Este vídeo mostra o rio Fraser se encontrando com o oceano Pacífico no Canadá

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Um vídeo, gravado a partir de uma embarcação, que exibe águas de cores diferentes foi compartilhado mais de um milhão de vezes nas redes sociais desde julho de 2017 com a afirmação de que se trata do encontro dos oceanos Atlântico e Pacífico, mas sem que eles se misturem. Essa afirmação, entretanto, é falsa: o que se vê nas imagens são as águas do rio Fraser com o Pacífico, que sim, se misturam.

“O ponto onde se encontram o oceano Atlântico e o oceano pacífico. Chegam a tocar, mas não se misturam”, dizem as legendas de diferentes publicações com a gravação no Facebook (1, 2, 3), visualizada mais de 30 milhões de vezes ao longo dos anos.

Viralizada também no Instagram (1, 2), Twitter (1, 2) e YouTube (1), a sequência continua circulando até hoje (1, 2) e impressionando usuários ao mostrar uma embarcação e a água em dois tons diferentes, claro e escuro, que parecem estar separados por uma linha.

O vídeo foi compartilhado com alegações semelhantes em outros idiomas, como espanhol, inglês, italiano, francês e filipino.

Captura de tela feita em 13 de novembro de 2020 de uma publicação no Facebook

Mas apesar do que afirmam as postagens viralizadas, na gravação não se vê os oceanos Atlântico e Pacífico sem se misturar.

Uma busca na Internet levou a um vídeo publicado no YouTube pela usuária Maryan Steve-Pearson em 2 de julho de 2015 intitulado “Quando o rio se encontra com o oceano”, e que registra mais de 343 mil visualizações.

Segundo a descrição do vídeo, ele foi gravado, na verdade, no Estreito de Geórgia, perto de Vancouver, na costa oeste do Canadá, durante um passeio em família entre Nanaimo, na ilha de Vancouver, e Tsawwassen, em Vancouver, em uma embarcação da empresa British Columbia Ferry (BC). O título dado por Steve-Pearson fazia referência ao Rio Fraser, que atravessa a cidade e desemboca no Estreito de Geórgia, que se encontra com águas do oceano Pacífico.

Em contato com a equipe de checagem da AFP, Maryan Steve-Pearson afirmou: “É terrível que existam pessoas que roubem o vídeo e façam afirmações falsas a respeito”.

“Eu me dei conta de que o vídeo havia viralizado quando vi uma cópia com mais de 10 milhões de visualizações e centenas de comentários”, contou a autora do registro, que apresentou uma queixa ao YouTube por questões de direitos autorais.

A plataforma já eliminou alguns vídeos, mas para que todas as cópias sejam apagadas, Steve-Pearson deve analisá-las uma a uma e indicar exatamente quais fragmentos coincidem com o vídeo original.

A autora da gravação, originária de Seattle, nos Estados Unidos, lamenta que sua gravação tenha sido utilizada para difundir afirmações falsas: “É óbvio que foi gravado em Vancouver porque no vídeo se pode ver que eu estava a bordo de um ferry da BC”.

Na descrição do vídeo no YouTube, inclusive, Steve-Pearson menciona uma verificação feita pela equipe de checagem da AFP em inglês.

Na captura de tela abaixo é possível ver tanto o logo da BC Ferries, como a bandeira do Canadá.

Captura de tela feita em 13 de novembro de 2020 de um vídeo no YouTube

Outro ponto importante é que no local onde Steve-Pearson estava os oceanos Atlântico e Pacífico não se encontram. Isto acontece em uma localidade conhecida como Passagem de Drake, no extremo oposto ao Estreito de Geórgia.

Os oceanos

Dois anos antes da viagem de Steve-Pearson ao Canadá, em 2013, o site Anchorage Daily News publicou uma matéria em que explicava a origem do mito sobre o encontro dos oceanos. Nela, afirmava que a desinformação teve origem em uma fotografia de Ken Bruland, professor de ciências da Universidade da Califórnia-Santa Cruz, nos Estados Unidos.

Bruland viajou em 2007 ao Golfo do Alasca, ao norte de onde Steve-Pearson gravou seu vídeo, para analisar, junto com seus colegas Andrew Schroth e John Crusius, a presença de ferro na água.

De acordo com a explicação que Bruland deu ao Anchorage Daily News, a diferença de cor das águas se explica por sua composição, o que não impede, mas atrasa, a sua mistura. Quando uma geleira se desfaz, os rios contíguos adquirem sedimentos pesados, como a argila e o ferro, e a diferença de tipo das águas se torna perceptível.

Um relatório da Fundação Aquae, inclusive, explica que “embora seja imperceptível nas imagens, [os dois corpos de água] chegam, sim, a se misturar. Portanto, estamos diante de um fenômeno natural que tem uma explicação, mas que não impede que siga parecendo surpreendente”.

Em resumo, ainda que as imagens vistas nos vídeos viralizados sejam verdadeiras, elas não mostram os oceanos Atlântico e Pacífico, que não se misturam, mas sim o Rio Fraser, e o oceano Pacífico que sim, se misturam.

AFP Brasil