Não, Brasil não tem gasolina, carros, telefonia, energia, gás ou carga tributária mais caros do mundo

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Um imagem que circula nas redes sociais alega que os preços de alguns serviços e produtos no Brasil são os mais elevados do mundo. Compartilhada mais de 153.000 vezes, sugere que a causa foi a política do Partido dos Trabalhadores (PT) enquanto governou o país de 2003 a 2016. Nenhuma das 6 afirmações do meme são verdadeiras.

Captura de tela de uma publicação no Facebook disseminando a informação falsa, feita 23 de outubro de 2018

“A gasolina mais cara do mundo"

Captura de tela de um gráfico comparativo do Banco Mundial, feita 23 de outubro de 2018

Falso. Desde 2003, quando o PT assumiu a presidência com Luiz Inácio Lula da Silva (2003-2010), a gasolina no país jamais chegou a ser a mais cara do mundo. Segundo estatísticas da Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP), o preço mais alto que a gasolina alcançou no Brasil foi de 1,58 dólar por litro entre 2010 e 2011. Na mesma época, o preço do litro na Alemanha, por exemplo, superou 1,8 dólar segundo o Europes Energy Portal.

Em 2008 o preço do barril de petróleo no mercado internacional atingiu seu então recorde: superou 145 dólares. No Brasil, o preço médio do litro da gasolina naquele ano foi de 1,26 dólar. Naquele período, a mesma quantidade do combustível valia 1,42 dólar no Japão, 1,52 na França e 1,63 na Noruega.

Em 2013, o valor do combustível no Brasil não passou de 1,6 dólar por litro. No mesmo período, na Noruega superou os 2,6 dólares, segundo o Statistics Norway.

Atualmente, informação do serviço especializado Global Petrol Prices indica que a gasolina mais cara do mundo é a vendida em Hong Kong, a 2,21 dólares o litro. No Brasil, o preço médio do combustível no segundo semestre de 2018 é de aproximadamente 1,2 dólar.

Captura de tela de um gráfico comparativo do custo de comprar e manutenção de um carro por 1 ano, feita 23 de outubro de 2017

“Os carros mais caros do mundo”

Falso. Em 2016 a agência de publicidade Mediaworks realizou uma pesquisa, encomendada pela Carfinance247 em 70 países comparando preço da gasolina, serviços de venda de carro, guias de compras e notícias. O estudo foi feito sobre a base de um automóvel modelo Volkswagen Golf TL 1.4. Os dados apontaram que o país mais caro para comprar um carro e mantê-lo por 1 ano é os Estados Unidos: equivalente a 30.000 dólares anuais naquele ano. O Brasil estava na 7ª posição: 16.700 dólares.

O estudo não incluiu Cingapura, país que, segundo reportes (1), é o mais caro do mundo para a compra de automóveis.

Em 2016, o carro popular mais vendido no Brasil, o Chevrolet Onix, custava aproximadamente 54.497 reais, em torno de 15.650 dólares, em sua versão mais completa, segundo dados da Federação Nacional da Distribuição de Veículos Automotores (Fenabrave) reportados pela Revista Exame.

Segundo um estudo realizado pela Jato Analytics, o sedã compacto no Brasil custa em 2018 aproximadamente 58.600 reais (cerca de 15.800 dólares). Ainda que a investigação da consultoria especializada tenha apontado que o preço dos carros novos no Brasil aumentou 35,95% (em reais) nos últimos três anos, os mesmos estão longe de ser os mais caros do mundo.

Em 2017, o preço médio de um Golf em Cingapura foi avaliado em 90.000 dólares segundo uma investigação realizada pelo portal Expatistan.com, que recolheu estimativas de preço de 52 produtos de 1.026 pessoas.

“A telefonia mais cara do mundo”

Captura de tela de uma gráfico do Banco Mundial comparando o custo do telefone celular em relação à renda mensal calculada sobre o PIB, feita 23 de outubro de 2018

Falso. De acordo com o Relatório de Medição da Sociedade da Informação 2009 que utiliza dados da União Internacional de Telecomunicações, o custo de mensal e geral da telefonia (a soma de banda larga, celular e telefone fixo) mais elevado em 2008 foi no páis africano Niger: 72% da  remuneração média  calculada sobre o Produto Interno Bruto (PIB). Naquele ano, o preço no Brasil representou 7,7%, valor mais barato que Paraguai, Bolívia e a maioria dos países da África.

Segundo o relatório de 2015 do Banco Mundial, que utiliza dados da União Internacional de Telecomunicações (ITU), o custo médio mensal de uma assinatura de telefone celular mais elevado em 2014 foi na Holanda: 41,47 dólares. Em relação à renda, o país mais caro é a República Democrática do Congo: 52% da remuneração calculada sobre o PIB. Naquele ano, ter um celular no Brasil custava 2,2% do salário médio: 22,05 dólares aproximadamente.

O último relatório da organização, referente ao ano de 2016, indica que o preço médio dos planos para celular são mais caros, em dólares, nos Estados Unidos: 35,73. Em relação à renda média, o país mais caro é a Libéria, na África: 51.13%. No Brasil, o custo estimado é de 11,46 dólares, equivalente a 1,38% do PIB, mais barato que, por exemplo, no Chile, Paraguai, Argentina, Colômbia, África do Sul, Índia, ou Turquia.

O mesmo levantamento aponta que, em relação às linhas fixas com banda larga, o país mais caro é a República Centro Africana, com o custo de 487,35 dólares por mês para uma linha caseira. No Brasil, o custo foi calculado em 17,16 dólares, valor inferior a, por exemplo, México, Hong Kong, Indonesia, Israel ou Luxemburgo.

“A energia mais cara do mundo"

Falso. Segundo dados de 2018 da concessionária de energia elétrica Light, o preço do kWh varia entre 12 e 25 centavos de dólar no Brasil. A eletricidade é significativamente mais cara em países como Austrália ou Coréia do Sul, país asiático em que o preço do kWh pode superar 60 centavos.

“O gás mais caro do mundo”

Falso. Segundo a ANP, no Brasil o botijão de gás de uso doméstico tem a capacidade de 13 quilos, equivalente a 23,5 litros de gás GLP.  Em julho de 2014, o preço de um botijão destas proporções na Grécia, um dos mais caros do mundo, por exemplo, era cerca de 24,60 dólares, segundo estatísticas do portal especializado Mylpg.eu, enquanto no Brasil custava aproximadamente 19,4 dólares, segundo a ANP. Dados do Global Petrol Prices apontam que atualmente, no país helênico, o botijão custa cerca de 27,95 dólares. No Brasil, entre 2003 e 2018, o preço do botijão de gás para o consumidor final variou de 8,3 dólares (janeiro de 2003) a 18,50 dólares (setembro de 2018), longe de ser o mais caro do mundo.

“A maior carga tributária do mundo”

Falso. Desde o início do governo do PT em 2003, a carga tributária no Brasil variou entre 34,88% (2003) e 32,36% (2017) do PIB, tendo chegado a 35,91% em 2005 e 33,36% em 2011, segundo dados da Receita Federal e do Tesouro Nacional. No mesmo período, a Noruega, por exemplo, registrou um valor superior: entre 54.81% (2017) e 58.86% (2008). A França observou entre 49.25% (2003) e 53.79% (2017), de acordo com dados da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE).

“O maior escândalo de corrupção do mundo”

Captura de tela de um gráfico do Banco Mundial comparando os indíces de inflação de 2003 a 2007 no Irã, Rússia e Brasil, feita 23 de outubro de 2018

Subjetivo.  No dia 21 de dezembro de 2016, através de um comunicado de imprensa, o departamento de Justiça dos Estados Unidos declarou o Caso Odebrecht, uma investigação realizada pela instituição publicada aquele dia, o maior caso estrangeiro de propina da história. Outros escândalos, como o da FIFA em 2015, ou o da empresa alemã Siemens em 2008, também estão entre os mais significativos, segundo analistas (1).

A inflação no Brasil

De acordo com o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), a inflação média no Brasil entre 2003 e 2017 foi de 5,66% por ano. No entanto, informações que circulam nas redes sociais exageram no valor de produtos e serviços de infra-estrutura básicos para deslegitimar a administração do PT, que governou o país por mais de três mandatos consecutivos com Lula e Dilma Rousseff, até o impeachment da mesma durante o quarto.

Em 2015, a inflação brasileira atingiu o pico de 10,67%. No entanto, estatísticas do Banco Mundial apontam, por exemplo, melhor desempenho no controle da inflação, desde 2003, no Brasil, do que em outros países de grande porte como a Rússia ou o Irã.