Não, adeptos de Bolsonaro não desenharam uma suástica a canivete no abdômen desta mulher

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Meios de comunicação, blogs, políticos e internautas veicularam, a partir do dia 10 de outubro, a informação de que uma mulher foi agredida por apoiadores do candidato de extrema direita Jair Bolsonaro, em Porto Alegre, no dia das eleições. Os supostos responsáveis teriam desenhado, com um canivete, uma suástica nazista em seu abdômen. A história, que circulou no contexto de diversas agressões registradas no país durante o período eleitoral, é falsa.

“Domingo, em Porto Alegre, uma mulher de 19 anos, por usar uma camiseta com a inscrição "ele não", levou chutes, socos e teve uma suástica desenhada à canivete na pele. É esse o nível da barbárie que eles representam. O que acontecerá se eles tiverem o poder de Estado nas mãos?”, escreveu Manuela D´Ávila (PCdoB), candidata à vice-presidência pela coligação “O Povo Feliz de Novo”, liderada pelo petista Fernando Haddad (PT), em seus perfis no Facebook e Twitter.

Captura de tela de uma publicação no Facebook disseminando a informação falsa, feita 25 de outubro de 2018

A imagem dos cortes circulou nas redes sociais em várias (1) línguas, gerando indignação em muitos usuários. Foi somente no dia 24 de outubro que um laudo policial, acessado pela AFP, apontou que as feridas no corpo da mulher foram feitas por ela mesma. Por serem “superficiais” e “retilíneas”, foram consideradas, pelos especialistas, incompatíveis com um ato de resistência a supostos agressores.

O incidente foi registrado pela jovem de 21 anos no dia 9 de outubro de 2018 na capital do Rio Grande do Sul. Declarou que ocorreu devido ao fato da mesma levar na mochila um adesivo contra Bolsonaro com as cores da bandeira LGBT e alegou ter sido agredida por três homens que a imobilizaram para feri-la.

A equipe de checagem da AFP tentou, sem sucesso, entrar em contato com Paulo César Jardim, delegado da Polícia Civil responsável pelo caso, diversas vezes desde o dia em que o episódio se tornou conhecido na internet. No dia 24 de outubro, ele declarou à AFP que “No caminho que ela disse que percorreu, mapeamos, fizemos levantamento de 12 câmeras. No ponto que diz que teria acontecido a agressão… Lugar extremamente movimentado… Em nenhum momento ela apareceu ou houve qualquer correria”.

Segundo Jardim, más de 20 testemunhas foram interrogadas e nenhuma delas afirma ter presenciado o incidente. O delegado, que qualificou a jovem como “emocionalmente instável” e disse que ela está sob “tratamento psiquiátrico”, também informou que tomou a decisão de indiciar a jovem pelo delito de falsa comunicação de crime.

Na quarta-feira, dia 24 de outubro, Bolsonaro publicou em sua conta de Twitter sobre o laudo policial: “Quem espalha notícia falsas? Canalhas! Vagabundos! Sem mentir o PT não existe!”.

Membro de um grupo de capoeira segura um cartaz que diz "Moa Vive" no Largo do Pelourinho, em Salvador, estado da Bahia, em 10 de outubro de 2018 (AFP / Arisson Marinho)

Durante o período eleitoral de 2018, diversos casos comprovados de agressão, motivados pela polarização ideológica que vive o país, foram registrados. Entre eles está o assassinato de Moa do Katende, professor de capoeira, na Bahia, a agressão de Julyanna Barbosa, transexual ex-vocalista de um grupo musical, no Rio de Janeiro e o ataque a um jovem que usava um boné do Movimento dos Trabalhadores Sem Terra (MST) em Curitiba, no Paraná.

AFP Brasil