Não, esta foto não mostra ossadas de vítimas da ditadura brasileira

Copyright AFP 2017-2020. All rights reserved.

Uma publicação compartilhada mais de 3.500 vezes desde que foi postada, em 26 de março, alega que a foto nela mostra a exumação dos corpos de pessoas mortas durante a ditadura militar no Brasil. Entretanto, essa imagem foi feita na Argentina.

A fotografia no Facebook traz a legenda: “Bolsonaro e seus motivos para comemorar a Ditadura Militar: Valas comuns utilizadas durante ditaduras militares… Em São Paulo, arqueólogos escavaram a Vala de Perus que foi utilizada para descartar corpos durante a ditadura militar, foram mais de 1.000 ossadas encontradas. Se você acha que há razões para comemorar essa data, procure um psicólogo! #ArqueologiadaRepressão #arqueologia #ditaduranuncamais”. Além do Facebook, a imagem foi compartilhada no Twitter (1, 2 e 3).

A AFP encontrou a foto na página 43 de um relatório da Equipe Argentina de Antropologia Forense (EAAF) e também no banco de imagens da agência Agência France-Presse em março de 2006.

Captura de tela feita em 1º de abril de 2019 mostra a fotografia viralizada na publicação no banco de imagens da Agência France-Presse (AFP PHOTO/ EAAF/ HO)
 

A legenda da imagem traz o crédito à EAAF: “Membros da Equipe Argentina de Antropologia Forense trabalham em uma fossa comum no cemitério San Vicente, na província de Córdoba, Argentina, em fevereiro de 2003, onde foram encontrados cerca de 100 corpos sem identificação, supostamente de opositores assassinados durante a ditadura militar 1976-1983 na Argentina.

Segundo o relatório elaborado pela EAAF, foram cometidas violações aos direitos humanos na região de Córdoba entre 1975 e 1983. Na primeira metade de 2003, os antropólogos fizeram ”uma série de exumações em grande escala (...). Foi escavada a maior fossa comum que se conhece em relação ao terrorismo de Estado na Argentina, que se encontra no Setor C do Cemitério de São Vicente”.

Na época da descoberta dessa fossa foram feitas algumas reportagens ao respeito, como estas dos jornais La Nación e Clarín.

A ditadura argentina (1976-1983) deixou 30.000 desaparecidos, segundo organizações da sociedade civil.

No Brasil, a Vala de Perus foi descoberta em 4 de setembro de 1990 no cemitério Dom Bosco paulista, com 1.049 ossadas de pessoas que teriam morrido no início dos anos 1970, período mais repressivo da ditadura militar no Brasil (1964-1985).

Em princípio, os ossos foram levados para o Departamento de Medicina Legal da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). Posteriormente, seguiram para o Instituto Médico Legal, em 2001, para serem analisadas pela Universidade de São Paulo (USP).

Captura de tela feita em 29 de março de 2019 mostra a imagem viralizada na publicação, mas que, na realidade, consta no relatório da Equipe Argentina de Antropologia Forense
 

O presidente Jair Bolsonaro“já determinou ao Ministério da Defesa que faça as comemorações devidas com relação a 31 de março de 1964, incluindo uma ordem do dia patrocinada pelo Ministério da Defesa que já foi aprovada pelo nosso presidente”, diz um trecho da publicação viralizada -“Bolsonaro e seus motivos para comemorar a Ditadura Militar”- que faz referência à declaração dada em 25 de março de 2019 pelo porta-voz da Presidência, o general na reserva Otávio do Rêgo Barros.

Segundo Barros, Bolsonaro não vê a data como um golpe militar, mas como uma reunião da sociedade diante do perigo de totalitarismo que o país estaria vivendo naquela época.

No Brasil, a Comissão Nacional da Verdade, que tem por objetivo apurar as violações aos direitos humanos entre 1946 e 1988, tem quantificada 434 mortes neste período, sendo 423 entre 1964 e 1988. Dos torturados, foi possível apurar apenas uma pequena parte, com provas irrefutáveis de ao menos 1.843 casos. Já as denúncias somam 6.016, apesar de saberem que este número é maior.

Em resumo, a foto em si é verdadeira, mas o contexto alegado na publicação, não. Na realidade, tratava-se da exumação de ossadas na Argentina, país que também viveu um duro período militar.

AFP Brasil