A imagem de Vênus foi feita a partir de fotos em preto e branco tiradas pela sonda Venera 13

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Uma fotografia que mostra uma paisagem estranha e desértica circula desde maio de 2020 nas redes sociais, em postagens compartilhadas centenas de vezes que afirmam ser “a imagem mais clara que temos da superfície de Vênus”. Na realidade, a afirmação é enganosa: a imagem foi originalmente criada por um pesquisador americano que explicou à AFP que ele fez isso aprimorando imagens monocromáticas registradas pela espaçonave soviética Venera 13. A cor foi posteriormente adicionada por usuários da internet.

As publicações foram compartilhadas no Facebook (1, 2) e também circularam em inglês e espanhol

Captura de tela feita em 5 de março de 2021 de uma publicação no Facebook


Algumas publicações indicam que a imagem foi capturada pela sonda Venera 13, enviada pela então União Soviética a Vênus em 30 de outubro de 1981. Essa sonda foi a primeira a transmitir registros visuais coloridos da superfície do planeta.

Uma busca reversa por imagens no Google levou a uma versão monocromática, postada no site do pesquisador norte-americano Don P. Mitchell, que a descreveu como uma “imagem em perspectiva”.

Em seu site, Mitchell explica como combinou os dados da imagem bruta da sonda espacial soviética enviada a Vênus usando um programa de edição de fotos:

“Os módulos de aterrissagem Venera transmitiram imagens digitais com uma profundidade de nove bits e codificação quase logarítmica de luminosidade fotométrica. (...) As versões originais soviéticas dessas imagens incluíam uma panorâmica completa a partir de imagens com filtro claro e panoramas coloridos de imagens com filtros vermelho, verde e azul”.

“A relação sinal/ruído era pior para imagens coloridas, porque elas eram muito mais escuras”, esclareceu. O pesquisador disse ter combinado os dois tipos de panorâmicas para obter uma imagem final melhor.

Captura de tela feita em 5 de fevereiro de 2021 do site de Don P. Mitchell

Mitchell detalha ainda que “as panorâmicas da Venera são projeções esféricas" e que é possível ajustá-las para “projeções em perspectiva e sobreposição (usando [o programa] Adobe Photoshop CS2) para produzir vistas que dão uma melhor impressão subjetiva da superfície de Vênus”.

Questionado pela AFP em 4 de fevereiro sobre as postagens enganosas nas redes sociais, Mitchell disse: “Eu criei as imagens [em preto e branco]. As imagens coloridas foram feitas por outras pessoas e, na minha opinião, não são muito precisas”.

Comparação da imagem viralizada no Facebook (I) e a imagem produzida por Mitchell

Em um tuíte publicado no dia 27 de janeiro deste ano, Mitchell também explicou que o registro em preto e branco foi produzido por ele. 

Antes disso, em uma sequência no Twitter, ele já havia detalhado: “As imagens panorâmicas vêm da telemetria digital original com muito processamento para combinar segmentos sem ruído e ajustar as não linearidades da câmera”.

Mitchell também comentou sobre sua metodologia de processamento de imagens em um artigo publicado em 11 de setembro de 2006 no Space.com, um site dedicado a “exploração espacial, inovação e notícias sobre astronomia”, de acordo com sua descrição.

Uma versão mais sucinta da explicação sobre seu processo de edição pode ser vista em sua conta no Twitter. Nela, ele menciona que obteve as imagens brutas de “amigos da comunidade científica russa”

Ele também explicou em outro tuíte que Vênus e as sondas espaciais são representadas com cores particulares devido aos filtros de cor usados, e que é difícil determinar a verdadeira cor do planeta porque a atmosfera filtra a luz azul, conforme afirmado pela Nasa.

As imagens originais feitas por sondas espaciais podem ser encontradas no site da Nasa Science. Registros semelhantes também podem ser vistos no site da Roscosmos State Corporation for Space Activities, uma empresa estatal russa para atividades espaciais.

Captura de tela feita em 9 de fevereiro de 2021 do site da Nasa

Em conclusão, a imagem viralizada como “a mais clara da superfície de Vênus” é, na verdade, uma criação feita por um pesquisador norte-americano a partir de fotos monocromáticas do planeta tiradas por uma sonda espacial soviética.