
Petro não propôs que casas de mais de 65 metros quadrados sejam compartilhadas na Colômbia
- Este artigo tem mais de um ano
- Publicado em 4 de julho de 2022 às 21:55
- 4 minutos de leitura
- Por AFP Colômbia, AFP Brasil
Copyright © AFP 2017-2025. Qualquer uso comercial deste conteúdo requer uma assinatura. Clique aqui para saber mais.
“A propriedade na Colômbia Humana [partido político de Petro] será para todos”, lê-se na imagem, compartilhada no Twitter (1, 2) e no Facebook.
Segundo a imagem, Petro teria apontado - quando era candidato à Presidência nas eleições de 2018 e perdeu para Iván Duque - que um dos problemas estruturais da Colômbia é a "falta de moradia" e que para resolvê-lo, quem mora em casas ou apartamentos maiores de 65 metros quadrados seriam "obrigados a dividir o espaço com outras famílias" durante seu governo.

O conteúdo circula em espanhol (1, 2) desde 2018 e voltou a ser compartilhado após as eleições.
Na última votação na Colômbia, Petro, ex-guerrilheiro e ex-prefeito de Bogotá, foi eleito presidente do país. Ele obteve 50,44% dos votos, enquanto seu oponente, Rodolfo Hernández, somou 47,31% dos votos.
Inconsistências
Uma busca avançada no Google pelas palavras-chave em espanhol "moradia", "compartilhada" e "Petro" não mostrou registros de que o político tenha dado as declarações que lhe foram atribuídas nas redes sociais.
Uma busca pelos mesmos termos na conta do Twitter do presidente eleito também não levou a qualquer conteúdo semelhante. Da mesma forma, no Wayback Machine e no Archive, plataformas que armazenam cópias de publicações em sites e redes sociais mesmo depois de excluídas, a AFP não encontrou vestígios da suposta proposta.
Em vez disso, uma busca reversa feita no Google pela imagem viralizada mostrou que em 30 de abril de 2018, Petro negou no Twitter uma série de citações que lhe foram atribuídas em imagens semelhantes. Entre eles, a suposta proposta de uso compartilhado de moradia.
Esta es la campaña calumniosa desatada y bien financiada por la corrupción y los privilegiados del Poder. Intentarán por este medio detener el avance victorioso de la Colombia Humana. pic.twitter.com/1Z9TJA46Jw
— Gustavo Petro (@petrogustavo) April 30, 2018
A AFP já havia verificado duas dessas peças: uma anunciando que o político havia proposto aumentar a idade de aposentadoria na Colômbia e outra que lhe atribuía a citação “a riqueza pertence a quem precisa, não a quem a cria”.
As imagens denunciadas por Petro recriam o formato de artigos de imprensa, mas não incluem elementos que permitam identificar o veículo em que teriam sido publicados nem os seus autores.
Esses conteúdos, além disso, atribuem declarações ao líder político supostamente dadas em 26 ou 27 de abril de 2018 de lugares muito distantes um do outro: em Bogotá, em Curumaní, município do departamento de César localizado a 695 quilômetros da capital (a nordeste) e em Popayán, cidade do sudoeste do país, localizada a mais de 570 quilômetros de Bogotá.
A imagem viralizada sobre o uso das moradias menciona especificamente que as supostas declarações de Petro foram extraídas de uma coletiva de imprensa em Bogotá e é datada de 26 de abril de 2018. A AFP não encontrou registros de que ele tenha dado uma entrevista para jornalistas naquela cidade.
Uma pesquisa nos perfis do político no Facebook e no Twitter também mostrou que, entre 25 e 27 de abril, ele fez campanha nos municípios de Ipiales, no departamento de Nariño; Puerto Tejada, Cauca, Yumbo, Palmira, Buga e Tuluá, no departamento de Valle del Cauca. Essas cidades estão localizadas a mais de 390 quilômetros de Bogotá.
Em nenhum dos discursos (1, 2, 3, 4, 5, 6, 7) feitos nas praças públicas desses municípios do sudoeste colombiano, Petro referiu-se à possibilidade de os colombianos dividirem suas casas.
Proposta do governo?
Petro foi candidato nas eleições presidenciais de 2010, 2018 e 2022. A AFP analisou os programas governamentais apresentados nas três campanhas (1, 2, 3) e não encontrou referência a uma proposta de compartilhamento de moradias como solução para a falta de casas próprias na Colômbia.
Em 18 de abril de 2022, um mês antes do primeiro turno das eleições presidenciais, Petro e sua companheira de chapa, a ambientalista e advogada Francia Márquez, assinaram um documento em um cartório público no qual prometeram respeitar a propriedade privada, embora não seja vinculante, servindo somente como um registro de sua intenção.
O político já manifestou em diversas ocasiões (1, 2, 3) que não recorrerá à desapropriação de bens em seu governo.
A AFP já verificou outros conteúdos de desinformação (1, 2) sobre as eleições gerais de 2022 na Colômbia.