A suposta descoberta de toneladas de alimentos subterrâneos faz parte de uma teoria conspiratória

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Publicações que asseguram que uma entidade denominada “White Hat Alliance” encontrou milhões de toneladas de alimentos e bebidas escondidas no subsolo pela “Cabala” ou pelo “Estado profundo” – forma como se referem a uma suposta elite que domina o mundo -, foram compartilhadas mais de 4.000 vezes em redes sociais desde o final de junho de 2022, em múltiplos idiomas. Mas a alegação é falsa, e faz parte de teorias conspiratórias que circulam há anos nos Estados Unidos, sendo impulsionadas novamente com o aparecimento do mito QAnon em 2017. Além disso, as fotografias utilizadas para “provar” a descoberta mostram um museu de Gotemburgo, na Suécia, e um depósito no Missouri, Estados Unidos.

Usuários do Facebook celebram o descobrimento de “14,2 bilhões de toneladas de alimentos de alta qualidade” em “DUMBS subterrâneos”, com os quais se podem satisfazer as necessidades de toda a humanidade durante os próximos 150 anos. De acordo com as publicações, “a Cabala” havia ocultado esses suprimentos debaixo da terra, que foram “recuperados” pela chamada “White Hat Alliance”.

Captura de tela feita em 30 de junho de 2022 de uma publicação no Facebook ( . / )

As mesmas afirmações circulam no Twitter e em publicações em outros idiomas, como inglês, espanhol e holandês.

Imagens de cima: um museu na Suécia

As publicações compartilham cinco fotografias em baixa resolução que supostamente demonstram a descoberta de alimentos armazenados embaixo da terra.

A equipe de checagem da AFP separou as quatro principais imagens e fez buscas reversas de cada uma delas no Google. Todas foram encontradas em um vídeo publicado no YouTube em 2009, intitulado “Underground US Government Bases Exposed” (Bases Subterrâneas do Governo dos EUA Expostas).

O vídeo, com oito minutos de duração, mostra uma sequência de túneis e estruturas cobertas, com a afirmação de que se encontram a “milhas sob a terra” e que constituem o “segredo mais bem guardado do governo”. Essas estruturas se chamariam “D.U.M.B.S.”: Deep Underground Military Bases”, ou “Bases militares subterrâneas profundas”, e seriam utilizadas, supostamente, para armazenar “quantidades maciças de alimentos e outros suprimentos”, além de servir para o cultivo.

A gravação conclui com a afirmação de que essas bases secretas se mantêm com o dinheiro dos contribuintes, porém que só beneficiam as elites.

Abaixo pode-se ver a captura de um fragmento que coincide com uma das imagens das publicações virais.

Captura de tela feita em 20 de julho de 2022 de uma publicação do YouTube ( . / )

Uma nova busca com o motor Yandex levou a uma página na Wikipedia que inclui a fotografia de um entorno muito semelhante ao visto nas imagens compartilhadas nas redes, e que corresponde ao Aeroseum: um museu dedicado à história da aviação militar sueca, localizado em Gotemburgo.

Nas fotos disponíveis do Aeroseum no Google Maps, há várias que mostram o mesmo entorno das fotos virais, incluindo os desenhos no teto, as cabines amarelas e a entrada.

Comparação de capturas de tela feita em 1º de julho de 2022. À esquerda, imagens da publicação viral. À direita, imagens do Aeroseum, na Suécia ( . / )

A equipe de checagem da AFP entrou em contato com o Aeroseum, que confirmou em 30 de junho de 2022 que as quatro imagens correspondem ao hangar subterrâneo do museu, e que provavelmente foram registradas entre 2001 e 2003, quando não havia aviões nem helicópteros em exibição nesse espaço.

O hangar em questão não se encontra “a milhas embaixo da terra”, como assegura o vídeo no YouTube, mas a 30 metros. Só acabou de ser construído em 1995 e nunca funcionou como depósito de alimentos e bebidas, segundo confirmaram.

Imagem inferior: armazenamento por aluguel nos Estados Unidos

Uma busca reversa no Google pela imagem inferior das publicações virais levou a resultados que mostram os armazéns da empresa Springfield Underground, no Missouri, Estados Unidos. A fotografia está na parte superior de seu site, sua página no Facebook e do seu perfil no LinkedIn.

Captura de tela feita em 1º de julho de 2022 do site da Springfield Underground ( . / )

A entidade oferece serviços de armazenamento subterrâneo a baixas temperaturas, por isso muitos de seus clientes são empresas de alimentos, como a Kraft Foods e Dairy Farmers of America. Algumas companhias alugam o espaço para guardar arquivos, e o provedor de internet Bluebird Network LLC tem ali seu centro de dados.

No site da Springfield Underground pode-se ler que ela não é uma empresa estatal, mas familiar. Assim como o hangar da Aeroseum, suas instalações se encontram a pouco mais de 30 metros abaixo da terra.

Os inexistentes “White Hats”

A “White Hat Alliance”, citada nas publicações virais, é parte da teoria conspiratória QAnon, surgida em 2017 nos Estados Unidos, que tem conquistado numerosos adeptos nos últimos anos, incluindo partidários do ex-presidente Donald Trump. Havia seguidores presentes no ataque ao Capitólio em 6 de janeiro de 2021.

A teoria assegura que quase todos os presidentes da história recente dos Estados Unidos foram “marionetes” colocadas no poder por uma elite global - também chamada de “Estado profundo” ou “Cabala” - que inclui os democratas, e que comporta uma rede de pedofilia e privilégios. Sustentam que Trump, em vez disso, colocará as coisas no lugar, condenará os culpados e inaugurará uma nova era de prosperidade.

De acordo com a conspiração, os chamados “White Hats” são pessoas “honestas”, dentro do sistema que trabalha para frustrar os planos do “Estado profundo”.

Seguidores da teoria da conspiração QAnon protestam contra as medidas de confinamento na pandemia, em 1º de maio de 2020, em San Diego, na Califórnia ( AFP / Sandy Huffaker)

A equipe de checagem da AFP entrou em contato com Aric Toler, do Bellingcat, site especializado em verificação e investigação por meio de inteligência de fontes abertas, que tem estudado a gênese e o desenvolvimento do movimento. Toler explicou que os “White Hats” são “os bons moços” do mundo QAnon, e que acredita-se que eles tenham estado infiltrados no governo antes mesmo da aparição do mito em 2017.

Toler também sinalizou que os D.U.M.B.S., ao qual fazem alusão as publicações virais, são uma “obsessão” para os seguidores da teoria conspiratória.

A suposta existência de uma rede oculta de espaços subterrâneos precede a QAnon. Já em 1995 a ideia ganhou popularidade nas mãos de Phil Schneider, um homem que dizia ter participado da construção dessas instalações, nas quais também teriam trabalhado entidades extraterrestres.