Não há provas de que o uso do micro-ondas cause câncer, glaucoma, autismo, ou desnutrição

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Conteúdos publicados na Internet em diferentes idiomas ao longo dos anos afirmam que usar o forno de micro-ondas pode ser prejudicial para a saúde, já que esta seria uma das explicações para o aparecimento de doenças como câncer, glaucoma, autismo e desnutrição. A equipe de checagem da AFP consultou vários especialistas da área de Saúde, Nutrição, Química, Física e Biologia Molecular, que desconsideraram essas alegações.

“Motivos para você não usar micro-ondas em sua casa!”, “São os micro-ondas seguros?”, “Comendo com o inimigo!!! Isso é de vida ou morte”, são alguns dos títulos que acompanham as publicações (1, 2, 3, 4) a respeito dos malefícios deste eletrodoméstico.

De acordo com as definições da Organização Mundial da Saúde (OMS) e da Administração de Alimentos e Medicamentos (FDA) dos Estados Unidos, estes fornos podem aquecer alimentos, ou líquidos, através da emissão de micro-ondas, que são um tipo de radiação não ionizante.

Isto quer dizer, segundo a definição da FDA, que “não há energia suficiente para eliminar elétrons dos átomos”, diferentemente dos raios-X, por exemplo, que são ionizantes e, portanto, “podem alterar os átomos e as moléculas, causando danos às células na matéria orgânica”.

Os fornos de micro-ondas podem aquecer alimentos e líquidos através deste tipo de radiação, fazendo com que as moléculas de água dos alimentos vibrem, gerando calor. “As moléculas de água vibram quando absorvem a energia das micro-ondas e a fricção entre as moléculas resulta no aquecimento que cozinha o alimento”, explica este documento da OMS.

A FDA detalha, também, que é por esta razão que os alimentos com grande quantidade de água, como as verduras frescas, cozinham mais rápido: “A energia das micro-ondas é convertida em calor à medida que é absorvida pelos alimentos, e não faz com que os alimentos sejam ‘radioativos’ ou ‘contaminados’”.

Muitas publicações, no entanto, asseguram que as micro-ondas destes fornos podem alterar as propriedades de alguns alimentos, o que derivaria em desnutrição, obesidade e outras doenças.

A equipe de verificação da AFP na América Latina entrou em contato com nove especialistas para verificar algumas dessas afirmações:

1. O micro-ondas e o câncer

Do Hospital Sírio-Libanês, em São Paulo, centro de referência regional para o tratamento do câncer, o oncologista Denis Jardim desconsiderou a possibilidade de uma relação direta entre as micro-ondas e o câncer: “Não existe nenhum dado comprobatório de associação entre exposição ao micro-ondas doméstico e risco de câncer. Inclusive, as micro-ondas têm sido utilizadas para tratamento de alguns tumores, então é uma das ferramentas de tratamento focal de doença”.

Jardim acrescentou que o câncer é uma doença multifatorial, na qual podem influenciar aspectos ambientais como, por exemplo, os raios ultravioleta, o consumo de cigarros, dietas baseadas em gordura animal, entre outros.

A diretora do Departamento de Biologia da Universidade do Chile, Verónica Palma, concordou com Jardim. Sobre o câncer, “há causas genéticas e causas ambientais. Mas daí a gerar pânico e assinalar que o micro-ondas é uma fonte importante que gera quase causalidade de câncer, há uma grande distância”.

Bárbara Herrera, doutora em Química e professora na Pontifícia Universidade Católica do Chile, assegurou que o temor de que haja uma relação entre os fornos de micro-ondas e o câncer existe desde a década de 1980. “Está muito desconsiderado” que os fornos de micro-ondas “produzam” câncer, acrescentou a integrante do Etilmercurio, um meio de divulgação científica.

Do Instituto de Doenças Neoplásicas do Peru (INEN, em espanhol), a radioncologista Cindy Sandoval explicou à AFP que, apesar dos estudos, “ainda não há evidências convincentes que respaldem uma associação entre a radiação não ionizante e o câncer”. E acrescentou que “o único efeito biológico comprovado [das ondas não ionizantes] é o aquecimento dos tecidos. Contudo, este é um tema que continua sendo estudado”.

O Instituto Nacional do Câncer dos Estados Unidos indica em seu “Dicionário do câncer” que a respeito da radiação não ionizante “foi estabelecido que a maior parte dos tipos de radiação não leva ao câncer”.

2. O micro-ondas e o glaucoma

Um glaucoma é uma lesão do nervo óptico devido ao aumento da pressão dos líquidos do olho. Sobre isso, o diretor da Cátedra de Oftalmologia da Universidade da República Oriental do Uruguai, Marcelo Gallarreta, descartou que houvesse uma ligação: “Não existe evidência científica atual que correlacione o risco de ter um glaucoma nem outra doença ocular ao uso do forno de micro-ondas”. Gallarreta também acrescentou que se um micro-ondas for mantido em boas condições, não deve significar um dano à saúde ao emitir radiações.

Da Fundação Oftalmológica Nacional da Colômbia, o médico Emilio Méndez também descartou as afirmações relacionadas ao glaucoma: “É completamente falso. Não existe nenhuma publicação científica a respeito”.

A FDA, por sua vez, regula o uso dos fornos de micro-ondas desde 1971 e o aprova sob condições ótimas. Em seu site oficial, assegura que a radiação das micro-ondas podem aquecer o tecido corporal, sobretudo em duas áreas do corpo onde há pouco fluxo sanguíneo: olhos e testículos, em consonância com o que assinala a OMS.

O médico iraniano Farhad Nejat atende um paciente na Clínica Oftalmológica Helal Irã durante a Semana Mundial do Glaucoma de 2015 em Teerã

Especificamente sobre os olhos, a FDA explica que se uma pessoa se expõe a grandes níveis de radiação, isto pode causar catarata: “A lente do olho é particularmente sensível ao calor intenso, e a exposição a altos níveis de micro-ondas podem causar catarata. Mas estes tipos de lesão, queimadura e catarata, só podem ser causadas pela exposição a grandes quantidades de radiação de micro-ondas”.

Esse tipo de exposição ocorre nos casos em que as micro-ondas escapam do forno, como é explicado neste manual de segurança: “A maioria das lesões relacionadas ao fornos de micro-ondas são resultado de queimaduras pelo calor como consequência do contato com recipientes quentes. [...] As lesões por radiação ocorrem devido à exposição a quantidades elevadas de radiação de micro-ondas que escapa por espaços nas vedações dos fornos de micro-ondas. No entanto, as normas da FDA estipulam que os fornos de micro-ondas devem ser projetados para evitar estas fugas de radiação”.

Sobre isso, Veronica Palma, da Universidade do Chile, explicou que a FDA aprova o uso dos micro-ondas: “O importante é que as normas de fabricação impostas pela FDA devem ser seguidas”.

Dentre as suas pesquisas e advertências, a FDA adverte sobre queimaduras na pele devido às altas temperaturas dos alimentos aquecidos no micro-ondas.

3. O micro-ondas e o autismo

Segundo a OMS, o Transtorno do Espectro Autista (TEA) é “um grupo de complexos transtornos do desenvolvimento cerebral [...] Estes transtornos são caracterizados por dificuldades na comunicação e na interação social, e por um repertório de interesses e atividades restrito e repetitivo”.

De acordo com estatísticas do Centro para o Controle e Prevenção de Doenças dos Estados Unidos (CDC), de 2000 a 2014 a prevalência do autismo aumentou. O último estudo, de 2014, registrou uma proporção de uma em cada 59 crianças de oito anos nos Estados Unidos.

A nível mundial, a OMS assegura que uma em cada 160 crianças tem TEA e que, “segundo estudos epidemiológicos realizados nos últimos 50 anos, a prevalência mundial desses distúrbios parece estar aumentando. Há muitas explicações possíveis para este aparente aumento, entre elas maior conscientização, ampliação dos critérios de diagnóstico, melhores ferramentas de diagnóstico e melhor comunicação”.

Consuelo Aldunate, psiquiatra infantil do Departamento de Neurociência da Universidade do Chile, disse à AFP que não encontrou publicações que relacionem o uso dos fornos de micro-ondas ao autismo.

“A maior parte das publicações relaciona com queimaduras causadas por este utensílio. A única referência publicada por eles [Academia Americana de Pediatria] faz alusão à exposição a radiações ionizantes em crianças (e as micro-ondas são não ionizantes) relacionando-a com o desenvolvimento do câncer - particularmente da leucemia -, e não com o autismo”.

O autismo, explicou Aldunate, tem mais de uma causa: “Por exemplo, a evidência da importância dos fatores genéticos na etiologia do autismo provém de diversas fontes, incluindo em gêmeos e famílias (Muhle et al, 2004). Assim, o autismo é 50 a 200 vezes mais prevalente em irmãos de casos de autismo do que na população geral”.

4. O micro-ondas associado à obesidade

A presidente da Sociedade Argentina de Nutrição, Mónica Katz, desmentiu esta relação. “A partir de 2005, a cada cinco anos, mais ou menos, aparecem artigos ou publicações que associam o micro-ondas com a obesidade. Isso se baseia em uma correlação estatística. Associações estatísticas de duas variáveis, no entanto, não implicam em causalidade necessariamente”, explicou Katz à AFP, acrescentando que esta correlação se baseou no aumento dos índices de obesidade e na venda dos fornos de micro-ondas na década de 1980.

A especialista detalhou que os fornos de micro-ondas cumprem com as condições para um bom cozimento: “Leva menos tempo, pode ser colocado em baixa temperatura e pode cozinhar sem gordura”.

E acrescentou que em todo tipo de cozimento, “de acordo com o nível de calor e tempo ao qual submete o alimento, haverá perda de nutriente. A temperatura e o tempo aos quais você o submete são os dois fatores e, volto a repetir: não importa o método. De fato, como o cozimento no micro-ondas é sem água” é melhor.

5. O movimento das moléculas e as propriedades da comida

Gerardo Ruiz, pesquisador sobre dinâmica de fluidos da Universidade Nacional Autônoma do México (UNAM), explicou que o calor sobre os alimentos sempre gera mudanças. “Assinala-se que há transformações químicas nos alimentos, mas isso também pode ocorrer se algo é aquecido em uma estufa, ou com carvão. Ali é mais evidente porque a temperatura de uma chama é superior e o calor altera, por si só, a composição da matéria”, escreveu à AFP.

A nutricionista Mónica Katz também disse que “não há evidências de que exista problema em desnaturalizar algumas coisas, como as proteínas, por exemplo”. Essa desnaturalização, explica, acontece desde o momento do cozimento, depois durante “o processamento na boca, o processo metabólico-digestivo, etc”. Há uma degradação da  “proteína [...] Tenho que degradar para obter o que necessito, que são os aminoácidos”.

Sobre o que acontece com as moléculas de um alimento dentro de um forno de micro-ondas, a química Bárbara Herrera explicou: “O que as micro-ondas fazem é, com a sua energia (que não é tão alta), estimular as ligações das moléculas de água e vibrar. As ligações, a união entre oxigênio e nitrogênio, por exemplo, sempre estão se movendo como uma mola. Isso faz com que vibrem mais e liberem energia em forma de calor, fazendo com que um alimento seja aquecido”.

Contudo, a química nega que este processo gere prejuízos sobre os alimentos: “Em outras preparações, muitos dos nutrientes passam para a água que é jogada fora, mas como no micro-ondas não se usa água agregada, é feito um cozimento no qual os nutrientes ficam depois da perda produzida pelo calor e pelo tempo ao qual o alimento é submetido. Nada é desperdiçado”.

6. O forno continua emitindo micro-ondas quando está desligado

De acordo com a FDA, as micro-ondas dentro de um forno são geradas a partir de um tubo de elétrons chamado magnetron: “As micro-ondas são refletidas no interior metálico do forno, onde são absorvidas pela comida”.

O médico Gerardo Ruiz, da UNAM, disse que a radiação de micro-ondas só é produzida quando a eletricidade é enviada para este dispositivo chamado magnetron, que converte a energia elétrica recebida em micro-ondas. “Desligado, não gera nenhuma emissão, não passa como as fontes radioativas, que estão sempre emitindo”, explicou.

Bárbara Herrera também indicou que o magnetron “é um ímã que, graças à corrente elétrica, emite as micro-ondas. Não pode funcionar se não houver corrente e se a porta do forno não estiver fechada”.

A Organização Mundial da Saúde, por sua vez, esclarece que “nenhuma energia de micro-ondas permanece na cavidade, ou no alimento, depois que o forno de micro-ondas é desligado”.

Danos pelo calor

A FDA indica que recebeu relatos de queimaduras graves na pele, além de ferimentos nas mãos e no rosto devido ao borbulhar da água fervendo após ser aquecida em um forno de micro-ondas. Por isso, sugere-se que os usuários sigam as precauções listadas em cada forno e “certifique-se de não exceder o tempo de aquecimento recomendado”.

Além disso, neste documento, a FDA diz que a maioria das lesões não é relacionada à radiação: “Houve um número muito reduzido de casos nos quais foram produzidas lesões por radiação devido a circunstâncias incomuns, ou uma manutenção inadequada. Em geral, estas lesões por radiação ocorrem como consequência da exposição a quantidades elevadas de radiação de micro-ondas que escapa através de espaços na vedação dos fornos de micro-ondas”.

A OMS também indica que este dano que pode gerar na pele “aconteceria somente como consequência de longas exposições a níveis de potência muito alta, acima daqueles medidos ao redor dos fornos de micro-ondas”.

Em português, algumas publicações sugerem que este utensílio “nunca foi cautelosamente estudado antes de ser adotado pela população”. Inventado nos anos 1940 e usado nos lares a partir dos anos 1960, o forno de micro-ondas tem sido amplamente pesquisado desde então. Nesse sentido, informações da FDA e da OMS mostram que quando usado de acordo com as instruções do fabricante, fornos de micro-ondas são seguros.

Em resumo, estudos e especialistas de diferentes áreas da saúde e ciências descartam que o uso de fornos de micro-ondas gere câncer, autismo e problemas nutricionais. Além disso, não é certo que os alimentos percam a sua propriedade ao serem aquecidos, ou cozinhados, dentro destes eletrodomésticos.

Esta verificação foi realizada com a colaboração de jornalistas da AFP em Argentina, Uruguai, Colômbia, Brasil, Miami e México