Captura de tela de Yahoo Notícias, realizada no dia 4 de julho de 2018. (Yahoo Noticias / AFP)

Dois traficantes foram executados publicamente na China na frente de crianças? É falso.

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No contexto do Dia Internacional contra o Abuso e Tráfico Ilícito de Drogas, celebrado no dia 26 de junho, a informação de que traficantes foram executados em público na China para servir de exemplo às crianças que assistiam ao seu fuzilamento espalhou-se no Brasil. Esta informação é falsa. 

Pescadores ancorando seus barcos no porto de Haikou, na província de Hainan no sul da China. (AFP / Str)

Segundo usuários das redes sociais e diversos meios de comunicação, naquele dia, dois traficantes de drogas, Cai Liqun e Huang Zhengye, teriam sido executados em frente a 300 moradores de Haikou, capital da ilha província de Hainan; entre eles várias crianças. O ato faria parte de uma campanha governamental contra os narcóticos. 

Checamos esta informação. Naquela manhã, a condenação à pena de morte de Cai e Huang foi anunciada em um evento multitudinário, mas eles não foram executados no local. Depois da sentença, os dois foram encaminhados a um campo de execuções, segundo informa a imprensa local.

Versões sobre execuções públicas na China também ocorreram depois de uma sessão aberta de condenação, em dezembro de 2017, em Lufeng, na vizinha província de Guangdong.

Estes eventos são organizados pelo governo chinês. Neles são lidos os vereditos de réus acusados de crimes graves, que neste caso foram de contrabando, fabricação e venda de entorpecentes. São atos de suposto caráter pedagógico, que se propõem a dissuadir os jovens de cometer crimes. As fotos que circulam na internet são imagens destas sessões abertas de anúncios de condenação.

Milhares de pessoas atendem um evento de anúncio de condena organizado em conjunto por duas cortes, na província de Guangdong, no dia 16 de dezembro de 2017. (Lufengshi.net)

A China é o país com maior número de execuções no mundo, segundo a organização de defesa dos direitos humanos Anistia Internacional. De acordo com William Nee, investigador do grupo em Hong Kong, o “o governo se nega a dar ao público informações básicas sobre a pena de morte no país - como o número de sentenciados e executados anualmente. Sem esta informação crucial, qualquer discussão racional sobre o uso da pena de morte no contexto da guerra contra as drogas é basicamente impossível”.

A exposição pública de pessoas que infringem a lei remonta a época imperial da China e foi perpetuada após a chegada do Partido Comunista ao poder, em 1949. Atos deste tipo alcançaram seu ápice durante as grandes “limpezas” da Revolução Cultural (1966-76), quando dezenas de milhares de pessoas suspeitas de pertencer a categorias “reacionárias” foram expostas ao escárnio popular. Com o início da abertura nos anos 80, este tipo de “pedagogia” restringiu-se a criminosos e diminuiu nos últimos anos, ainda que recentemente se tenha observado ressurgimentos ocasionais desta prática, especialmente no âmbito das campanhas contra o tráfico de drogas.

AFP Brasil