A imagem do passaporte da múmia Ramsés II é uma montagem

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Postagens nas redes sociais que somam mais de 47 mil interações desde 23 de setembro de 2018 mostram uma imagem do suposto passaporte da múmia do faraó Ramsés II que teria sido utilizado em uma viagem de restauração do Egito à França em 1976. Apesar da múmia realmente ter sido recebida em Paris naquele ano, nenhuma fonte confiável menciona a existência desse passaporte. Além disso, sua suposta fotografia foi feita pelo site Heritage Daily para ilustrar a história.

“Em 1974, a múmia do Faraó, Ramsés II, foi enviada em um vôo para Paris para trabalhos de preservação e manutenção. Mas como a lei francesa exigia que todas as pessoas, vivas ou mortas, voassem com um passaporte válido, o governo egípcio foi forçado a emitir um passaporte para o Faraó, 3.000 anos após sua morte”, indica uma das publicações no Facebook (1, 2, 3), juntamente com a suposta imagem do passaporte do faraó, mas confundindo o ano em que a múmia foi levada ao território francês.

Esta alegação é acompanhada por outra imagem do que seria o passaporte do faraó, mas em uma versão simplificada (1, 2).

A imagem também circulou amplamente no Instagram (1) e no Twitter (1), e foi replicada em outros idiomas, como inglês, francês e espanhol.

Captura de tela feita em 16 de outubro de 2020 de uma publicação no Instagram

Montagem de um artigo de 2018

A imagem do suposto passaporte emitido para o faraó que reinou no Egito há mais de 3 mil anos se assemelha a um passaporte biométrico, um documento de identidade utilizado por vários países que contém uma foto, um código de barras e digitais escaneadas, permitindo, assim, o reconhecimento automático de pessoas em modernos sistemas de controle.

O passaporte biométrico foi emitido pela primeira vez no Egito em 2008, como se pode conferir no site do Conselho da União Europeia. Portanto, este passaporte não poderia ter sido expedido em 1974, ou em 1976, os anos assinalados pelas publicações viralizadas que falam do traslado da múmia.

Além disso, ao analisar a imagem de perto é possível encontrar uma inscrição em letras maiúsculas abaixo do código de barras com a URL: HERITAGEDAILY.COM.

Uma pesquisa no Google pelas palavras-chave “Ramsés + Heritage Daily” levou a um artigo, escrito em inglês, em um site com o mesmo nome, dedicado a descobertas e à investigação da história antiga, arqueologia e paleontologia.

No pé da foto há o esclarecimento de que esse suposto passaporte foi criado com o objetivo de ilustrar o texto: “uma criação artística do passaporte - a imagem é para fins ilustrativos - o passaporte em si não é acessível publicamente”.

Captura de tela feita em 15 de outubro de 2020 do site heritagedaily.com

O criador do site, Marcus Milligan, confirmou à equipe de checagem da AFP em 12 de outubro de 2020 que a ilustração foi criada em 2018, coincidindo com as primeiras publicações encontradas pela AFP desta imagem em outubro daquele ano.

Portanto, esta “fotografia” não mostra o passaporte emitido para a múmia de Ramsés II em 1976, quando os restos mortais do faraó foram realmente levados a Paris.

Outra busca no Google por passaportes egípcios na década de 1970 revelou que este tipo de documento era parcialmente escrito à mão, como se pode conferir no passaporte do presidente egípcio que autorizou a viagem de Ramsés II à França, Anwar al-Sadat, em um blog de colecionador.

Outro exemplo é o passaporte que data de 1972 da cantora Umm Kalzum, cuja foto foi tirada por um visitante no museu em sua homenagem no Cairo e publicada na plataforma turística Foursquare.

Não foi possível, contudo, encontrar a origem das versões simplificadas do passaporte (1, 2, 3) que viralizaram. Mas uma pesquisa pela imagem levou a publicações datadas de setembro de 2018 em plataformas como Imgur, 9GAG e RandomOverload, nas quais são encontrados diversos memes.

Sem evidência do passaporte real

Em 24 de setembro de 1976, a múmia de Ramsés II foi levada do Egito para a França com o objetivo de tratar um fungo que a ameaçava. Em sua chegada na pista do aeroporto de Le Bourget, próximo a Paris, os restos mortais do ex-faraó foram recebidos com honrarias militares por um destacamento da Guarda Republicana, segundo meios de comunicação como a televisão pública francesa e o New York Times.

Em um documentário de 2010 intitulado “Ramsés II, a grande viagem”, em tradução livre do francês, Valéry Giscard d’Estaing, presidente da França em 1976, explica que convenceu o líder egípcio Anwar al-Sadat a aceitar a transferência da múmia para o seu país, prometendo tratar o falecido faraó “como um soberano”.

Mas nem essa entrevista, nem artigos da época mencionam a emissão de um passaporte para a múmia.

Elisabeth David, encarregada dos estudos documentais do Departamento de Antiguidades Egípcias do Museu do Louvre, explicou à equipe de checagem da AFP no último dia 12 de outubro que o relato da existência do passaporte não tem fundamento.

De acordo com David, a confusão ocorre com base em um relatório publicado pelo Museu Nacional de História Natural da França em 1985, no qual a arqueóloga Christiane Desroches-Noblecourt relata ter tido que obter um “passaporte”, palavra que escreve entre aspas, para poder sair com a múmia de Ramsés II do Egito.

“É claro que o governo francês não pede a um rei falecido que apresente um passaporte. Este termo sugere mais a extrema complexidade da organização”, assinalou David.

Captura de tela feita em 15 de outubro de 2020 do relatório do Museu Nacional de História Natural

A lei francesa não exige que múmias tenham passaporte

“Não existe um passaporte obrigatório na legislação francês para as pessoas não vivas”, indicou à AFP Mathieu Touzeil-Divina, professor de Direito Público e autor de um artigo publicado em 2015 sobre os direitos dos falecidos.

“Em caso de transferência, as múmias são consideradas no âmbito da legislação clássica de bens. O termo ‘passaporte’ é falso, mas é verdade que às vezes certas antiguidades requerem uma autorização para serem trasladadas fora de um estado ou país”, continuou.

Assim, nada justificaria a entrega de um passaporte para uma múmia, classificada pelo Tribunal de Justiça da União Europeia na categoria de “objetos”, como assinala esta sentença de 10 de outubro de 1985.

“Antes da década de 2000, as múmias eram geralmente consideradas objetos, embora não exista uma legislação específica sobre o tema”, confirmou Laure Cadot, autora do livro “En chair et en os: le cadavre au musée” (“Em carne e osso: o cadáver no museu”, em português), entrevistada em 13 de outubro de 2020 pela AFP.

Se Ramsés II recebeu um passaporte em 1976 foi puramente “simbólico”, acrescentou a restauradora de objetos etnográficos, devido “às fortes implicações políticas” do traslado daquele que é considerado um dos faraós mais poderosos do Egito.

Atualmente, a lei sobre o status das múmias segue sem ser clara, explicou Cadot. Inicialmente, os bens pertencentes aos museus estavam sujeitos ao princípio de inalienabilidade definido no Código de Patrimônio. Mas algumas exceções foram abertas: em 2007, por exemplo, o tribunal administrativo da cidade de Rouen aceitou a devolução de uma cabeça maori (provavelmente do século XVIII) exibida no museu da cidade, evocando o princípio de “salvaguarda da dignidade humana”.

Com mais de 3 mil anos e restaurada, a múmia de Ramsés II se encontra hoje no Cairo, de onde nunca saiu desde o retorno da França.

Em resumo, a imagem que circula como se fosse o passaporte da múmia do faraó Ramsés II é uma montagem. Além disso, não há evidências de que tenham emitido um documento deste tipo para a sua viagem à França em 1976.

Tradução e adaptação
AFP Brasil