Combinação de imagens criada em 2 de agosto de 2026 do presidente argentino Javier Milei (E) discursando durante a reunião anual do Fórum Econômico Mundial (WEF) em Davos, em 21 de janeiro de 2026, e do presidente brasileiro Luiz Inácio Lula da Silva discursando durante um evento em Brasília, em 3 de abril de 2025 (AFP)

Governo argentino interpreta erroneamente estudo para alegar que Brasil liderou uma “campanha anti-Argentina”

A Argentina e o Brasil vivem uma crise diplomática desde o fim de julho de 2026, após acusações do presidente argentino, Javier Milei, contra seu homólogo brasileiro Luiz Inácio Lula da Silva (PT). Milei e seu chanceler acusaram o Brasil de promover uma “campanha anti-Argentina” nas redes sociais com base em uma interpretação equivocada de um estudo da Monitor Digital divulgado em 24 de julho. A consultoria analisou a origem das menções à Argentina nas plataformas digitais entre dezembro de 2022 e julho de 2026, mas descartou a existência de uma campanha coordenada.

“Quem colocou mais dinheiro nessa campanha anti-Argentina? O governo do Brasil, 25% dos recursos saíram do governo do Brasil”, afirmou Milei em 26 de julho à Radio Mitre. 

A acusação foi feita um dia após o mandatário argentino participar da oficialização de Flávio Bolsonaro como candidato à Presidência pelo Partido Liberal e como adversário de Lula na eleição de 2026. 

Em 2 de agosto, Milei voltou a acusar Lula e chamá-lo de “corrupto” em uma entrevista para o veículo La Nación. Três dias depois, o chanceler argentino Pablo Quirno fez novas críticas no veículo Infobae. “22% das mensagens da campanha anti-Argentina vieram do Brasil, seguido por México”, disse.

“É evidente que também há dinheiro envolvido nisso. Não tenho provas para incriminar ninguém no governo, mas certamente veio do Brasil”, afirmou o ministro das Relações Exteriores.

Embora não tenham mencionado diretamente, o presidente e o chanceler argentino fizeram referência nas redes sociais e em veículos de comunicação aos resultados de um estudo da consultoria Monitor Digital. Mas o levantamento foi interpretado de forma errônea para sustentar as acusações contra o Brasil. 

Em sua conta do X, Milei compartilhou várias vezes um infográfico da conta Encuestas Argentinas que replicou os dados da Monitor Digital. 

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Captura de tela feita em 6 de agosto de 2026 de uma publicação no X da conta do presidente Javier Milei

Esse estudo foi publicado cinco dias depois do fim da Copa do Mundo, em 19 de julho, em que a Argentina alcançou o segundo lugar.

Durante e após o Mundial, milhares de mensagens difundidas nas redes sociais e em veículos de comunicação acusaram os argentinos de serem arrogantes, provocadores, racistas e violentos.

A consultoria identificou que a conversa sobre a Argentina nas redes sociais foi liderada por publicações do Brasil com 22,1%; seguida de México com 14,8% e Estados Unidos com 13% durante o período estudado. 

Mas o Monitor Digital não se concentrou em publicações feitas somente durante o campeonato, e sim em um período que se estendeu de dezembro de 2022 a julho de 2026.

Além disso, o ranking incluído no estudo, e replicado por Milei, mostra o número de publicações que mencionam a Argentina sem especificar se são elogios ou críticas.

O único caso em que se analisa o teor das mensagens sobre o país é no mês de julho, quando se registrou “54,7% de sentimento positivo frente a 44,9% negativo”, mas sem especificar de quais países eram as publicações.  

Publicações orgânicas 

A consultoria responsável pelo estudo afirmou que a conversa sobre a Argentina foi “impulsionada principalmente por uma audiência jovem, masculina, fãs de futebol e de língua espanhola”.

“Trata-se de um grupo social muito definido no universo das redes globais que vem impulsionando o intenso debate sobre os argentinos, bem diferente da crença generalizada de que a discussão é promovida por interesses específicos de certos países que querem lançar uma campanha 'anti-Argentina’”, diz o relatório.

Uma conclusão similar foi publicada em 26 de julho pela consultoria Inteligência Analítica em um estudo com o título “A conversa hostil sobre Argentina”, que analisou a interação nas redes sociais durante e depois da final da Copa do Mundo. 

O estudo analisou 587.907 publicações de 325.627 usuários no X e identificou que as contas possuíam, em média, 7,46 anos e que apenas 0,29% delas foram criadas após o início da Copa do Mundo.

Além disso, houve uma média de 1,81 publicações por conta. “Esse é o perfil de uma participação massiva de baixa intensidade (...) Uma operação coordenada apresenta o padrão oposto: menos contas, mais volume em cada”, explica a consultoria.

O estudo também identificou que os usuários não formaram grupos fechados que interagiram entre si, algo típico em campanhas orquestradas. Pelo contrário, a estrutura era a de uma conversa aberta entre estranhos. 

O governo brasileiro anunciou em 4 de agosto que irá manter as relações com a Argentina reduzidas ao nível de encarregado de negócios “enquanto persistirem os ataques verbais do presidente Javier Milei contra as instituições brasileiras”, segundo disse uma fonte do Ministério das Relações Exteriores do Brasil à AFP.

Referências

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