A atriz Maria Flor não “abocanhou” R$ 10 milhões da Lei Rouanet

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Publicações com mais de 41 mil compartilhamentos nas redes sociais afirmam que a atriz Maria Flor teria recebido mais de 10 milhões de reais pela Lei Rouanet durante os governos petistas. Essas alegações começaram a circular desde 25 de janeiro passado, dias após a atriz ter divulgado um vídeo em que pede o impeachment do presidente Jair Bolsonaro. A informação, entretanto, é falsa. Sua produtora, a Fina Flor Produtora de Filmes LTDA, na verdade captou pela Lei do Audiovisual 924 mil reais, valor muito inferior ao citado nas postagens.

“Entre 2013 e 2018 a Fina Flor produções que pertence a essa senhora conhecida como Maria Flor recebeu do Governo Federal esse pequeno valor. 10.473,871 Coincidentemente nos anos de 2019, 2020 e 2021 não recebeu 1 real do Governo Federal e agora pede a saída do Presidente Bolsonaro, essa gente não quer um governo para o povo essa gente quer um governo que encha seus bolsos de dinheiro”, diz o texto da imagem, com a foto da atriz, anexada a grande parte das publicações compartilhadas no Facebook (1, 2, 3), no Instagram (1, 2), no Twitter (1, 2), no YouTube e em sites (1, 2, 3). 

Captura de tela feita em 3 de fevereiro de 2021 de uma publicação no Facebook

Um tuíte exibido em várias das matérias que contribuíram para viralizar essa alegação  contém capturas de tela de trechos do Diário Oficial da União (D.O.U.) em que projetos da Fina Flor Produtora de Filmes LTDA foram aprovados para captação com base em leis de incentivo à Cultura. 

De acordo com as capturas de tela desse tuíte, a soma dos valores dos projetos aprovados entre os anos de 2014 e 2017 para captação de recursos totalizam R$ 9.853.817,59. O restante do valor viria de R$ 240.000,00 de faturamento da produtora supostamente declarados pela atriz, segundo outra captura de tela de um documento sem data e mostrado no mesmo tuíte. 

Ao realizar uma pesquisa no portal Versalic, que disponibiliza dados sobre todas as iniciativas financiadas pela Lei Rouanet, o AFP Checamos constatou que a atriz Maria Flor e sua produtora Fina Flor Produtora de Filmes LTDA não receberam nenhum recurso por meio desse mecanismo de fomento. Na busca, foram encontrados dois itens - o documentário “Botequim” e o espetáculo “Pata” -, que não foram mencionados pelas publicações viralizadas que citam projetos, mas nenhum dos dois obteve captação de recursos. 

Na consulta feita no site da Agência Nacional do Cinema (Ancine), foram localizados os oito  projetos apresentados pela produtora da atriz, que têm os mesmos títulos daqueles expostos nos sites, com exceção de “Nômades - o filme”, agora chamado de “Ensaio”. Esses projetos seriam beneficiados pela Lei do Audiovisual, que, assim como a Lei Rouanet, permite que contribuintes deduzam do imposto de renda as quantias investidas na produção cultural. Nesse caso, mais especificamente, em obras audiovisuais brasileiras previamente autorizadas pela Ancine. 

Desses oito projetos apresentados entre 2014 e 2018 pela Fina Flor Produtora de Filmes LTDA três - “Em Movimento”; “Rio do barroco ao contemporâneo, um museu a céu aberto” e “Você e Eu” - foram cancelados pela agência. O documentário Samuel Wainer ainda está em fase de captação de recursos. Os outros quatro projetos tiveram as seguintes captações: o filme “Ensaio” captou 230 mil reais; o projeto “Inclassificáveis”, 100 mil reais; a série “MMA em Família”, 294 mil reais e o projeto “No ano que vem” captou 100 mil reais.

Juntos, portanto, esses projetos somaram 724 mil reais em recursos captados pela Lei do Audiovisual, menos de um décimo dos 10 milhões de reais apontados nas publicações viralizadas. 

A alegação de algumas publicações de que a quantia foi recebida durante os governos do Partido dos Trabalhadores (PT) também é falsa, já que das oito propostas, cinco foram submetidas e aprovadas pela Ancine entre 2016 e 2018, durante o governo de Michel Temer, do partido Movimento Democrático Brasileiro (MDB).

As publicações circularam dias depois de Maria Flor publicar, em 18 de janeiro, um vídeo no Instagram em que ela pede, em meio a críticas, o impeachment do presidente Jair Bolsonaro. O vídeo teve uma forte repercussão nas redes sociais e somou pouco mais de 2,4 milhões de visualizações em seu perfil. 

A agência Lupa e o site Boatos.org também checaram essa informação.  

Procurada pelo AFP Checamos, Maria Flor não se manifestou.

AFP Brasil