Vídeo em que Lula cita “punição severa” para adolescentes envolvidos no caso do cão Orelha foi criado por IA

  • Publicado em 5 de fevereiro de 2026 às 21:36
  • 3 minutos de leitura
  • Por AFP Brasil

Após a morte do cão comunitário Orelha causar comoção nacional no início de 2026, o vídeo de uma suposta declaração do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) sobre o caso foi visualizado mais de 390 mil vezes nas redes sociais. Na gravação, o presidente parece defender uma “punição severa” para os adolescentes investigados pela morte, independentemente de serem menores de idade. Mas o vídeo não é autêntico: inconsistências visuais indicam que o conteúdo foi manipulado com inteligência artificial, usando como base o trecho de um discurso de Lula sem relação com o caso. 

“Caso do cachorro Orelha Lula ficou bravo: eles vão PAGAR!”, lê-se na legenda sobreposta a um vídeo que circula no Instagram, no Facebook, no Threads, no TikTok, no YouTube e no Kwai.  

No vídeo, Lula parece dizer: “o caso do cachorro Orelha não vai ficar impune. Eles são menores, mas isso não vai ficar assim. Eu me comprometo, como presidente da República, a dar uma punição severa, independente de ser filho de rico. Chegaram no Brasil e já estão se escondendo, por quê?”

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Captura de tela feita em 4 de fevereiro de 2026 de uma publicação no Facebook (.)

O conteúdo faz referência aos adolescentes suspeitos de maus-tratos ao cão comunitário Orelha de Praia Brava, em Florianópolis. 

O cachorro foi encontrado gravemente ferido em 4 de janeiro e foi submetido a uma eutanásia um dia depois devido à gravidade das lesões. 

Dois dos adolescentes suspeitos de terem cometido a agressão viajaram para os Estados Unidos após o crime, segundo a Polícia Civil de Santa Catarina, mas retornaram ao país em 29 de janeiro. 

Em 3 de fevereiro, a Polícia Civil de Santa Catarina concluiu o inquérito do caso e pediu a internação provisória de um dos adolescentes apontados como agressor do Orelha e de três familiares ligados aos suspeitos por coação de testemunhas durante o andamento da investigação. 

O caso causou comoção nacional com protestos por justiça em algumas cidades e pedidos de punição por parte de senadores, enquanto outros parlamentares pediram a redução da maioridade penal no Brasil. A primeira-dama, Rosângela Lula da Silva, se pronunciou sobre a situação expressando “tristeza e indignação”.

Mas o vídeo em que Lula pede “punições severas” contra os agressores do cão comunitário não é autêntico. 

Vídeo manipulado com IA

Uma análise da sequência viral identificou inconsistências visuais características de conteúdos manipulados com inteligência artificial (IA). Em determinado momento do vídeo, a boca do presidente parece se fundir com sua mão e seu rosto aparece distorcido: 

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Capturas de tela feitas em 5 de fevereiro de 2026 de uma publicação viral no Facebook com detalhes assinalados pela AFP (.)

Ao final da sequência viral, o presidente supostamente pede para que os usuários comentem “justiça” e para que sigam “o Lula”, abordagem incompatível com o discurso de um presidente em um evento, mas utilizada com frequência como estratégia de engajamento de conteúdos manipulados com IA. 

Em um dos momentos da sequência viralizada é possível ler em um painel que aparece atrás de Lula “90” e “salário mínimo”. 

Uma busca por esses termos levou à transmissão da cerimônia de 90 anos do salário mínimo da qual Lula participou, em 16 de janeiro de 2026. 

Na ocasião, o presidente visitou as instalações da Casa da Moeda do Brasil, no Rio de Janeiro, e participou do evento de lançamento oficial das medalhas comemorativas dos 90 anos do salário mínimo. 

A partir dos 33 minutos da transmissão, Lula faz seu discurso na cerimônia. Durante sua fala, o presidente criticou a defasagem do salário mínimo e relembrou o contexto em que ele foi criado. Em nenhum momento ele cita o caso do cachorro Orelha. 

Até a publicação desta checagem, não foram encontradas declarações do presidente Lula sobre o caso. 

Esse conteúdo também foi verificado por Aos Fatos, Agência Lupa, Estadão Verifica e UOL Confere. 

Referências

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