Estas fotos de amígdalas circulam desde 2017 e 2019, antes da pandemia do novo coronavírus

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Duas imagens do interior de uma boca e suas amígdalas foram compartilhadas mais de 50 mil vezes em redes sociais desde o último dia 25 de maio como se correspondessem a uma pessoa com COVID-19 e a alguém que está se recuperando da doença. No entanto, as fotos circulam desde 2017 e 2019, antes da detecção do novo coronavírus; uma mostra uma infecção bacteriana e, a outra, amígdalas um pouco inflamadas.

“E assim você vai ficar com suas amígdalas, a primeira foto é uma amígdala doente e a 2 foto, esta [sic] curando”, diz o texto, supostamente “escrito por um médico”, que acompanha as duas imagens em publicações compartilhadas dezenas de milhares de vezes no Facebook (1, 2, 3, 4).

Na primeira foto, observa-se que as amígdalas estão avermelhadas e rodeadas de pontos vermelhos; na segunda, as amígdalas ainda apresentam uma coloração um pouco vermelha, mas sem os pontos desta cor. 

Captura de tela feita em 16 de junho de 2020 mostra imagens publicadas no Facebook

O texto, que também lista alguns dos sintomas que atingiriam uma pessoa infectada com o novo coronavírus, circulou da mesma maneira em espanhol.

Amígdalas com infecção bacteriana

Uma busca reversa pela primeira imagem no TinEye levou ao site da Biblioteca Hardin para Ciências da Saúde da Universidade de Iowa, nos Estados Unidos. No entanto, o portal indica que a página com a foto das amígdalas não está mais disponível.

O link foi salvo, contudo, em 1º de janeiro de 2017 no Web Archive - ferramenta que registra versões antigas de páginas na Internet - e mostra cinco fotografias de uma garganta; a terceira é a que aparece na parte superior das publicações viralizadas.

Segundo este registro, as fotos mostram casos de faringite estreptocócica e foram retiradas da biblioteca de imagens de saúde pública (PHIL, na sigla em inglês) dos Centros de Controle e Prevenção de Doenças dos Estados Unidos (CDC).

De fato, uma pesquisa pelo termo “strep throat” (faringite estreptocócica, em inglês) no buscador desta biblioteca localizou uma série de oito imagens, entre elas a da garganta com os pontos vermelhos.

Segundo os CDC, a foto registra “a visão intraoral de um paciente, que havia se apresentado a uma clínica exibindo avermelhamento e edema da orofaringe e petéquias, ou pequenas manchas vermelhas, no palato mole”. E conclui: “Foi realizado um diagnóstico de faringite estreptocócica, causado pela bactéria Streptococcus do grupo A”

Comparação feita em 16 de junho de 2020 entre foto publicada no site dos CDC e da imagem publicada no Facebook

Amígdalas inflamadas

Uma busca reversa pela segunda fotografia, também no TinEye, levou a uma imagem idêntica publicada no banco de imagens Shutterstock. O registro está atribuído a um usuário chamado ElRoi, mas ao clicar na foto é possível identificar a marca d’água “Oleg Malyshev”.

O Shutterstock não especifica a data em que a imagem foi feita, mas uma busca reversa no Google mostrou que ela circula na Internet ao menos desde março de 2019, meses antes da detecção do novo coronavírus em Wuhan, na China, no final daquele ano. 

Comparação feita em 16 de junho de 2020 entre foto publicada no banco de imagens Shutterstock e mesma imagem publicada no Facebook

A equipe de checagem da AFP mostrou a foto ao médico infectologista Alejandro Macías, integrante da Comissão Universitária de Cuidado de Emergência do Coronavírus, no México, que afirmou: “[as amígdalas] estão um pouco maiores, o que pode ser normal em jovens, mas sem pus (...) a parte de trás a foto está fora de foco e é difícil descartar um problema infeccioso bacteriano ou viral”.

Sintomas de COVID-19?

Sobre o impacto do novo coronavírus na garganta, o infectologista explicou que “não existe uma característica definida nas amígdalas ou anginas que permita suspeitar” de COVID-19.

No caso da doença gerada pelo novo coronavírus, “a dor não é associada à secreção ou à formação de pus, diferentemente dos vírus como os adenovírus ou o da mononucleose infecciosa ou bactérias como a streptococcus hemolítico”. Ou seja, um caso de COVID-19 não poderia ser detectado pelo estado da garganta. 

Além das fotos das amígdalas, as publicações incluem um texto atribuído a um médico, que descreve os sintomas supostamente sofridos por uma pessoa com COVID-19. No entanto, especialistas consultados pela equipe de checagem da AFP questionaram essas advertências sobre o novo coronavírus.

Por exemplo, a publicação afirma que “Quando você ficar doente de CORONAVIRUS [sic] você vai ter febre. Muita febre. A febre mais alta que já te deu na sua vida (...) Quando você tentar encher os pulmões ao inalar forte, você vai sentir que ainda falta o ar. E isso vai te assustar muito.”

No entanto, o médico Eduardo De Vito, chefe de Pneumologia do Instituto Lanari, em Buenos Aires, disse à equipe de checagem da AFP que as pessoas contaminadas pela COVID-19 “não necessariamente” vão ter uma febre tão alta e detalhou que o sintoma “é parecido com a febre da gripe comum”.

A publicação também diz: “Você vai respirar devagar, como se você tivesse colocado uma esponja no nariz”. Sobre a dificuldade para respirar, ou dispneia, De Vito disse que “apenas uma pequena porcentagem dos doentes” a terão. Em referência à sensação de ter uma esponja no nariz, afirmou que “o exemplo não é bom”.

A publicação viralizada ainda adverte: “você vai tentar pegar ar pelo nariz e não vai conseguir” e “então, eu vou colocar o oxigênio, que vai queimar a entrada do nariz e isso vai doer ainda mais”.

Sobre a primeira parte, o médico afirmou que trata-se de “uma dramatização inaceitável para que as pessoas entrem em pânico” e, sobre a segunda, afirmou: “Falso, não há uma única citação científica que fundamente esta afirmação”.

Por sua vez, o site da Organização Mundial da Saúde (OMS), consultado em 16 de junho de 2020, inclui entre os “sintomas mais comuns” da COVID-19 alguns dos indicados na publicação, como febre, tosse e cansaço. Por outro lado, a dor e a congestão nasal, também citadas nas postagens, são consideradas pela entidade como “sintomas menos frequentes”.

Em resumo, as imagens das amígdalas associadas nas redes sociais a pacientes de COVID-19 foram, na verdade, feitas antes da atual pandemia. Além disso, o texto que acompanha as imagens inclui descrições exageradas e imprecisas sobre a experiência de uma pessoa infectada com o novo coronavírus, assim como sintomas pouco frequentes da doença.

AFP Brasil