Frascos de vacinas contra a covid-19 à frente de uma bandeira da União Europeia em 17 de novembro de 2020 ( AFP / Justin Tallis)

Publicações usam dados europeus incorretamente ao alegar que vacinas anticovid matam milhares

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Um vídeo contendo uma tabela supostamente extraída da base de dados de farmacovigilância EudraVigilance, mantida pela Agência Europeia de Medicamentos, vem sendo compartilhado desde agosto de 2021 nas redes sociais junto à alegação de que os números, datados de 14 de agosto, mostrariam que as vacinas contra a covid-19 estão matando milhares de pessoas na Europa. O vídeo também associa os imunizantes à morte de 1.645 pessoas no Reino Unido. Mas essas alegações têm como base uma interpretação errada dos números registrados na plataforma europeia. Já no Reino Unido, um texto publicado pelo Instituto Nacional de Estatística britânico explica que as mortes citadas no país são notificações de óbitos registrados como possivelmente ligados à vacina, mas que ainda não haviam sido investigados.

“A vacina está sim matando milhares de pessoas. Está aí a prova. Na verdade, é possível que a vacina já esteja matando mais do que o próprio covid”, diz uma das publicações, com o vídeo, compartilhadas no Twitter. A tabela circulou também no Facebook (1, 2, 3).

Captura de tela feita em 8 de dezembro de 2021 de uma publicação no Twitter ( . / )

A tabela viralizada contém o logo da Base de dados europeia de notificações de reações adversas medicamentosas suspeitas, EudraVigilance. Como explicado no site da plataforma, o sistema é desenvolvido, mantido e coordenado pela Agência Europeia de Medicamentos (EMA, na sigla em inglês).

A EudraVigilance foi criada em 2012 pela EMA para fornecer acesso público a notificações sobre suspeitas de efeitos colaterais também conhecidas como suspeitas de reações adversas” a medicamentos autorizados no Espaço Econômico Europeu (EEE), que inclui os países da União Europeia, Islândia, Liechtenstein e Noruega, conforme explicado em seu site.

Os números de mortos podem ser encontrados na aba Notificações de suspeitas de reações adversas a substâncias” e a seguir na letra C (por “covid-19 vaccines”, vacinas contra a covid-19 em inglês). A lista mostra as vacinas aprovadas na Europa (Moderna, Pfizer-BioNTech, AstraZeneca e Janssen). No entanto, os dados de agosto, data mostrada na tabela compartilhada nas redes, não estão mais acessíveis porque foram atualizados.

A base de dados indica o número de óbitos reportados após a vacinação na aba “Número de casos individuais para uma reação selecionada”, no gráfico de barra horizontal “Resultado” (“Outcome”) e na categoria “Fatal”, conforme destacado na imagem a seguir:

Captura de tela feita em 8 de dezembro de 2021 de informações sobre a vacina Pfizer (Tozinameran) na base de dados EudraVigilance ( . / )

O Checamos consultou a base de dados e não encontrou a soma total de casos relatados como fatais. Só foi possível localizar casos que tiveram um desfecho fatal ao clicar na aba “Número de casos individuais para uma reação selecionada”. De fato, a EudraVigilance explica em seu site que a base de dados relativa às vacinas contra a covid-19 “não fornece o número total de casos relatados como tendo um desfecho fatal. Ela fornece o número de casos relatados como fatais para grupos de reações específicas (por exemplo, distúrbios cardíacos) e para reações específicas (por exemplo, enfarte do miocárdio)”.

Isso significa que o número de pessoas que faleceram após receber uma vacina contra a covid-19 não pode ser obtido a partir da soma da cifra de mortos para cada reação, já que uma mesma pessoa pode estar contabilizada em várias reações.

A própria EudraVigilance explica: “Uma vez que um caso individual pode conter mais de um efeito colateral suspeito, a soma do número de casos fatais por grupo de reação será sempre maior do que o número total de casos fatais”.

Sem vínculo causal comprovado

Além disso, antes do acesso às notificações de reações adversas, o site da EudraVigilance exibe um aviso explicando que a informação contida no site “não reflete qualquer confirmação de uma ligação potencial entre o medicamento e o(s) efeito(s) observado(s)” e que o número de suspeitas de efeitos colaterais contido na plataforma não deve ser usado como base para determinar a probabilidade de um efeito adverso ocorrer.

A Agência Europeia de Medicamentos (EMA) publica atualizações sobre a segurança das vacinas contra a covid-19 periodicamente, contendo o número total de casos reportados como fatais após o uso de cada um dos imunizantes disponíveis no espaço europeu. Mas os relatórios explicam que esses números descrevem suspeitas de eventos adversos, e que esses óbitos podem ter sido causados por outros motivos que não a vacina.

Para o imunizante da Pfizer, a última atualização de segurança disponível data de 11 de novembro de 2021 e, a partir de dados coletados até 28 de outubro de 2021, informa 5.520 mortes relatadas como suspeitas de estarem ligadas à vacina, de um total de 428 milhões de doses do imunizante aplicadas até a mesma data (página 4). Nas publicações viralizadas, o número de mortes que teriam sido causadas até 14 de agosto de 2021 pela Pfizer teria sido 10.616, quase o dobro do relatado pela EMA em novembro com dados até o final de outubro.

Para a vacina da AstraZeneca, a atualização informa 1.259 casos com desfecho fatal suspeitos de estarem associados às vacinas até 28 de outubro, contra os 4.740 da tabela viralizada. No caso da vacina da Janssen, foram 198 mortes suspeitas contra 810 registradas na imagem compartilhada nas redes. E, para a Moderna, a EMA registra em sua última atualização 549 suspeitas relacionadas a óbitos, contra 5.610 contidos na tabela viralizada.

A AFP contatou a Agência Europeia de Medicamentos em 21 de julho de 2021 a respeito de alegações similares viralizadas nas redes sociais, que também utilizavam dados de casos com desfecho fatal de maneira enganosa (1, 2, 3). “O fato de alguém ter tido um problema médico ou ter morrido após a vacinação não significa necessariamente que isso tenha sido causado pela vacina. Isso pode ter sido causado, por exemplo, por problemas de saúde não relacionados à vacinação. Para a maioria dos medicamentos, a grande maioria dos efeitos colaterais suspeitos não acabam confirmados como efeitos colaterais”, disse uma porta-voz da agência reguladora.

Em seu site, a EMA também destaca que as vacinas contra a covid-19 autorizadas são seguras e eficazes, com quase 575 milhões de doses tendo sido administradas no espaço europeu até o final de outubro de 2021. As vacinas “foram avaliadas em dezenas de milhares de participantes em ensaios clínicos e atenderam aos padrões científicos da EMA para segurança, eficácia e qualidade. A segurança das vacinas covid-19 é continuamente monitorada e avaliada”, diz a agência.

Reino Unido

A informação contida no vídeo viralizado de que as vacinas teriam causado 1.645 mortes no Reino Unido também é enganosa.

Usando a ferramenta Wayback Machine, que arquiva páginas da internet, foi possível consultar o resumo de casos de reações adversas registradas na plataforma Yellow Card, publicado pelo site do governo britânico. Os dados coletados de 9 de dezembro de 2020 até 8 de setembro de 2021 registravam 526 mortes suspeitas para a vacina da Pfizer, 1.075 para a vacina da AstraZeneca, 16 para a vacina da Moderna e 28 casos em que o fabricante não foi informado, totalizando 1.645 casos.

“A maioria dessas notificações ocorreu em pessoas idosas ou com doenças subjacentes. O uso de vacinas aumentou ao longo das campanhas e, como tal, também aumentou a notificação de eventos fatais com uma associação temporal com a vacinação. No entanto, isso não indica uma ligação entre a vacinação e as mortes relatadas”, diz o resumo do governo britânico.

O sistema Yellow Card é uma plataforma de saúde do Reino Unido no qual os usuários registram suspeitas de efeitos colaterais que ocorreram após terem sido vacinados ou ingerido um medicamento.

Segundo a página, o programa é uma “forma de coletar e monitorar informações”, tanto sobre segurança de medicamentos quanto sobre “suspeitas de efeitos colaterais ou incidentes adversos”. O programa é “baseado em informações voluntárias” de “profissionais de saúde e do público em geral, incluindo pacientes, cuidadores e pais”.

Um texto datado de 4 de outubro de 2021 assinado por Sarah Caul, chefe de análise de mortalidade no Instituto Nacional de Estatísticas britânico (ONS), também registra que, entre 9 de dezembro de 2020 e 8 de setembro de 2021, o sistema Yellow Card, de farmacovigilância, de fato registrava 1.645 casos de óbito logo após a vacinação.

“Este é o número de mortes relatadas como possivelmente relacionadas a uma vacina; no entanto, [essas mortes] não terão sido totalmente investigadas no momento da notificação e uma notificação não é prova de causa. Portanto, é provável que os números sejam uma grande superestimativa”, diz o texto.

O Serviço Nacional de Saúde britânico (NHS) também destaca que as vacinas contra a covid-19 aprovadas no Reino Unido são seguras e que efeitos colaterais mais graves são “muito raros”.

Em abril de 2021 uma porta-voz da Agência Reguladora de Medicamentos e Produtos para a Saúde (MHRA) do Reino Unido afirmou à AFP: [As notificações inseridas no Yellow Card] não são efeitos colaterais comprovados, mas sim suspeitas de um possível efeito colateral por parte dos informantes”. “É muito importante ter em mente que um informe no Yellow Card não significa necessariamente que a vacina tenha causado essa reação ou esse evento”, acrescenta a MHRA em seu site.

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