Posts omitem suspensão de mandato de Glauber Braga para sugerir impunidade em caso de agressão na Câmara

O Conselho de Ética da Câmara dos Deputados aprovou, em 5 de maio de 2026, a suspensão por dois meses do mandato do deputado federal Marcel Van Hattem pela ocupação do Plenário da Casa em agosto de 2025. Em resposta, posts com mais de 130 mil interações comparam a decisão com processos de outros deputados para sugerir que esses ficaram impunes. Mas isso é enganoso: embora o deputado André Janones tenha feito um acordo em um processo por “rachadinha”, o deputado Glauber Braga foi penalizado com suspensão de seis meses do mandato após agredir um militante do Movimento Brasil Livre (MBL). 

“3 CASOS, 3 DESTINOS DIFERENTES NA CÂMARA DOS DEPUTADOS (...) JUSTIÇA OU CONVENIÊNCIA? NA CÂMARA, DEPENDE DE QUEM É”, lê-se em uma imagem que circula no Instagram, no Facebook, no X, no TikTok e no YouTube

A imagem também foi divulgada pelo pré-candidato ao Senado pelo Paraná Deltan Dallagnol. 

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Captura de tela feita em 8 de maio de 2026 de uma publicação no Facebook (.)

O conteúdo é dividido em três partes com imagens dos deputados André Janones (Rede), Marcel Van Hattem (Novo) e Glauber Braga (PSOL).  

A foto de Van Hattem acompanha a afirmação “cumpriu seu papel de fiscalização” e “teve o mandato suspenso por 2 meses”

Em 5 de maio de 2026, a Comissão de Ética da Câmara dos Deputados votou pela suspensão do mandato do deputado pela sua participação na ocupação da Mesa Diretora da Casa em agosto de 2025. 

A suspensão será analisada pela Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) e pelo Plenário da Câmara e se estende aos deputados Marcos Pollon (PL) e Zé Trovão (PL). 

A punição dos parlamentares se deve à ocupação da Mesa Diretora da Câmara nos dias 5 e 6 de agosto, inviabilizando o funcionamento da Casa para protestar contra a prisão domiciliar do ex-presidente Jair Bolsonaro, posteriormente condenado a 27 anos de prisão por tentativa de golpe de Estado. Outros deputados participaram do protesto que também pedia que fosse pautada a anistia geral e irrestrita aos demais condenados pelos atos de 8 de janeiro de 2023. 

Um protesto similar também foi realizado no mesmo período no Senado. 

À época, a oposição alegou que o movimento seria parte de uma obstrução. Mas, segundo a definição oficial do Congresso, a obstrução ocorre quando congressistas usam meios regimentais — e não obstruções físicas — para adiar ou evitar a votação de determinada matéria. Houve um debate, portanto, se o movimento em questão poderia ser classificado como tal (1, 2).

Mandato de Glauber está suspenso por seis meses 

A parte do conteúdo que menciona o deputado federal Glauber Braga afirma que ele “chutou um cidadão dentro da Câmara”, mas não foi punido. 

No entanto, isso não é verdade. 

A afirmação refere-se ao episódio de abril de 2024 em que o parlamentar expulsou da Câmara com empurrões e chutes o então integrante do MBL Gabriel Costenaro, após ele proferir ofensas contra o parlamentar. 

A agressão foi filmada e o partido Novo pediu a cassação do deputado sob justificativa de falta de decoro parlamentar. 

O Conselho de Ética da Câmara analisou a denúncia e chegou a aprovar a cassação do mandato de Braga em abril de 2025. 

Após a aprovação, o deputado anunciou que ficaria em greve de fome e ocuparia as dependências da Câmara até o final do processo, que ainda passaria pelo Plenário e pela CCJ. 

O protesto durou mais de uma semana e foi encerrado após um acordo com o presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos). Meses depois, o deputado voltou a protestar na Câmara contra a possível cassação de seu mandato ao ocupar a cadeira do presidente e foi retirado à força. 

Como mostra uma notícia da própria Câmara, o mandato de Glauber foi suspenso, em 10 de dezembro de 2025, por seis meses. 

Essa punição foi proposta em uma emenda do Partido dos Trabalhadores (PT) em alternativa à cassação do mandato, que era defendida pelo Conselho de Ética.  

Na página do deputado no site da Câmara, é informado que ele “não está em exercício”. A previsão é que seu mandato retorne em junho de 2026. 

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Captura de tela feita em 8 de maio de 2025 da página do deputado no site da Câmara (.)

Acordo de Janones em processo de rachadinha 

Por fim, o conteúdo afirma que o deputado André Janones “confessou rachadinha” e que o caso foi arquivado após acordo com a Procuradoria-Geral da República (PGR). 

De fato, como informa uma notícia do Supremo Tribunal Federal (STF) de 19 de março de 2025, o deputado firmou um acordo de não persecução penal (ANPP) — alternativa prevista no Código Processual Penal para crimes cometidos sem violência e grave ameaça para evitar o processo judicial tradicional. 

Com o acordo, Janones admitiu a prática de rachadinha — conduta ilegal em que assessores devolvem parte de seus salários a políticos — em seu gabinete e se comprometeu a pagar R$ 157 mil em reparação e multa para a Câmara dos Deputados, além de encerrar as práticas.  

O deputado havia sido indiciado em setembro de 2024 pela Polícia Federal pelos crimes de associação criminosa, peculato e corrupção passiva após um ex-funcionário de seu gabinete acusá-lo de usar parte do salário para custear despesas pessoais de um cartão de crédito. 

Referências 

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