Não, Austrália não dá ordens para que muçulmanos deixem o país

A informação de que o primeiro-ministro australiano teria feito um pronunciamento em que critica a presença de imigrantes muçulmanos no país vem sendo compartilhada viralmente nas redes sociais. A informação é falsa e contém diversas incongruências.

“Austrália dá uma ‘lição de civilização’ para todo mundo! Muçulmanos que querem viver sob a lei islâmica Sharia receberam ordens para deixar a Austrália, a fim de prevenir possíveis ataques terroristas. O primeiro-ministro John Howard chocou alguns muçulmanos australianos ao declarar: Imigrantes não australianos devem adaptar-se!”, diz a publicação compartilhada mais de 25.000 vezes no Facebook. O mesmo conteúdo é também disseminado por contas no Instagram.

Captura de tela de uma publicação no Instagram, feita 4 de dezembro de 2019

“Perfeito, e nós Brasileiros estamos aprendendo a valorizar nossa Pátria e costumes cada dia mais, Viva Bolsonaro!”, reage um internauta.

Os então primeiro-ministros australiano John Howard (E) e de Papua-Nova Guiné, Michael Somare (D), durante a cerimônia final do encontro da Cooperação Econômica Ásia-Pacífico (APEC) em Sidney, no dia 9 de setembro de 2007. (Jung Yeon-Je / AFP)

Primeiramente, John Howard já não é o primeiro-ministro da Austrália: seu mandato terminou há mais de 10 anos, em 2007, e o atual mandatário é o conservador Scott Morrison.

Ainda que o então chefe do Executivo tenha, em 2005, autorizado o governo a espionar mesquitas, alegando ser um esforço para combater o terrorismo depois dos atentados ao metrô de Londres, não há nenhuma evidência de que tenha feito tal declaração.

Na verdade, o texto apresentado como de autoria de Howard é uma mistura e uma adaptação de declarações de políticos australianos e de um veterano de guerra da Força Aérea dos Estados Unidos.

No dia 23 de agosto de 2005, o então ministro australiano de Finanças, Peter Costello, declarou em um programa da rede ABC sobre a questão dos valores: “Nossas leis são feitas pelo Parlamento Australiano. Se estes não são seus [dos muçulmanos] valores, se você quer um país com a Lei da Sharia ou um estado teocrático, então a Austrália não é para você”.

A maior parte da suposta citação do premiê australiano vem, no entanto, do homônimo editorial “Isto é a América. Goste ou deixe”, escrito por Barry Lourdermilk, veterano americano da Guerra do Vietnã e atualmente congressista pelo Partido Republicano representando o estado de Geórgia. O texto, que se tornou uma referência para o conservadorismo, foi publicado depois do atentado às Torres Gêmeas em Nova York no dia 11 de setembro de 2001.

A AFP enviou uma solicitação de informação ao gabinete de imprensa de Lourdermilk, mas ainda não obteve resposta.

No entanto, versões idênticas ou muito similares desta narrativa foram atreladas a outros políticos australianos, e não somente a Howard, como aos ex-primeiro-ministros Kevin Rudd (2007-2010, 2013) e Julia Gillard (2010-2013). Estas histórias falsas circulam na internet pelo menos desde 2005 e algumas foram desmentidas por portais anglófonos como Snopes, Thought Co. e Hoax-Slayer. Segundo estes serviços de checagem, o boato começou sendo distribuído através de e-mails em massa.

Nesta foto tirada em 20 de maio de 2015, imigrantes Rohingya estão em um barco próximo à costa de Kuala Simpang Tiga na Indonésia, antes de serem resgatados. Em junho daquele ano, o ministro de Relações Exteriores da Indonésia pediu explicações à Canberra depois que o primeiro-ministro Tony Abbot se recusou a negar as acusações de que oficiais australianos pagaram milhares de dólares para que um barco com imigrantes retornasse à Indonésia. (JANUAR / AFP)

Em 2017, o número de imigrantes acolhidos na Austrália com vistos permanentes caiu ao seu nível mais baixo em dez anos (162.000), como resultado de uma política que só aceita os melhores candidatos, segundo o Executivo.

No dia 20 de novembro de 2018, o governo australiano anunciou a rejeição do Pacto Mundial para Migração das Nações Unidas (ONU), assim como os Estados Unidos e alguns países europeus.

Em 10 de dezembro do mesmo ano, Dia Internacional dos Direitos Humanos, os advogados de mais de mil solicitantes de asilo na Austrália, atualmente detidos em campos no Pacífico, anunciaram que irão apresentar dois recursos coletivos contra Canberra, a quem acusam de tortura e violações dos direitos humanos.

Manifestantes fazem uma vigília em Sidney, no dia 4 de maio de 2016, para dois refugiados, uma mulher somali e um homem iraniano, que se atearam fogo na remota ilha de Nauru, no Pacífico. Mais de 750 solicitantes de asilo detidos em um campo de Papua-Nova Guiné lançaram uma ação legal no dia 4 de maio de 2016 para que fossem levados para a Austrália depois que uma corte local considerou o centro inconstitucional. (Saeed Khan / AFP)

Desde 2013, as autoridades australianas rejeitam imigrantes vindos em embarcações clandestinas e os aloja em centros nas ilhas de Nauru ou Manus, em Papua Nova Guiné. Em agosto de 2017, meios de comunicação divulgaram um telefonema entre o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, e o então primeiro-ministro australiano, Malcolm Turnbull, em que o líder americano rejeitou o cumprimento de um acordo feito pela administração de Barack Obama de remanejamento dos migrantes em Nauru e Manus para o território americano.

No dia 11 de dezembro, Ernesto Araújo, atual ministro de Relações Exteriores do Brasil, também anunciou que o país abandonará o pacto de imigração da ONU. Na América Latina, países como Chile e República Dominicana também se afastaram do pacto.

Finalmente, ainda que a Austrália adote uma política de governo de baixa tolerância à imigração, não há evidências de que seus chefes de Estado tenham manifestado que imigrantes muçulmanos devam deixar o país. A história é resultado de uma manipulação de uma entrevista dada por um oficial público e de um editorial escrito por um veterano americano da Guerra do Vietnã.

AFP Brasil