As histórias por trás das 14 imagens feitas em universidades brasileiras

Desde que o Ministério da Educação (MEC) anunciou em 30 de abril de 2019 um bloqueio de parte do orçamento das universidades federais, publicações viralizaram nas redes sociais classificando como “balbúrdia” imagens de jovens nus ou seminus em faculdades públicas brasileiras. A equipe de checagem da AFP identificou o contexto original e onde 14 dessas fotos foram tiradas.

“Aí está uma pequena amostra da BALBÚRDIA que acontece sob os olhares omissos e permissivos da Administração. Temos que ter em mente que esses arruaceiros seguram as vagas GRATUITAS por 10, 12, 15 anos, de um curso que duraria 4, se eles estivessem aí ESTUDANDO e que quem paga toda essa ‘zona’ somos nós”, diz a descrição de uma das postagens, que reúne 14 imagens, compartilhada quase 4 mil vezes desde 2 de maio de 2019.

O termo “balbúrdia” utilizado na publicação faz referência a uma fala do ministro da Educação, Abraham Weintraub. Em 30 de abril, Weintraub disse em entrevista que o governo iria bloquear recursos de universidades que estivessem “fazendo balbúrdia”, afetando inicialmente os repasses a três instituições. Pouco depois, o MEC anunciou uma retenção de 30% do orçamento discricionário de todas as universidades federais brasileiras.

Através de recursos como busca reversa e comparação de imagens, a equipe de checagem da AFP investigou e resumiu a história por trás de cada uma das 14 fotos compartilhadas na publicação em questão.

Universidade de Brasília (UnB)

Das 14 imagens vistas na postagem, a metade corresponde à Universidade de Brasília. Das sete, seis estão relacionadas a um caso ocorrido em 2009.  

Tiradas em novembro de 2009, as fotografias de 1 a 6 mostram um protesto feito na UnB em repúdio ao caso ocorrido na Universidade Bandeirante (Uniban), em São Paulo, quando a estudante Geisy Arruda foi perseguida após ir à aula trajando um vestido curto.

Captura de tela das imagens contidas na publicação viralizada no Facebook feita em 16 de maio de 2019 mostra estudantes na Universidade de Brasília

As fotos 1, 2 e 3 mostram parte da manifestação realizada na sala da reitoria da UnB. A foto 1, de 11 de novembro de 2009, foi tirada originalmente pelo fotógrafo Lula Marques para a agência de notícias do Grupo Folha, Folhapress.  

Já a imagem 2 aparece em uma reportagem sobre o protesto em apoio a Geisy, com crédito ao fotógrafo Sergio Dutti. Procurado pela equipe de checagem da AFP, ele confirmou por e-mail que tirou as fotografias 2 e 3. 

foto 4 é, na verdade, uma captura de tela de um vídeo feito também esse dia, durante a mesma manifestação. Na gravação, uma jovem ruiva com um megafone pede “uma posição oficial sobre o caso ocorrido na Uniban”. A mesma mulher aparece nas imagens 5 e 6, que podem ser encontradas em uma publicação feita em 12 de novembro de 2009 em um blog.   

Captura de tela das imagens contidas na publicação viralizada no Facebook feita em 16 de maio de 2019 mostra outro momento do mesmo protesto na Universidade de Brasília.

A foto 7 foi tirada na UnB em 6 de outubro de 2014. Um jovem que andava seminu no campus da instituição foi abordado por seguranças. Em reação ao que foi visto pelos estudantes como um cerceamento de uma performance artística, um grupo de pessoas ficou sem roupa por alguns minutos em protesto, como se pode observar aos 14 segundos deste vídeo. 

 

Captura de tela de imagem contida na publicação viralizada no Facebook feita em 15 de maio de 2019 mostra o protesto ocorrido na Universidade de Brasília em 2014

 

Universidade Federal do Amazonas (Ufam)

Combinação de fotos feita em 10 de maio de 2019 a partir da captura de tela de imagens contidas na publicação viralizada no Facebook mostra alunos na Universidade Federal do Amazonas em 2012.
 

As fotografias 8 e 9 têm data de março de 2012 e foram feitas na Universidade Federal do Amazonas, durante um projeto de acolhimento de novos alunos do curso de Artes Plásticas da instituição. 

A imagem 8 tem seu primeiro registro encontrado pela AFP no site G1, e com o crédito a Rayssa Almeida, da TV Amazonas. Segundo um texto publicado pelo site Yahoo, a chefe do Departamento de Artes da Ufam, Denize Piccolotto, indicou que não se tratava de um nu artístico porque os alunos usavam um tapa-sexo e estavam com o corpo pintado. A foto 9 pôde ser vista em um blog, que citou o mesmo evento. 

 

Combinação de fotos feita em 10 de maio de 2019 a partir da captura de tela de imagens contidas na publicação viralizada no Facebook mostra, na verdade. um experimento performático

Universidade do Estado do Amazonas (UEA)

As imagens 10 e 11 são capturas de tela de um vídeo feito na Universidade do Estado do Amazonas (UEA). Em 8 de junho de 2018, o Centro Acadêmico de Teatro da UEA publicou no Facebook um esclarecimento sobre o caso, afirmando que a gravação mostra um experimento performático realizado por alunos sob supervisão de docentes e administrativos da unidade em 2015. O Centro ainda frisou que as imagens foram “descontextualizadas de forma sensacionalista” nas redes sociais.

Captura de tela feita em 13 de maio de 2019 de imagem contida na publicação viralizada no Facebook mostra um protesto na Universidade Federal de Pelotas

Universidade Federal de Pelotas (UFPel)

A foto 12 aparece em um artigo publicado em 30 de outubro de 2015 sobre um protesto realizado na Universidade Federal de Pelotas (UFPel). Em 29 de outubro, a instituição publicou uma nota explicando que a manifestação foi motivada pela descoberta de um grupo de WhatsApp para compartilhamento de conteúdo machista entre alunos e professores do curso de História da universidade.

Captura de tela feita em 10 de maio de 2019 a partir da publicação viralizada no Facebook mostra aluno durante uma aula de Arte Contemporânea na Universidade Federal de Goiás

Universidade Federal de Goiás (UFG)

A foto 13 foi tirada no 13 de setembro de 2017 na Universidade Federal de Goiás, durante uma aula de Arte Contemporânea, segundo a imprensa local. Em entrevista, o professor Juliano Ribeiro Moraes explicou que o aluno tirou a roupa durante um questionamento sobre o que seria ou não arte. Posteriormente, o estudante que aparece na foto, Auro Sérgio, disse que ficou chateado com a repercussão da imagem.

Captura de tela feita em 10 de maio de 2019 a partir da publicação viralizada no Facebook mostra alunos durante uma performance sobre o Holocausto

Universidade Estadual de Londrina (UEL)

A imagem 14 aparece em uma reportagem sobre um trabalho de Filosofia realizado em fevereiro de 2016 na Universidade Estadual de Londrina (PR). Em uma publicação no Facebook, o professor que comandou a performance, Aguinaldo Moreira, explicou que o propósito era representar um campo de extermínio nazista. “Uma fila de corpos prestes a alimentar incineradores- era assim em Auschwitz”, escreveu em sua conta pessoal.

Em resumo, todas as fotografias presentes na publicação foram realmente feitas em universidades públicas brasileiras, mas a postagem omite seu contexto original, classificando-as simplesmente como exemplos de “balbúrdia” e “zona”. Originalmente, as imagens mostram diversas manifestações e performances artísticas.

AFP Brasil