É falso que o líder da organização Drag Queen Story Hour foi preso por pornografia infantil

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Circula nas redes sociais a captura de tela de um artigo afirmando que o líder da Drag Queen Story Hour (DQSH), uma organização cujo objetivo é ler histórias para crianças, foi detido nos Estados Unidos sob acusação de pornografia infantil. As publicações foram compartilhadas dezenas de vezes desde março de 2021. No entanto, o artigo se refere a um ex-juiz do estado de Wisconsin que foi, de fato, preso por esse delito em março de 2021, mas que, segundo esclareceu a DQSH, “nunca teve um título ou posição dentro da organização”.

“Todos sabiam que isso iria acontecer, mas preferiram entregar as crianças aos predadores sexuais que ser taxado de homofóbico”, diz uma das publicações que circulam no Facebook (1, 2) e no Twitter (1, 2). 

Captura de tela feita em 4 de julho de 2022 de uma publicação no Facebook ( . / )

Conteúdo similar também circula em inglês, espanhol e francês

As publicações foram compartilhadas em um momento em que ameaças contra os defensores dos direitos da comunidade LGBTQIA+ e seus aliados, impulsionadas em parte por um aumento do discurso de extrema-direita na internet, obrigaram a cancelar alguns atos nos Estados Unidos, incluindo aqueles em que drag queens leem livros para crianças. 

Em junho de 2022, a polícia de Idaho prendeu 31 integrantes de um grupo de supremacistas brancos que planejavam atrapalhar a celebração pelo mês do orgulho LGBTQIA+. 

As postagens fazem referência a um artigo em inglês, publicado em 18 de março de 2021 pelo site conservador National Pulse, sobre a Drag Queen Story Hour, uma organização nacional com entradas em todo Estados Unidos. 

A DQSH disse em sua página que a sua missão é celebrar a leitura “através da glamurosa arte drag” e oferecer “uma programação familiar diversa, acessível e culturalmente inclusiva em que as crianças possam expressar seu eu autêntico”. 

“Brett Blomme - ex-diretor da Fundação Cream City LGBTQIA+, que dirige o programa Drag Queen Story Hour - foi preso sob a acusação de posse de pornografia infantil”, diz o artigo do National Pulse.  

Blomme, ex-juiz do Tribunal de Menores do condado de Milwaukee, foi preso em março de 2021 e responde por sete acusações relacionadas à posse de pornografia infantil. Em dezembro do mesmo ano, foi sentenciado a nove anos de prisão por distribuir esse conteúdo. 

Antes de ser nomeado juiz, Blomme atuou como diretor-executivo da Fundação Cream City, uma organização filantrópica que, segundo seu site, busca“promover os direitos humanos e responder às necessidades humanas das pessoas LGBTQ+ no sudeste de Wisconsin”.

A fundação, cujo nome faz referência a um apelido da cidade de Milwaukee, emitiu uma declaração em 21 de março de 2021 condenando Blomme. 

Em outro comunicado, publicado em 18 de março de 2021 no Facebook, a representação da Drag Queen Story Hour em Milwaukee disse que o grupo “nunca foi dirigido pela Fundação Cream City nem por Brett Blomme, e nenhum dos dois participou dos nossos eventos. Brett nunca teve um título ou uma posição dentro da nossa organização”. 

Na mesma publicação é detalhado que a Fundação Cream City “só foi um patrocinador fiscal que permitiu a DQSH Milwaukee dar e receber fundos como uma organização sem fins lucrativos. Para além das finanças, não tiveram nenhuma participação na DQSH Milwaukee e DQSH Nacional”

Segundo o National Council of Nonprofits, nos Estados Unidos um patrocínio fiscal é um acordo que "oferece uma forma para que uma causa atraia doadores inclusive se ainda não estiver reconhecida como um organismo isento do pagamento de impostos”.

“Em essência, o patrocinador fiscal atua como ‘provedor’ administrativo da causa. As contribuições benéficas são entregues ao patrocinador fiscal, que logo as outorga para apoiar a causa”, disse o grupo em seu site.  

Jonathan Hamilt, diretor-executivo da Drag Queen Story Hour, disse à equipe de checagem da AFP por e-mail que o episódio de Milwaukee da organização “cortou completamente os laços com Fundação Cream City”. 

Ele acrescentou, ainda, que “a pedofilia não tem lugar na comunidade LGBT nem na sociedade em geral”, e lembrou que as vítimas de abuso infantil ou seus familiares podem entrar em contato com a Linha Nacional de Abuso Infantil nos Estados Unidos: 1-800-422-4453.

A equipe de checagem da AFP já desmentiu alegações vinculando falsamente a comunidade LGBTQIA+ com a pedofilia(1, 2).