Captura de tela de uma publicação no Facebook disseminando a falsa informação, 29 de agosto de 2018 (Facebook / AFP)

Não, venezuelanos não assassinaram comerciantes em Roraima

Confrontos na fronteira do Brasil com a Venezuela surgiram depois que um assalto violento contra um brasileiro no dia 17 de agosto deste ano no estado fronteiriço de Roraima foi atribuído a venezuelanos. Nas redes sociais, a informação de que o ataque teria sido um assassinato viralizou. No entanto, a vítima está viva e chegou a dar entrevistas depois do incidente.

Localização da cidade de Pacaraima, fronteira entre Venezuela e o estado brasileiro de RoraimaLocalização da cidade de Pacaraima, fronteira entre Venezuela e o estado brasileiro de Roraima (Anella Reta, Gustavo Izus / AFP)
 

Falsas afirmações relacionadas ao evento em que Raimundo Nonato de Oliveira, de 55 anos, sofreu agressões durante um assalto à sua residência em Pacaraima, cidade na divisa entre Venezuela e Brasil, circularam em português e espanhol na internet. “Venezuelanos assassinaram um senhor idoso”, diz uma publicação no Facebook. “Delinquentes venezuelanos assassinaram dois comerciantes e bateram em seus familiares”, afirma outra.

Raimundo está vivo, e concedeu uma entrevista ao portal G1, em que descreveu o episódio. Segundo ele, foi agredido com uma chave de fenda depois de ser surpreendido no quintal de sua casa por quatro indivíduos. O comerciante assegurou que, por ter identificado o idioma em que falavam, os mesmos eram venezuelanos. Maria Carneiro da Frota Oliveira, sua esposa, também foi agredida pelos ladrões.

Depois que os criminosos fugiram com cerca de R$ 23.000 e aparelhos eletrônicos, Raimundo foi conduzido a um hospital em Boa Vista, capital do estado, onde ficou dois dias. O comerciante foi socorrido em um carro particular, uma vez que a ambulância do hospital local não estava disponível.

Um homem caminha em frente de um campo de refugiados improvisado que, no dia 18 de agosto, foi queimado por residentes locais, 20 de agosto de 2018Um homem caminha em frente de um campo de refugiados improvisado que, no dia 18 de agosto, foi queimado por residentes locais, 20 de agosto de 2018 (AFP / Mauro Pimentel)

Contatada no dia 28 de agosto pela AFP, a assessoria de imprensa da Polícia Civil de Roraima, que investiga o caso, informou que dois inquéritos foram instaurados: apuração do roubo praticado por quatros homens venezuelanos ao comerciante e sua esposa e, por requisição do Ministério Público Estadual, investigação sobre crimes de discurso de ódio, xenofobia e incitação pública durante uma manifestação em Pacaraima logo após o ataque dos ladrões.

“Estamos com trabalhos de investigações bem adiantados e contamos inclusive com o apoio do Ministério Público. As investigações demandam tempo e estamos seguindo algumas linhas de trabalho para identificarmos os autores do crime”, manifestou a delegada Rozane Wildmad.

Segundo Wildmad, a Polícia Civil tem indícios de quem seriam os autores do roubo e que seriam estrangeiros. Os dois inquéritos, se não concluídos em 30 dias, serão encaminhados ao poder judiciário estadual. Segundo a corporação, a omissão da ambulância no socorro de Raimundo também será investigada. Não foi aberta uma investigação de homicídio, como afirmam publicações nas redes sociais.

De acordo com a Polícia Federal, de 2015 a junho de 2018, um total de 56.740 venezuelanos solicitaram refúgio ou residência no Brasil, embora seja difícil precisar quantos permanecem no país. A disputa por serviços públicos que já são escassos na região, assim como o aumento da delinquência em determinadas regiões de Boa Vista e Pacaraima geram tensões com a população local.

Crianças venezuelanas posam para uma foto em frente a um monumento no lado brasileiro da fronteira entre Brasil e Venezuela, em Paracaima, estado de Roraima, Brasil, 20 de agosto de 2018Crianças venezuelanas posam para uma foto em frente a um monumento no lado brasileiro da fronteira entre Brasil e Venezuela, em Paracaima, estado de Roraima, Brasil, 20 de agosto de 2018 (AFP / Mauro Pimentel)

A solicitação mais urgente das autoridades locais é a realocação dos imigrantes em outros estados brasileiros. Até agora, apenas 820 venezuelanos foram transferidos e 270 serão trasladados nesta semana.

Ao reiterar que a fronteira não será fechada, o ministro de Segurança Pública, Raúl Jungmann, admitiu que o processo de transferências não está funcionando com a rapidez exigida, mas assegurou que o governo federal está empenhado em prestar a assistência necessária para continuar acolhendo os imigrantes.

O presidente Michel Temer determinou nesta terça-feira a mobilização do Exército para proteger a fronteira e anunciou a intenção de buscar apoio internacional para enfrentar a crise na Venezuela, que "ameaça a harmonia" da América do Sul.

AFP Brasil