Esta mulher é uma estudante de teatro que homenageou uma artista de rua morta em Santiago

“Olhemos bem este rosto. Nunca mais os seus pais poderão olhá-lo vivo”, “A última vez que foi vista viva foi quando foi levada pela polícia chilena”, dizem algumas publicações em redes sociais acompanhadas por duas imagens de uma mulher vestida de palhaço durante um protesto. A protagonista das fotos é, no entanto, uma estudante de teatro que estava homenageando uma artista de rua encontrada enforcada em Santiago no último dia 20 de outubro e cuja morte está sendo investigada.

Captura de tela feita em 2 de dezembro de 2019 mostra publicação viralizada no Facebook

O rosto pintado de branco de uma jovem com nariz de palhaço e traje colorido foi compartilhado milhares de vezes no Facebook (1, 2, 3), Twitter e Instagram desde 20 de novembro, com legendas como:

“Daniela Carrasco, 36 anos, artista de rua chilena, conhecida como La Mimo, detida a 23 de Outubro [sic]; foi encontrada morta, violada e enforcada nas grades de um parque em Santiago. Os vizinhos declaram que foi presa por agentes do Estado, que deixaram o cadáver de Daniela exposto para intimidar os moradores de La Victoria, da Comuna Pedro Aguirre Cerda, Santiago”

Esta alegação também foi amplamente compartilhada em espanhol, inglês, francês, turco e outros idiomas.

“Daniela Carrasco, conhecida como ‘El mimo’, havia se transformado em um símbolo dos protestos no Chile. Não se exclui que sua morte tenha sido causada por tortura e violência sexual”, diz um site italiano. “Chile: Exército é suspeito de matar a manifestante Daniela Carrasco, apelidada de ‘El Mimo’, que foi encontrada enforcada”, diz outro site em francês.

Captura de tela feita em 2 de dezembro de 2019 mostra publicação viralizada no Facebook

No entanto, a mulher vista nestas fotografias não é Daniela Carrasco - encontrada enforcada em Santiago em 20 de outubro deste ano - mas uma estudante de teatro que, como contou à AFP, buscava homenageá-la.  

A equipe de checagem da AFP entrou em contato com a Associação de Advogadas Feministas do Chile (Abofem) que, no último dia 22 de novembro, publicou um comunicado em suas redes sociais informando que uma de suas integrantes assumiu a representação legal da família de Carrasco. 

A advogada Rebeca Zamora, integrante da Abofem, confirmou que a jovem vista nas duas imagens viralizadas não é Carrasco: “É uma mulher da Rede de Atrizes que se fantasiou e quis fazer uma homenagem antes de nós fazermos a declaração”.

A Rede de Atrizes do Chile informou, por sua vez, que a protagonista das fotos é a estudante de teatro Ritha Pino que publicou, em 12 de novembro, estas imagens e um vídeo em sua conta no Instagram. “Foi uma homenagem. O que quero é que se faça justiça. Seu caso está em investigação e se for verdade [que se suicidou] o Estado é culpado, porque nós não temos [cobertura de] saúde mental”, afirmou à equipe de checagem da AFP.

A estudante, do Instituto Profissional Arcos, esclareceu que as fotos foram tiradas em 12 de novembro durante uma manifestação na Praça Itália, no centro de Santiago.

O Sindicato de Atores e Atrizes do Chile (Sidarte) também se pronunciou sobre a publicação destas imagens e sobre o caso de Daniela Carrasco. Em comunicado, a organização afirmou que a mulher “na fotografia da Praça Dignidade [como foi chamada a Praça Itália durante as manifestações chilenas] não corresponde a ela; a jovem que aparece nesta imagem viralizada corresponde a uma aluna de atuação teatral que sentiu a necessidade de prestar uma homenagem a Daniela”.

Além disso, tanto a advogada Zamora, como a Procuradoria Metropolitana Sul - responsável pela investigação da morte de Daniela Carrasco - garantiram que a mulher que foi encontrada enforcada é a que aparece neste registro e não a vista nas fotografias viralizadas em diversos países e idiomas.

Esta última foto circula nas redes sociais chilenas ao menos desde 24 de outubro, junto com outras imagens compartilhadas anteriormente nas quais se vê um corpo pendurado em um muro (1, 2, 3).

O caso de Daniela Carrasco

Daniela Carrasco foi encontrada enforcada em 20 de outubro deste ano nos arredores do Parque André Jarlan, em Santiago.

Após a descoberta de seu corpo, várias publicações começaram a circular em redes sociais afirmando que, antes de sua morte, Daniela Carrasco havia sido detida pela polícia chilena ou que apresentava sinais de tortura e violação sexual (1, 2, 3). No entanto, nas primeiras investigações oficiais, não há indícios que sustentem estas afirmações, nem informações de que ela tenha sido detida previamente pela polícia.

Questionada, a advogada Rebeca Zamora afirmou não poder revelar detalhes da investigação que está em andamento. O Serviço Médico Legal do Chile (SML) também disse à AFP não poder se pronunciar sobre o caso, orientando que as informações fossem solicitadas à Procuradoria.

O caso está sendo investigado pela Procuradoria Regional Metropolitana Sul (Santiago) que explicou à AFP que “de acordo com a informação do Serviço Médico Legal se trata de um suicídio sem a intervenção de terceiros” e que a causa ainda permanece em aberto “a espera de algumas diligências sexológicas e de declarações de testemunhas”.

O caso de Carrasco ficou conhecido dois dias depois do início das manifestações no Chile, pelas quais o governo decretou Estado de Emergência e toque de recolher por uma semana em Santiago. Neste contexto, o Instituto Nacional de Direitos Humanos do Chile apresentou 88 denúncias por violência sexual e mais de 450 por tortura e tratamento cruel.

Em resumo, a mulher vestida de palhaço em uma manifestação não é a falecida artista de rua Daniela Carrasco, mas Ritha Pino, uma estudante de teatro chilena que foi caracterizada a um protesto no último dia 12 de novembro. Até o momento, o caso de Carrasco é investigado como um suicídio.

Valentina De Marval
AFP Brasil