Mensagem com recomendações contra “nova gripe” não foi escrita por um diretor do HC

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Uma mensagem com recomendações contra uma “nova gripe” não foi escrita por um diretor do Hospital das Clínicas, de São Paulo, ao contrário do que alegam publicações compartilhadas em redes sociais desde dezembro de 2021. O texto traz conselhos como lavar as mãos, evitar locais cheios e beber chá de erva-doce. Mas o hospital nega que qualquer diretor da instituição seja o autor da mensagem viral, que contém algumas imprecisões. 

“Diretor do HC (Hospital das Clínicas) preocupado com a nova gripe, faz as seguintes recomendações”, começa o texto que circula no Facebook (1, 2) e foi enviado ao WhatsApp do AFP Checamos para verificação. 

“Fazer do álcool gel o nosso aliado. Começar a tomar a vitamina C urgente, cuidar das crianças. Lavar as mãos muitas vezes ao dia. evitar locais onde haja multidão; tomar vitamina C; comer fígado de boi; ingerir sucos de acerola e laranja. Tomar chá de erva-doce duas vezes ao dia”, continua. 

A mensagem viral ainda diz que o medicamento Tamiflu é feito de erva-doce e que ele é usado no tratamento da gripe A-H1N1. Por isso, ainda de acordo com a publicação, um infectologista do hospital São Domingos teria recomendado tomar chá de erva-doce de 12 em 12 horas. 

Captura de tela feita em 15 de agosto de 2022 de uma publicação no Facebook ( . / )

O mesmo texto já havia circulado no início da pandemia de covid-19 como se as recomendações fossem contra o coronavírus. 

No entanto, procurada pelo AFP Checamos, a assessoria de imprensa do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (HCFMUSP) negou que qualquer diretor do hospital tenha escrito a mensagem que circula nas redes, seja contra uma nova gripe ou o SARS-CoV-2, vírus causador da covid-19.

Tamiflu e erva-doce 

Em nota enviada à AFP em 2020, o laboratório Roche, desenvolvedor do medicamento Tamiflu, negou que o medicamento seja feito de erva-doce.

“O medicamento Tamiflu, desenvolvido pela Roche, é composto por fosfato de oseltamivir (...) além de alguns excipientes, que são substâncias que complementam a massa ou volume nos medicamentos produtos farmacêuticos. Deste modo, não há, na composição de Tamiflu, o anis estrelado ou a erva doce”.

A associação entre a erva-doce - também conhecida no Brasil como anis - e o Tamiflu pode ter origem no fato de o anis estrelado chinês possuir um ácido que é utilizado na produção do oseltamivir, o princípio ativo do remédio, como explica o Conselho Regional de Farmácia do Estado do Paraná (CRF-PR).

O CRF-PR esclarece, no entanto, que apenas o ácido do anis estrelado não tem o mesmo efeito do medicamento, uma vez que são necessárias várias reações químicas complexas para transformá-lo em oseltamivir. A erva-doce não é, ainda, botanicamente relacionada ao anis estrelado chinês.

A alegação também foi negada, em nota, pelo Hospital São Domingos, de São Luís (MA), citado na mensagem viralizada. “O HSD informa ainda que nenhum infectologista da sua equipe recomenda seu uso, como tem sido comunicado em postagens em redes sociais”

Recomendações úteis

Procurado pelo Checamos, o pediatra infectologista Renato Kfouri destacou que nem todas as recomendações dadas na mensagem são falsas. De acordo com ele,  apesar da principal forma de transmissão do vírus da gripe ser respiratória, a transmissão por meio de objetos contaminados também é possível, “portanto lavar a mão é sempre bom, com água e sabão, e na falta da água e sabão, o álcool em gel pode substituir”

De acordo com Kfouri,  presidente do Departamento de Imunizações da Sociedade Brasileira de Pediatria, permanecer em locais que estão lotados ou muito aglomerados aumenta as chances de ser contaminado pelo vírus da gripe ou por qualquer vírus respiratório, como afirma a mensagem viral. 

Porém ele ressalta que não há nenhuma evidência de que o aumento da ingestão de alimentos, de vitamina C ou de chás ajudem a prevenir ou tratar a gripe. 

“Uma alimentação que contenha proteína, que contenha ferro e que contenha vitamina C é importante para prevenir qualquer doença e com gripe não é diferente, mas não há necessidade de ingestas adicionais nem para tratar e nem para prevenir e nem para recuperar-se para quem já teve a doença”.