Não, este vídeo não mostra a CUT pedindo a prisão de Lula

A informação de que a Central Única dos Trabalhadores (CUT), em um ato público, defendeu a prisão do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva circula viralmente nas redes sociais do Brasil. A alegação é falsa. O vídeo utilizado como evidência é apresentado fora de contexto.

“Dinheiro acabou, amizade se dissolve. CUT pedindo a cabeça de Lula, é o melhor vídeo que vi até agora. Achei que não iria viver tanto tempo para ver isso, mas aconteceu mais cedo do que eu esperava, CUT chamando Lula de traidor e ladrão e o Lula é um ex presidente da CUT”, diz a descrição de um vídeo assistido mais de 250.000 vezes no Facebook, desde que foi publicado no dia 23 de dezembro de 2018.

“Chegou o desespero e logo logo chegará o cúmulo do desespero ptralhas se matando entre eles”, comentou um internauta.

A imagens mostram uma manifestação em que são observadas bandeiras da CUT e, desde o que parece ser um palanque, pessoas advogam pela prisão do ex-presidente Lula (2003-2010), do Partido dos Trabalhadores (PT).

Comparação de uma captura do vídeo com imagens do Google Maps

O evento ocorreu precisamente na altura do número 2200 da Avenida Paulista, na capital do estado de São Paulo. No dia 28 de abril de 2017, a Central Sindical e Popular (CSP-Conlutas) organizou um evento no contexto da greve geral ocorrida no país naquele dia, convocada contra as reformas trabalhista e da previdência social propostas pelo governo do então presidente Michel Temer.

Comparação de uma captura do vídeo com imagens do Google Maps

A CSP-Conlutas é uma agremiação crítica ao PT e à CUT desde seu primeiro congresso nacional em 2008.

Ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva gesticula durante um encontro organizado pela Central Única dos Trabalhadores (CUT) e a Federação Única de Petroleiros (FUP) no RIo de Janeiro, 24 de fevereiro de 2015 (Vanderlei Almeida / AFP)

A fala que pede a prisão de Lula foi de um membro do então chamado “Movimento Negação da Negação”, como atesta o vídeo original divulgado pelo grupo em sua página no Facebook. O grupo, que mudou seu nome para Transição Socialista e não tem filiação partidária, não representa, nem faz parte da CUT. Na página web do grupo, há diversas postagens que criticam Lula e o PT.

Contatado pela equipe de checagem da AFP no Brasil, Rafael Padial, membro da Transição Socialista, declarou: “O MNN [Movimento Negação da Negação] não tem nenhuma relação com a CUT. Também não é partidário, embora atue muitas vezes próximo de partidos da chamada “esquerda radical”, como o PSTU [Partido Socialista dos Trabalhadores Unificado]. No caso, foi uma fala num caminhão de som da CSP-Conlutas, uma central sindical próxima ao PSTU, e que em geral combate a CUT e o PT. E no caso fui eu mesmo quem fez a fala”.

A CUT participa de greves sindicais desde os anos 80 no Grande ABC e, historicamente, é relacionada ao PT. Foi fundada em São Bernardo do Campo, onde Lula iniciou sua carreira política. Em uma publicação do dia 14 de dezembro passado, a organização o considera um “preso político” e anuncia um evento em defesa da liberação do líder petista.

Lula, preso desde abril de 2018, cumpre uma pena de 12 anos e um mês por ter sido considerado o beneficiário de um tríplex oferecido pela construtora OAS no balneário de Guarujá, no litoral paulista.

Ainda que as imagens do vídeo em questão sejam verdadeiras e haja a presença de bandeiras da CUT no evento em que se defende a prisão de Lula, não se trata de uma posição da CUT, organização que continua apoiando ao ex-presidente de esquerda e defendendo sua liberação.

AFP Brasil