Não há evidências de que Bolsonaro vai acabar com o Carnaval e as paradas gay

Depois da posse do presidente brasileiro Jair Bolsonaro, a suposta informação de que o político de extrema-direita teria assinado, ou poderia assinar, um decreto cortando a verba das celebrações de Carnaval e das paradas gay no Brasil circulou maciçamente na internet. Mas não há nenhuma evidência que a sustente.

Nem Olinda, nem Salvador, nem Rio de Janeiro. Uma notícia pode abalar os foliões de todo o país. Presidente Jair Bolsonaro pode assinar decreto cortando verba do carnaval e parada gay em todo o Brasil”, diz uma das publicações que disseminam a informação enganosa, compartilhada mais de 66.000 vezes no portal Folhabrasilnews.com.

Captura de tela de um vídeo postado no Youtube, feita 8 de janeiro de 2019

Um vídeo no YouTube, assistido por milhares de pessoas, afirma em sua descrição: “Presidente Jair Bolsonaro acaba de assinar decreto pelo fim do Carnaval e parada gay no Brasil”.

Segundo a versão publicada no Folhabrasilnews.com, Bolsonaro, do Partido Social Liberal (PSL), teria declarado: “Temos que pensar primeiramente em nossas necessidades principais. Ninguém está autorizado a realizar financiamentos com os carnavais, principalmente os Prefeitos das Cidades, o calendário trabalhista continuará normal sem nenhuma exceção”.

Sobre a suposta declaração do novo líder do executivo, a mesma declaração foi atribuída ao então presidente Michel Temer em 2017, no contexto de outra notícia falsa alegando que o político do Movimento Democrático Brasileiro (MDB) iria pôr fim a uma das festas populares mais famosas do mundo. Não há evidências de que nenhum dos dois políticos tenha expressado tais palavras.

Os decretos presidenciais se encontram disponíveis na página oficial na internet da Presidência da República e nenhum decreto afetando o Carnaval ou as paradas do orgulho gay foi encontrado pela equipe de checagem da AFP.

A AFP solicitou informação à assessoria de imprensa da Presidência e da Casa Civil, mas ainda não obteve resposta.

A relação de Bolsonaro com a comunidade LGBT é historicamente polêmica. O político de extrema direita já realizou declarações consideradas ofensivas por movimentos de defesa da liberdade de gênero e sua agenda política é crítica em relação à proteção deste direito por parte do Estado. A mais conhecida de suas declarações homofóbicas foi realizada em uma entrevista à revista Playboy em 2011, em que disse que preferia que seus filhos morressem em um acidente a serem homossexuais.

No artigo 43 do decreto emitido no dia 1o. de janeiro de 2019, dia de sua posse, o novo presidente excluiu membros da comunidade LGBT como beneficiários de políticas destinadas à promoção de direitos humanos.

Celebrante mostra uma bandeira arco-íris, durante a Parada Gay do Rio de Janeiro, Brasil, no dia 30 de setembro de 2018

Ainda que Bolsonaro tenha uma posição conservadora sobre a sociedade e contrária ao fomento de políticas de gênero no Brasil, não há evidências que apoiem a afirmação de que irá emitir, ou que emitiu, um decreto retirando os fundos públicos para o Carnaval e as paradas gay.

AFP Brasil