Vista aérea de uma propriedade rural coberta pela geada em Varginha, Brasil, em 30 de julho de 2021 ( AFP / Douglas Magno)

As ondas de frio na Antártica e no Brasil não provam que o aquecimento global não exista

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Publicações compartilhadas mais de 3.200 vezes nas redes sociais desde, pelo menos, 30 de junho de 2021, afirmam que ambientalistas passaram a usar o termo “mudanças climáticas” no lugar de “aquecimento global” para justificar eventos de frio intenso como os que ocorreram na Antártica e no Brasil. Segundo as publicações, tais episódios provariam que o aquecimento global não existe. Contudo, especialistas explicaram à AFP que, além de as expressões terem significados diferentes, episódios de frio recorde não significam que a temperatura média do planeta não esteja aumentando.

“Entenderam porque mudaram de ‘aquecimento global’ para o vago e elástico ‘mudanças climáticas’, onde cabe tudo?!”, questiona uma das mensagens compartilhadas no Twitter (1, 2, 3), que destacam a notícia de que os últimos 6 meses na Antártica foram os mais frios já registrados. O conteúdo também circulou no Facebook (1, 2, 3) e alegações semelhantes foram compartilhadas em inglês e espanhol.

Captura de tela realizada em 25 de outubro de 2021 de uma publicação no Twitter ( . / )

“Com o frio recorde no Brasil fica mais fácil entender porque os malandros ambientalistas (ecoterroristas) mudaram o discurso de aquecimento global para mudanças climáticas. Nessa nova expressão cabe simplesmente TUDO!”, diz outra afirmação similar compartilhada no Twitter em junho passado e que também foi publicada no Facebook (1, 2, 3).

Mudanças climáticas e aquecimento global

Diferentemente do que indicam as publicações, os termos “mudança climática” e “aquecimento global” são conceitos diferentes, ainda que relacionados.

A ONG World Wide Fund for Nature (WWF) explica que o termo “aquecimento global” refere-se ao aumento da temperatura média da camada de ar próxima à superfície da Terra e dos oceanos, o que pode ser consequência de causas naturais e atividades humanas - ligadas, principalmente, ao aumento das emissões de gases que causam o efeito estufa.

Já o conceito de “mudanças climáticas” é mais amplo, e expressa como o aumento da temperatura média da Terra interfere nas dinâmicas climáticas globais. Esse termo “evita que se interprete que esse aumento de temperatura se dará de forma homogênea em todas as partes do mundo e em todos os dias do ano”, explicou ao Checamos em 19 de outubro Marcelo Laterman, porta-voz de Clima e Justiça do Greenpeace.

“Na verdade, o que ocorre é uma alteração no sistema climático como um todo, que é complexo, podendo gerar eventos extremos como ondas de calor em uma região, o aumento de tempestades em outra, assim como secas mais intensas e frequentes ou até mesmo eventos de frio intenso em algumas regiões”, acrescentou.

Ainda segundo Laterman, por essa razão o termo “aquecimento global” vem sendo menos usado, já que é comumente mal interpretado, ainda que não esteja errado. A confusão entre os termos, explica o porta-voz, está relacionada ao entendimento de dois conceitos distintos: clima e tempo. “Clima diz respeito a um padrão geral de condições meteorológicas em um longo espaço de tempo (30 anos por exemplo). Já o tempo, é aquele estado momentâneo das condições meteorológicas, o que sentimos no nosso dia-a-dia”, afirmou ao Checamos. E acrescentou:

De fato, em agosto de 2021, o Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC) produziu um relatório sobre os impactos do aumento na temperatura do planeta. Segundo a publicação, com um aquecimento global de 1,5°C acima dos níveis pré-industriais, limite estabelecido pelo Acordo de Paris, temperaturas extremamente altas têm 4,1 vezes mais probabilidade de acontecer. Já a ocorrência de precipitações extremas serão 1,5 vezes mais prováveis, e secas, duas vezes mais prováveis.

O termo aquecimento global “não deixou de ser usado, nem poderia. A temperatura média no planeta tem aumentado com velocidade assustadora”, acrescentou Suely Araújo, especialista sênior em políticas públicas do Observatório do Clima ao Checamos em 19 de outubro. “Ao longo dos anos, passou-se progressivamente a adotar também a expressão mudanças climáticas, que reflete os efeitos do aquecimento global, que incluem alterações no equilíbrio climático e aumento do número de ocorrências como ondas de calor e frio, crises hídricas e seca, furacões e outros eventos extremos”, disse.

Frio recorde na Antártica

Em 5 de outubro, o Centro Nacional de Dados sobre Neve e Gelo dos Estados Unidos [NSIDC, na sigla em inglês] reportou que o inverno de 2021 na Antártica, que ocorre entre junho e agosto no continente, foi o segundo mais frio já registrado, “atrás apenas do de 2004 nos registros de 60 anos na Estação do Polo Sul”.

Isso não significa, porém, que a mudança climática não esteja ocorrendo, mesmo nos pólos. Cientistas consultados pela equipe de verificação da AFP concordam que os mantos de gelo na Antártica continuarão a derreter e aumentar o nível do mar.

Dados de satélites da Nasa mostram que os mantos de gelo terrestres na Antártica e na Groenlândia vêm perdendo massa desde 2002.

Uma embarcação da marinha brasileira leva suprimentos para a Estação Antártica Comandante Ferraz em 7 de março de 2014 ( AFP / Vanderlei Almeida)

“Os mantos de gelo da Groenlândia e da Antártica estão perdendo quantidades significativas de gelo terrestre como resultado do aquecimento global causado por ação humana”, resume a agência espacial americana.

Peter Jacobs, cientista do clima que trabalha com Ciência da Terra no Centro de Voos Espaciais Goddard da Nasa, afirmou à AFP que “com a física básica, modelagem climática e mudanças no passado da Terra, nós sabemos que o aumento dos gases de efeito estufa e do aquecimento derreterá o gelo da Antártica e aumentará o nível do mar”.

“De modo geral, o Polo Sul vem se aquecendo, e o aquecimento nas décadas recentes, na verdade, tem sido bastante rápido como um resultado tanto das mudanças climáticas causadas por humanos quanto de fatores naturais”, acrescentou.

Nana Karlsson, glaciologista e cientista sênior no Serviço Geológico da Dinamarca e Groenlândia (GEUS), em entrevista à AFP, concorda: “Os recentes recordes de temperatura na Antártica são um evento de tempo, enquanto o aquecimento global a longo prazo que observamos é o clima”.

Alison Banwell, pesquisadora e glaciologista no Instituto Cooperativo para a Pesquisa em Ciências Ambientais (Cires) dos Estados Unidos, disse à AFP que é nítido que os humanos estão conduzindo a atual tendência de aquecimento global a longo prazo. “De modo geral, o clima da Terra, incluindo o da Antártica, está mostrando uma tendência de aquecimento muito clara”, disse.

“À medida que o clima global é aquecido, eventos climáticos também se tornarão mais extremos. Um bom exemplo desta variabilidade extrema foi este recente e excepcionalmente frio inverno na Antártica”, Banwell agregou.

Um vórtice polar forte é a causa provável desse frio recorde, segundo Isabella Velicogna, que monitora a variação de massa de gelo na Antártica para o Laboratório de Propulsão a Jato da Nasa. O vórtice é formado por ventos mais fortes do que o normal. “Isso mantém o estoque de ar frio no pólo”, explicou.

Samantha Buzzard, glaciologista e cientista do clima na Universidade de Cardiff em Gales, disse que “apesar de a Antártica ter, de fato, vivenciado algumas temperaturas baixas neste ano, este evento único não significa que não devemos estar preocupados com as mudanças climáticas e a perda de gelo das regiões polares”.

“Um inverno frio em um continente não sugere que o planeta não está esquentando”, afirmou.

A pesquisadora acrescentou que o inverno rigoroso de 2021 também deve ser colocado no contexto de várias décadas de tendência climática para entender o que está ocorrendo na Antártica, agregando também que, no ano de 2020, o continente também atingiu um recorde de calor.

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“Nós absolutamente ainda devemos nos preocupar com a Antártica", disse Buzzard. “Aproximadamente 70% da água doce da Terra está atualmente congelada na Antártica e apenas uma pequena proporção disso precisa derreter para que tenhamos aumentos ainda maiores no nível do mar com consequências potencialmente devastadoras em muitas localidades ao redor do mundo”, agregou.

Onda de frio no Brasil

Carlos Nobre, pesquisador colaborador do Instituto de Estudos Avançados (IEA-USP), explicou ao Checamos em 25 de outubro de 2021 que não existem dúvidas científicas sobre a existência do aquecimento global. A respeito de ondas de frio causadas pelas mudanças climáticas, afirmou:

“Essa onda de frio que tivemos [no Brasil] alguns meses atrás, muito intensa - não foi nem um recorde de frio comparado com décadas atrás, quando temperaturas bem menores que essas chegavam até o Sudeste do Brasil - mas nós vimos uma onda de frio muito forte. [...] Foi (...) um momento em que uma onda de frio conseguiu misturar esse ar mais frio que fica na Antártida e esse ar veio da Antártida para a América do Sul”, agregou.

Com o aquecimento global, o calor fica retido na baixa atmosfera e isso acaba induzindo a eventos extremos. “A atmosfera mais quente retém mais vapor de água da atmosfera e o vapor de água é o combustível para chuva, por isso há tempestades muito severas e também [se] uma região tem chuvas muito intensas, [isso] induz a secas em outras regiões [e a] modificações da circulação atmosférica”, exemplificou Nobre ao Checamos.

O pesquisador acrescentou, ainda, que o impacto do aquecimento global já é sentido no Brasil sob a forma de secas históricas, como as registradas em 2021 no Sudeste e Centro-Oeste, ondas de calor e recordes de incêndio florestais.

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