O vídeo de celulares sendo destruídos foi feito no Paquistão e não tem relação com o Afeganistão

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Publicações contendo um vídeo de homens uniformizados destruindo celulares acompanhadas da alegação de que se tratam de autoridades do governo afegão somaram mais de 9,1 mil interações ao menos desde 27 de janeiro de 2022. Mas isso é falso. O vídeo foi filmado em Karachi, no Paquistão, onde oficiais alfandegários estavam destruindo mercadorias contrabandeadas.

“Os telefones celulares agora são proibidos no Afeganistão. Todos enviaram voluntariamente seus telefones ao *governo afegão.* Qualquer pessoa encontrada com telefone celular enfrentará pena de morte, diz a nova lei”, assinalam as legendas das publicações compartilhadas no Facebook (1, 2), no Instagram (1, 2) e no Twitter (1).

A sequência de cerca de 20 segundos, que também circulou em inglês e espanhol (1, 2, 3), mostra homens uniformizados pisando em celulares, além de outros tipos de equipamentos eletrônicos, e alguns deles falando ao fundo. Também parece haver um estoque de bebidas alcoólicas exposto.

Captura de tela feita em 28 de janeiro de 2022 de uma publicação no Twitter ( . / )

As publicações circulam em meio aos relatos da imposição de restrições no Afeganistão desde que os talibãs tomaram o poder em agosto de 2021. Apenas um mês após a chegada do Talibã, os afegãos na província de Helmand foram proibidos de retirar a barba enquanto as meninas foram proibidas de frequentar a escola.

Mas o vídeo não tem relação com o Afeganistão nem com os talibãs.

Mercadorias contrabandeadas no Paquistão

Essa mesma gravação já havia circulado anteriormente seguida da alegação de que os telefones celulares haviam sido proibidos no Paquistão e, por isso, as autoridades estavam os destruindo, o que foi desmentido pela equipe de checagem da AFP neste artigo em árabe.

Uma sequência mais longa da mesma cena foi encontrada no YouTube, datada de 29 de dezembro de 2021, publicada no canal Awami Press Club e intitulada: “Fiscalização alfandegária destrói grande quantidade de mercadorias contrabandeadas em Karachi”.

O jornal paquistanês The Express Tribune noticiou que as autoridades destruíram os itens contrabandeados em dezembro de 2021, após um intervalo de dois anos devido à pandemia de covid-19.

Outros meios de comunicação locais (1, 2) também publicaram trechos do vídeo que mostram cenas semelhantes, descritas como um exercício anticontrabando que envolveu a destruição de bebidas alcóolicas ilícitas, telefones celulares e drogas confiscados no Paquistão.

Além disso, a bandeira do Paquistão e o logotipo da agência aduaneira do país podem ser vistos aos 16 segundos do vídeo no uniforme do homem que está usando óculos escuros.

Comparação feita em 28 de janeiro de 2022 entre uma publicação no Facebook (E) e a foto da AFP de um oficial alfandegário próximo a mercadorias contrabandeadas, em Karachi, em 29 de dezembro de 2021 ( . / )

Essa imagem se assemelha a registros (1) de funcionários da alfândega feitos pelo fotógrafo da AFP Rizwan Tabassum, que cobriu a ação em 29 de dezembro de 2021, em Karachi, a maior cidade do país e sua capital financeira e econômica.

Outras fotos (1, 2) feitas pelo fotógrafo da AFP no mesmo dia permitem observar detalhes semelhantes como garrafas de álcool no chão, contêineres, guindastes e funcionários alfandegários armados.

Oficiais da alfândega em uma ação para destruir mercadorias ilícitas contrabandeadas para o país, em Karachi, em 29 de dezembro de 2021 ( AFP / Rizwan Tabassum)

Uma matéria publicada no site da VICE em 7 de janeiro de 2022 fala sobre essa ação e como isso se tornou uma espécie de cerimônia no país.

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