Não, indígena que acompanhou Bolsonaro na ONU não é filha de Damares Alves

Publicações compartilhadas centenas de vezes em redes sociais afirmam que a indígena Ysani Kalapalo, que integrou a comitiva do presidente Jair Bolsonaro na Assembleia da Geral da ONU em 24 de setembro, é filha da ministra da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos, Damares Alves. A alegação é falsa. Damares realmente tem uma filha adotiva indígena, mas trata-se de Kayutiti Lulu Kamayurá, e não de Ysani.

Captura de tela feita em 30 de setembro de 2019 mostra publicação viralizada no Facebook

“Sabe aquela índia mentirosa que o Bolsonaro levou na ONU. É a filha da Damares”, diz o texto que acompanha as publicações viralizadas (1, 2, 3, 4).

As postagens são compostas por cinco fotos: quatro da ministra Damares Alves com uma mulher indígena e uma da primeira-dama, Michelle Bolsonaro, ao lado de Ysani Kalapalo na sede da Organização das Nações Unidas (ONU), em Nova York.

Todas as fotos em que Damares aparece foram publicadas originalmente na conta verificada da ministra no Instagram. Nas legendas, Damares identifica a indígena como sua filha adotiva Kayutiti Lulu Kamayurá, e não Ysani.

“E quem tem uma filha linda assim não pode ser triste! As pessoas vivem perguntando o nome dela! É simples; Kayutiti Lulu Kamayurá (nossa Lulu)”, diz a legenda de uma das fotos, publicada em 10 de setembro de 2018. As demais foram postadas entre 5 de novembro de 2017 e 20 de maio de 2018 (1, 2, 3).

Já a foto com Michelle Bolsonaro realmente mostra Ysani Kalapalo e foi publicada pela indígena em sua conta no Instagram. Nas imagens, é possível ver claras diferenças físicas entre a filha adotiva de Damares e Ysani, como o formato do rosto e os traços do nariz.

Kayutiti Lulu Kamayurá, conhecida apenas como Lulu, esteve no centro de uma polêmica logo após Damares assumir o Ministério da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos no governo Bolsonaro. Em janeiro deste ano, indígenas disseram à revista Época que Lulu foi levada de maneira irregular da tribo onde nasceu.

Em reação à reportagem, Damares disse quenunca sequestrou uma criança”, mas reconheceu que a adoção de Lulu não foi formalizada. O assunto foi comentado por Ysani, em vídeo publicado no Instagram, no qual afirma não ser a filha de Damares.

“E outra coisa que eu vejo bastante pessoas [sic] dizerem: ‘a Ysani Kalapalo é aquela índia sequestrada da Damares’. Não é nada disso”, diz Ysani no vídeo.

 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 

Com ela hoje @damaresalvesoficial1❤️

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Em publicação no Twitter, Ysani também fala sobre a própria família. “A minha mãe é da etnia Aweti e Nafukuá ou seja são as etnias diferentes. Já o meu pai é da etnia Kalapalo e Wagihütü  sou uma mistura de todas etnias aí, mas oficialmente sou Kalapalo porque eu nasci e cresci na aldeia Kalapalo”, escreveu em 16 de fevereiro deste ano.

“Indígena do século 21"

Apresentada pelo presidente brasileiro em seu discurso na ONU como uma liderança indígena oposta ao cacique kayapó Raoni, Ysani Kalapalo tem sido uma figura frequente no entorno de Bolsonaro desde antes de sua eleição para o Palácio do Planalto.

Às vésperas do segundo turno eleitoral em 2018, quando a oposição acusava Bolsonaro de preterir os direitos dos indígenas, Ysani visitou Bolsonaro em sua casa no Rio de Janeiro e publicou um vídeo clamando pela vitória do então candidato à Presidência.

Incêndio florestal em Altamira, no Pará, em 27 de agosto de 2019

Dona de um canal no YouTube com mais de 290 mil inscritos no qual se descreve como “a indígena do século 21”, Ysani voltou a ter destaque no governo Bolsonaro durante uma série de queimadas na floresta Amazônica

Em vídeo publicado no canal do YouTube oficial do Ministério das Relações Exteriores, Ysani chama de “fake news” a relação entre o governo Bolsonaro e os incêndios na Amazônia. “Não é porque entrou um novo governo que ele está queimando tudo. Na verdade, nessa época do ano, nessa época quente, sempre houveram queimadas para queimar roça. Isso faz parte, é normal”, diz na gravação.

Após ser anunciado que Ysani integraria a comitiva de Bolsonaro na ONU, representantes de 16 povos indígenas assinaram uma carta de repúdio afirmando que “o governo brasileiro ofende as lideranças indígenas do Xingu e do Brasil ao dar destaque a uma indígena que vem atuando constantemente em redes sociais com o objetivo único de ofender e desmoralizar as lideranças e o movimento indígena do Brasil”.

Em resumo, é falso que a youtuber Ysani Kalapalo, que acompanhou o presidente Jair Bolsonaro na Assembleia Geral da ONU em setembro deste ano, seja filha da ministra da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos, Damares Alves. Damares é, na verdade, mãe adotiva de Kayutiti Lulu Kamayurá.

AFP Brasil