O homem sinalizado na foto fazendo campanha para Dilma é conselheiro afastado do TCE-RJ

A foto de um homem fazendo campanha para a ex-presidente Dilma Rousseff (PT) foi compartilhada milhares de vezes em redes sociais como se mostrasse o porteiro do condomínio onde o presidente Jair Bolsonaro (PSL) tem uma casa no Rio de Janeiro. A imagem começou a circular depois que o funcionário mencionou o nome de Bolsonaro na investigação da morte da vereadora Marielle Franco (PSOL). O homem visto na foto não é, contudo, o porteiro de Bolsonaro, mas o conselheiro afastado do TCE-RJ Domingos Brazão, citado no caso de Marielle.

Captura de tela feita em 31 de outubro de 2019 mostra publicação viralizada no Facebook

“Olhem aí o porteiro que ficou famoso tentando incriminar Bolsonaro...acreditam agora..”, diz a legenda de uma das publicações, compartilhada mais de 5 mil vezes no Facebook desde 31 de outubro. 

“Olhem aí o porteiro com a Camiseta da Dilma 13, mais um tiro no pé dessa esquerda podre, mais uma tentativa frustrante para querer derrubar o Presidente Bolsonaro”, escreveu outro usuário, em postagem com mais de mil compartilhamentos. 

A alegação, que também foi amplamente compartilhada no Twitter (1, 2, 3), viralizou depois que a TV Globo revelou que o porteiro do condomínio onde Bolsonaro tem uma casa no Rio de Janeiro disse à polícia que, no dia do assassinato de Marielle, um dos suspeitos do crime entrou no local afirmando que iria para a casa de Bolsonaro.

Segundo a reportagem do último dia 29 de outubro, Élcio de Queiroz - acusado de dirigir o carro de onde foram feitos os disparos que mataram Marielle - disse na portaria que iria para a casa do hoje presidente, mas seguiu para a residência de Ronnie Lessa, - suspeito pela execução - que possui uma casa no mesmo condomínio de Bolsonaro. Desde então, o Ministério Público desmentiu a validade deste testemunho.

Em reação à matéria, Bolsonaro fez uma transmissão ao vivo no Facebook criticando severamente a TV Globo, que classificou como "canalha"

No entanto, o homem visto na imagem com um adesivo de campanha da ex-presidente Dilma Rousseff (2011-2016) não é o porteiro do condomínio, cujo nome não foi divulgado pela imprensa, nem pela polícia.

Captura de tela feita em 1º de novembro de 2019 da foto publicada em 2010 na conta de Domingos Brazão no Flickr

Uma busca reversa pela foto viralizada mostra que ela foi publicada em 30 de outubro de 2010, ano da primeira eleição de Dilma, na conta do Flickr do ex-deputado estadual e conselheiro afastado do Tribunal de Contas do Estado do Rio de Janeiro (TCE-RJ) Domingos Brazão. 

“Deputado Estadual Domingos Brazão fazendo caminhada para Presidente Dilma em Jacarepaguá junto com o Deputado Federal Eduardo Cunha”, diz a legenda da imagem. 

No canto esquerdo da foto, é possível identificar o político Eduardo Cunha, ao lado de Domingos Brazão. A equipe de checagem da AFP não conseguiu identificar as outras duas pessoas retratadas na imagem.

Um dia antes, em 29 de outubro de 2010, Brazão havia mencionado o evento em publicação em seu Twitter. “Convido a todos a participarem da caminhada e carreata amanhã a favor da nossa candidata Dilma nº 13, concentração na Taquara as 10 hrs.. [sic], escreveu, em referência a um bairro da região de Jacarepaguá, zona oeste do Rio de Janeiro.

Outras duas fotos (1, 2) publicadas no Flickr de Brazão, afastado do TCE abril de 2017 acusado de receber propina, também estão sendo incorretamente associadas ao porteiro do condomínio de Bolsonaro.

Apesar do homem identificado na imagem não ser o porteiro do condomínio de Bolsonaro, Brazão também foi citado no caso da morte de Marielle Franco.

Segundo documento revelado pelo portal de notícias Uol, a então procuradora-geral da República, Raquel Dodge, enviou uma denúncia ao Superior Tribunal de Justiça (STJ) afirmando que Brazão “arquitetou o homicídio da vereadora Marielle Franco e visando manter-se impune, esquematizou a difusão de notícia falsa sobre os responsáveis pelo homicídio”.

O Ministério Público do Rio de Janeiro afirmou em outubro deste ano, no entanto, que não há prova de envolvimento de Brazão no crime.

Defensora dos direitos dos jovens negros, das mulheres e da comunidade LGBT, Marielle Franco foi morta a tiros na noite do dia 14 de março de 2018. Investigações ainda apuram quem seria o mandante do crime.

Em resumo, o homem identificado na imagem viralizada é o ex-deputado estadual Domingos Brazão, mencionado como suposto “arquiteto” da morte de Marielle, e não o porteiro do condomínio onde o presidente Jair Bolsonaro tem uma casa no Rio de Janeiro.

AFP Brasil