação Sanitária (NCHR), dos Estados Unidos.

Sobre o limão, Katz disse à AFP que existe “um mito impressionante acerca de sua proteção contra o câncer”, mas que “na realidade é apenas uma lenda”.

Comerciantes avaliam a qualidade dos limões em um mercado em Ahmedabad, India, em 11 de abril de 2022 (AFP / Sam Panthaky)

“O que tem de bom no limão é que seu consumo implica em um aumento enorme de antioxidantes, mas disso para curar o câncer ou preveni-lo, não. É um antioxidante que está em todas as frutas cítricas”, afirmou.

As publicações nas redes sociais asseguram que “o limão deixa um cheiro amargo na água quente, que é o melhor ingrediente para matar as células cancerosas” e que “suco de limão frio contém apenas vitamina C”.

“Não existem estudos científicos sobre as vantagens da água quente” para curar enfermidades e que “a lógica por detrás dessa ideia de terapia com água quente é absurda”, disse à AFP em 2019 o especialista francês Bruno Falissard, diretor do Centro de Investigações em Epidemiologia e Saúde da População da França (CESP) e professor da Universidade Paris-Saclay

“A água é vital para a vida, mas claro que não tem o poder de curar doenças”, acrescentou. “Não importa se a água está quente ou fria. Não é uma cura nem é danosa. O corpo pode tolerar água entre 0 e 40 graus”, disse em uma conversa telefônica com a AFP.

A publicação viral também assegura que o ácido cítrico e o limão podem ajudar a reduzir a pressão arterial alta, a trombose venosa profunda e melhorar a circulação.

A nutricionista Katz explicou à AFP que, embora existam estudos (1, 2, 3) sobre um suposto efeito benéfico dessa fruta para melhorar os valores da pressão arterial, não são conclusivos. 

Ignacio Ríos, cardiologista do Hospital Britânico da Cidade de Buenos Aires, disse à AFP em 20 de julho de 2022: “Não está comprovado. Não existem pesquisas até esta data que possam respaldar isso de que a pressão arterial se reduz com vitamina [C]. Ela pode ser reduzida com grandes quantidades, consumindo cinco vezes a dose habitual e [mesmo assim] abaixaria somente cinco milímetros de mercúrio [unidade de pressão], o que não é significativo. Além disso, isso e fazer uma dieta saudável ou consumir líquidos é praticamente o mesmo. Pacientes hipertensos não podem ser tratados apenas com vitaminas”.

A respeito do suposto benefício contra a trombose profunda, o cardiologista argentino explicou que consumir limão “não está provado, não está nem mesmo recomendado como prevenção, ao contrário da atividade física, que comprovadamente reduz a pressão arterial, a incidência de diabetes etc”.

Outras recomendações

Algumas das publicações virais incluem outra longa lista de conselhos, muitos dos quais destacam o suposto vínculo entre consumir ou deixar de consumir certos alimentos e bebidas e o câncer. 

“Conhecemos há tempos a relação entre a dieta e o risco de câncer”, disse à AFP Isabel Echavarría, oncologista médica do Hospital General Universitario Gregorio Marañón de Madrid e secretária científica da Sociedade Espanhola de Oncologia Médica (SEOM). No entanto, assinalou que “é difícil atribuir a um alimento concreto o aumento no risco de câncer, e sim a padrões dietéticos. A dieta mediterrânea, rica em frutas, verduras, legumes…  tem sido associada a um menor risco de uma infinidade de tumores, como colorretal, na próstata, no esôfago, na orofaringe e câncer de mama”.

O oncologista argentino Bruno destacou em diálogo com a AFP que existem mais de 200 variedades de câncer e que “na maior parte dos casos, a comida não tem relação [com o desenvolvimento da doença], com exceção do câncer de cólon e de um tipo de câncer de mama sensível aos hormônios.

O AFP Checamos já verificou outras publicações virais vinculadas ao câncer, como a de que beber água gelada após as refeições pode provocar a doença ou a de que o uso do micro-ondas também leva ao surgimento de tumores.

“O abandono das conquistas médicas modernas por parte dos pacientes em favor de métodos alternativos tem como resultado uma deterioração dramática, muitas vezes irreversível, da saúde. Muitas vezes é uma sentença de morte”, afirmou a oncologista Dorota Kiprian à AFP em 2019.