Um homem segura sua carteira de trabalho durante uma feira de empregos semanal no Sindicato dos Trabalhadores em Telecomunicações, no Rio de Janeiro, em 5 de junho de 2019. (AFP / MAURO PIMENTEL)

Publicações alegam falsamente que IBGE exclui beneficiários do Bolsa Família do cálculo do desemprego

  • Publicado em 13 de fevereiro de 2026 às 21:15
  • Atualizado em 13 de fevereiro de 2026 às 22:32
  • 4 minutos de leitura
  • Por AFP Brasil

O Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) enfrenta um conflito interno entre servidores e a atual gestão, que é acusada de ser autoritária. Nesse contexto, publicações compartilhadas mais de 4 mil vezes nas redes sociais desde 10 de fevereiro de 2026 alegam que o órgão estaria “maquiando” dados do desemprego ao excluir beneficiários do Bolsa Família e que a taxa real seria de 16,6%. Mas pessoas atendidas pelo programa também podem trabalhar e não são excluídas pelo instituto de nenhum cálculo.

“Sofrendo retaliação de Lula, IBGE ameaça classificar beneficiários do Bolsa Família como desempregados e piorar números maquiados do governo”, diz uma imagem compartilhada no Facebook e no X. Conteúdos semelhantes também foram publicados no Instagram e no TikTok

As publicações alegam ainda que a “taxa de desemprego real” pode chegar a 16,6%. Isso contraria dados divulgados pelo órgão que mostram que o terceiro trimestre de 2025 fechou com uma taxa de desocupação de 5,6%, patamar mais baixo desde o início da série histórica em 2012.

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Captura de tela feita em 12 de fevereiro de 2026 de uma publicação no Facebook (.)

Os questionamentos sobre os números oficiais começaram a circular em meio à crise interna do IBGE, na qual o sindicato e ex-funcionários acusam o presidente do instituto, Marcio Pochmann, de adotar uma gestão autoritária e promover uma “caça às bruxas” contra servidores.

No entanto, como já mostrado pelo Checamos, é falso que o IBGE descarte beneficiários do Bolsa Família do cálculo do desemprego.

Metodologia do IBGE

A página do IBGE explica que o órgão divide o mercado de trabalho da seguinte forma: os que estão na força de trabalho — que podem ser ocupados ou desocupados —, os que estão fora da força de trabalho e os que estão abaixo da idade mínima para trabalhar (14 anos ou mais).

A taxa de desemprego é calculada com base na proporção de pessoas desocupadas em relação ao total da força de trabalho. São consideradas desocupadas aquelas que têm idade para trabalhar e não estão trabalhando, mas estão disponíveis e à procura de emprego.

Dessa forma, universitários que se dedicam aos estudos ou donas de casa, por exemplo, não são considerados desempregados.

O site do instituto destaca que beneficiários do Bolsa Família e de outros programas sociais podem ser classificados em qualquer uma das categorias. Portanto, eles não são ignorados no cálculo do desemprego.

Não há nenhum impedimento para que os atendidos pelo programa trabalhem com carteira assinada ou tenham outras formas de renda. O governo federal apenas estabelece que a família deve ter uma renda mensal de até R$ 218 por pessoa.

Segundo dados de dezembro de 2025 do Observatório do Cadastro Único (CADÚnico), das 18,7 milhões de famílias atendidas pelo programa, 56,7% possuem pelo menos um membro trabalhando.

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Captura de tela feita em 12 de fevereiro de 2026 do Observatório do CADÚnico (.)

Procurado pelo Checamos, o IBGE confirmou que o recebimento Bolsa Família não interfere diretamente na classificação. “A pessoa beneficiária do programa e que tinha algum trabalho na semana de referência da pesquisa, mesmo que informal, será classificada como ocupada; já aquela que não tinha nenhum tipo de trabalho, mas que estava procurando por um, será classificada como desocupada. Por fim, os beneficiários do programa que não estavam ocupados e nem desocupados na semana de referência serão classificados como pessoas fora da força de trabalho”.

Qual a origem do dado de 16,6%?

O cálculo da “real taxa de desemprego” citado nos posts foi feito pelo colunista do site Diário do Poder David Gertner. O texto questiona a metodologia do IBGE, mas não menciona diretamente beneficiários do Bolsa Família.

O autor hipotetiza como ficaria a taxa de desemprego caso fossem incluídas pessoas que são classificadas atualmente como desalentadas — aquelas que gostariam de trabalhar e estariam disponíveis, mas não procuraram emprego por acharem que não encontrariam — e subocupadas por insuficiência de horas trabalhadas. 

O IBGE acompanha esses grupos e os identifica como subutilização da força de trabalho, dado que é divulgado desde 2016, quando o órgão mudou sua metodologia para seguir as recomendações da Organização Internacional do Trabalho (OIT).

A taxa de subutilização é divulgada pelo Instituto em paralelo à taxa de desemprego. Ela é obtida pela taxa de desocupação somada à subocupação por insuficiência de horas trabalhadas e à força de trabalho potencial. Atualmente, ela está em 13,9%.

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Captura de tela feita em 12 de fevereiro de 2026 do site do IBGE (.)

O Sindicato Nacional dos Trabalhadores do IBGE (Assibge) ressaltou ao Checamos que o beneficiário do Bolsa Família é classificado de acordo com sua ocupação e que o instituto “se orienta por técnicas e metodologias com respaldo internacional, de modo que não cabem tentativas de alteração metodológica para favorecer quaisquer governos”.

Além disso, todo o processo de construção do Sistema Integrado de Pesquisas Domiciliares, onde se insere a Pnad Contínua, contou com ampla discussão de especialistas em mercado de trabalho e em conceitos e pesquisas sociodemográficas, mediante realização de 12 Fóruns do Sistema Integrado de Pesquisas Domiciliares”, reiterou.

Referências

Atualiza o 12º parágrafo com a resposta enviada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE)
13 de fevereiro de 2026 Atualiza o 12º parágrafo com a resposta enviada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE)

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