Não, esta imagem não é de um dos trechos das conversas divulgadas entre o ex-juiz Moro e o procurador da Lava Jato

Publicações viralizadas nas redes sociais desde 10 de junho de 2019 sugerem que imagens mostram partes das conversas divulgadas pelo site The Intercept Brasil entre o ex-juiz e atual ministro da Justiça e Segurança Pública, Sergio Moro, e o procurador da República e coordenador da Operação Lava Jato em Curitiba, Deltan Dallagnol. No entanto, tratam-se de montagens e nenhuma das publicações aqui analisadas consta no material disponibilizado pelo Intercept.

Sentença combinada

Uma primeira imagem, compartilhada mais de 6.800 vezes (1, 2, 3) no Facebook desde 10 de junho, mostra supostas conversas, nas quais o ex-juiz Moro e o procurador Dallagnol discutem abertamente sobre como a sentença do ex-presidente Lula (2003-2010) no Tribunal Federal da 4ª Região já estaria “combinada” e sobre como impedir a candidatura de Fernando Haddad, do Partido dos Trabalhadores (PT), à Presidência da República nas eleições de outubro de 2018.

Captura de tela feita em 10 de junho de 2019 mostra a suposta conversa entre Moro e Dallagnol

O material viralizou depois que o site The Intercept Brasil começou a divulgar no último dia 9 de junho uma série de reportagens com conversas de procuradores da Operação Lava Jato, incluindo Dallagnol, e do ministro Moro, então juiz da 13ª Vara Criminal Federal de Curitiba.

A equipe de checagem da AFP entrou em contato com o Intercept para verificar se estes trechos realmente faziam parte das mensagens às quais o site teve acesso. Em resposta, o diretor de Comunicações, Rodrigo Brandão, afirmou: “Isso é fake e não é parte do material no nosso site”.

De fato, Haddad só era mencionado uma vez nas conversas divulgadas pelo Intercept Brasil até 10 de junho (1, 2, 3): quando os procuradores discutem a decisão do ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), Ricardo Lewandowski, de autorizar que Lula concedesse uma entrevista da prisão em Curitiba, onde cumpre pena de 8 anos e 10 meses desde abril de 2018. Segundo o Intercept, em reação à notícia, a procuradora Laura Tessler teria escrito: “sei lá…mas uma coletiva antes do segundo turno pode eleger o Haddad”.

As outras mensagens presentes na postagem também não constam em nenhuma das reportagens do Intercept.

Por fim, o fundo presente na imagem se assemelha ao usado costumeiramente pela Rede Globo de Televisão em sua representação de conversas no caso Lava Jato (1, 2). Em uma reportagem específica de 2017, o Jornal Hoje da Globo utilizou exatamente o mesmo fundo da foto viralizada.

Analisando as duas imagens lado a lado é possível perceber que a tipografia utilizada nas postagens do Facebook não é a mesma usada regularmente pela emissora.

Capturas de tela feitas em 12 de junho de 2019 mostram reprodução de conversa feita pela TV Globo e montagem viralizada

No caso das conversas de Moro e Dallagnol, a TV Globo utilizou outros fundos gráficos (1, 2, 3) para reproduzir os diálogos.

O próprio projeto de checagem de fatos da Globo, o Fato ou Fake, assim como a Agência Lupa e o site Aos Fatos desmentiram esta imagem viralizada.

Condenação sem provas

Uma segunda imagem (1, 2, 3), compartilhada mais de 2 mil vezes em redes sociais desde o último dia 20 de junho sugere que o Intercept teria divulgado uma conversa na qual Moro diz a Dallagnol que condenaria o ex-presidente Lula no caso do tríplex do Guarujá, mesmo sem provas.

“Deltan diz a Moro: ‘não temos provas quanto ao Triplex’. Moro responde: ‘não se preocupe, faz a denúncia que eu aceito e condeno!’’’, afirma o texto na montagem, que traz também uma foto de Glenn Greenwald, editor e cofundador do Intercept Brasil, e a hashtag “SomosTodosGleen [sic]”

Captura de tela feita em 21 de junho de 2019 de uma publicação viralizada no Facebook

O suposto diálogo faz referência ao caso no qual o ex-presidente Lula foi acusado de ter recebido propina da empreiteira OAS, na forma de um apartamento tríplex no Guarujá, litoral de São Paulo. Entretanto, o trecho viralizado não aparece em nenhuma das reportagens já publicadas pelo Intercept.

No material disponibilizado pelo site, o processo do tríplex é mencionado em outros diálogos. De acordo com o Intercept, antes de apresentar a denúncia contra Lula neste caso específico, Dallagnol enviou uma mensagem a um grupo de procuradores, afirmando estar “com receio” da solidez de alguns elementos da acusação.

“Falarão que estamos acusando com base em notícia de jornal e indícios frágeis… então é um item que é bom que esteja bem amarrado. Fora esse item, até agora tenho receio da ligação entre petrobras e o enriquecimento, e depois que me falaram to com receio da história do apto… São pontos em que temos que ter as respostas ajustadas e na ponta da língua”, escreveu Dallagnol segundo o Intercept.

Dallagnol também teria enviado uma mensagem a Moro afirmando que as evidências, neste caso, eram “indiretas” e que por isso “‘juristas’ como Lenio Streck e Reinaldo Azevedo falam de falta de provas’”. Ao que Moro teria respondido: “Definitivamente, as críticas à exposição de vcs são desproporcionais. Siga firme.”

Não há, portanto, nenhuma conversa em que Dallagnol fala sobre a inexistência de provas no caso.

Quando procurado pela AFP no início de junho, o diretor de Comunicações do Intercept, Rodrigo Brandão, afirmou: “Tudo o que não estiver no Intercept ou no Intercept Brasil pode presumir que é fake”.

Em resumo, as imagens viralizadas não mostram trechos das conversas reveladas pelo Intercept Brasil entre o ministro da Justiça e Segurança Pública, Sergio Moro, e o procurador da Lava Jato Deltan Dallagnol. 

EDIT 25/06: artigo atualizado com novas versões. 
AFP Brasil