Mulher usa máscara facial enquanto aguarda o exame de infecção por influenza A (H1N1) no Rio de Janeiro, em 6 de agosto de 2009 ( AFP / Antonio Scorza)

Para especialistas, surto de gripe tem várias causas, inclusive o relaxamento de ações anticovid

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Publicações que questionam se o uso de máscara, álcool em gel, distanciamento social e passaporte sanitário protegem somente contra a covid-19, e não contra a gripe, foram compartilhadas mais de 1,3 mil vezes nas redes sociais desde pelo menos 23 de dezembro de 2021. No entanto, especialistas explicaram à AFP que o surto de influenza registrado em vários estados brasileiros foi causado por diversos fatores, entre eles a flexibilização dessas medidas protetivas.

“SURTO DE GRIPE Quer dizer que máscaras, álcool em gel, distanciamento social e passaporte sanitário só protegem do C0VlD! É isso mesmo?”, indaga uma das publicações compartilhadas no Twitter (1, 2, 3) e no Facebook (1, 2).

Captura de tela feita em 28 de dezembro de 2021 de uma publicação no Twitter ( . / )

No dia 9 de dezembro, a Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) destacou em seu Boletim InfoGripe a presença do vírus influenza A entre os casos de Síndrome Respiratória Aguda Grave (SRAG) no estado do Rio de Janeiro no período de 28 de novembro a 4 de dezembro.

Nesse documento, a Fiocruz alertou “os demais grandes centros urbanos e turísticos para o risco de importação de casos de influenza – especialmente em locais cujas medidas não farmacológicas para a mitigação da transmissão da Covid-19 estejam com baixa adesão”.

Nesse mesmo dia, a Secretaria de Estado de Saúde do Rio de Janeiro informou em seu perfil no Twitter que a sua capital vivia uma “epidemia de influenza”. Além do Rio, outros 16 estados e o Distrito Federal já registraram uma alta nos casos de gripe no fim do mês de dezembro, conforme noticiaram veículos de mídia (1, 2). O surto foi impulsionado por uma nova cepa da influenza A (subtipo H3N2), batizada de Darwin.

Segundo a Fiocruz, “a influenza é uma infecção viral aguda que afeta o sistema respiratório” e é “causada pelos vírus A, B, C e D”. O vírus A - que foi o detectado recentemente - é associado a epidemias e pandemias, tem comportamento sazonal e costuma se propagar entre as estações climáticas mais frias.

Mudança de sazonalidade

Marilda Siqueira, pesquisadora e chefe do Laboratório de Vírus Respiratórios e do Sarampo da Fiocruz, explicou ao AFP Checamos que, por causa dos cuidados impostos pela pandemia de covid-19 - como uso de máscaras, lavagem das mãos, menores aglomerações -, a circulação do vírus da gripe diminuiu drasticamente no mundo todo até a chegada do inverno, neste ano, no hemisfério norte.

“Quase não foi detectado o vírus da gripe em quase todos os lugares do mundo. Ele voltou a circular nos países do hemisfério norte, no inverno deste ano, que é normalmente quando ele circula, mas também porque as pessoas já estavam usando medidas menos restritivas [contra a covid-19], disse.

No Brasil, houve uma mudança de sazonalidade, explica a pesquisadora, e o avanço da influenza A, que costuma ocorrer nos meses frios, aconteceu durante a primavera e o começo do verão. Essa circulação do vírus coincidiu com uma trajetória predominantemente de queda nos novos casos da covid-19 no país, o que levou muitas pessoas (1, 2, 3) a flexibilizar as medidas restritivas.

“Aqui no hemisfério sul, o vírus da gripe voltou a circular no mês de novembro porque provavelmente houve a entrada de pessoas vindas de outros países onde o vírus já estava circulando. E, como as medidas de restrição, como máscara e distanciamento social, já não estavam sendo usadas por uma parcela expressiva da nossa população, o vírus se disseminou”, acrescentou a pesquisadora.

Ou seja, ao contrário do que alegam as publicações viralizadas, o surto de gripe não ocorreu apesar das medidas de proteção, mas, sim, no contexto da sua flexibilização.

No município do Rio, um dos primeiros locais em que o surto de gripe foi detectado, medidas restritivas - como a redução de público em teatros, cinemas e shoppings ou o uso de máscaras em locais abertos - foram flexibilizadas em outubro e novembro de 2021 pelo prefeito Eduardo Paes (1, 2).

Pacientes usam máscara facial como proteção contra o contágio do influenza A (H1N1) no Rio de Janeiro, em 22 de julho de 2009 ( AFP / João Paulo Engelbrecht)

Baixa cobertura vacinal

Mas o aumento dos casos de gripe não foi resultado somente do relaxamento das medidas de proteção. Segundo Siqueira, o fato de a influenza ter circulado fora de época pode ter convergido com a queda da resposta imune daqueles que tomaram a vacina contra a gripe em abril, mês de início da campanha de vacinação, e com a baixa cobertura vacinal.

“Nós tivemos uma mudança de sazonalidade, tivemos baixa cobertura vacinal e a vacina não induz uma imunidade de longo tempo, mas de oito ou nove meses. Portanto, quem se vacinou em abril, dependendo da faixa etária, agora já pode estar com uma queda de anticorpos”, afirmou a pesquisadora da Fiocruz.

“Isso não teria problema porque essa não é uma época em que o vírus da gripe costuma circular, mas estamos agora com essa mudança de sazonalidade. Por isso a importância de seguirmos medidas de proteção, principalmente evitando as aglomerações”, avaliou Siqueira.

Para José Tadeu Monteiro, pneumologista e coordenador da Comissão Científica de Infecções Respiratórias e Micoses da Sociedade Brasileira de Pneumologia e Tisiologia, “o avanço dos casos de influenza é resultado da falta de proteção adequada da vacina administrada neste ano de 2021 somada a um relaxamento das medidas de proteção”.

Para Monteiro, o atual aumento de casos de influenza deve servir como um alerta para os riscos de uma maior flexibilização das medidas de proteção no contexto da pandemia da covid-19: “As medidas de proteção continuam válidas, entendendo que nós temos a variante ômicron [do vírus SARS-CoV-2], que é bem infecciosa”.

Além disso, “outras cepas, variantes e mutações podem ocorrer enquanto não tivermos um controle vacinal adequado da população mundial”.

* Esta verificação foi realizada com base em informações científicas e oficiais disponíveis na data desta publicação.

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