O ar-condicionado de carros não expõe passageiros a altas concentrações de benzeno nem causa câncer

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Publicações nas redes sociais afirmam que o ar-condicionado dos automóveis expõe os passageiros a altas concentrações de benzeno, um químico classificado como cancerígeno pela Agência Internacional para Pesquisa em Câncer. Para evitar isso, os usuários recomendam abrir as janelas dos veículos durante alguns minutos antes de ligar o ar-condicionado. As postagens foram compartilhadas mais de 721 mil vezes desde, pelo menos, 2010, e voltaram a circular em 2022. No entanto, uma especialista e estudos científicos consultados pela AFP demonstram que isso é enganoso.

“Um carro estacionado na sombra durante um dia com as janelas fechadas pode conter de 400-800 mg. de Benzeno. Se está no sol a uma temperatura superior a 16º C., o nível de Benzeno subirá a 2000-4000 mg, 40 vezes mais o nível aceitável...  A pessoa que entra no carro mantendo as janelas fechadas inevitavelmente aspirará em rápida sucessão, excessivas quantidades desta toxina”, diz uma das publicações compartilhadas no Facebook (1, 2). Textos similares circulam desde 2010 nessa rede social e também no Twitter.

A mensagem viralizada acrescenta que, segundo um estudo, o ar refrescante antes de sair frio, “manda todo o ar do plástico quente o qual libera Benzeno, que causa câncer”. Por isso, seria recomendado manter os vidros abaixados por alguns minutos antes de ligar o ar-condicionado.

As publicações ainda assinalam que, “além de causar câncer, o Benzeno envenena os ossos, causa anemia e reduz as células brancas do sangue”.

Captura de tela feita em 9 de junho de 2022 de uma publicação no Facebook ( . / )

Mensagens similares circulam nas redes sociais em francês, espanhol e inglês, pelo menos, desde 2009.

O que é o benzeno?

Segundo o Instituto Nacional do Câncer nos Estados Unidos (NCI, na sigla em inglês), o benzeno é uma substância química líquida, incolor ou de cor amarelo claro, quando está a temperatura ambiente. Ele é produzido tanto em processos naturais como artificiais. É utilizado como solvente nas indústrias química e farmacêutica e na produção de combustíveis. 

Todas as pessoas estão expostas diariamente a quantidades pequenas de benzeno. Uma das principais fontes de exposição na vida cotidiana é a fumaça de tabaco e, em menor quantidade, os gases do cano de descarga dos automóveis, emissões industriais e alguns produtos químicos (colas, tintas, móveis), de acordo com o site da Agência de Substâncias Tóxicas e Registro de Doenças (ATSDR), dos Centros para Controle e Prevenção de Doenças (CDC) dos Estados Unidos.

A ATSDR também afirma que a exposição por ar ao benzeno durante períodos prolongados pode causar danos aos tecidos que produzem células sanguíneas e causar hemorragias, anemia e até leucemia.

Tanto a Agência Internacional para Pesquisa em Câncer (IARC) como a Agência de Proteção Ambiental dos Estados Unidos (EPA) determinaram que o benzeno é cancerígeno em seres humanos.

O ar-condicionado dos carros é uma fonte de benzeno?

A equipe de checagem da AFP entrou em contato em 2019 com a empresa francesa Centrais Elétricas de Climatização, que fabrica sistemas de ar-condicionado para automóveis desde 1958.

“Este rumor é totalmente falso. Um sistema de ar-condicionado automotivo é um sistema que opera em um circuito fechado e selado, com elementos que transformam o gás em líquido e o líquido em gás”, explicou Pascale Pujol, diretora de relacionamento com o cliente.

No geral, disse, são utilizados dois tipos de gás para garantir o funcionamento de um ar-condicionado automotivo: gás refrigerante R134A, baseado em tetrafluoretano, e gás refrigerante HFO-1234YF, baseado em tetrafluoropropeno. Esse último, não poluente, foi desenvolvido para atender aos requisitos de uma diretriz europeia publicada em 2006, que visa “limitar as emissões de determinados gases fluorados do efeito estufa dos sistemas de ar-condicionado dos veículos a motor”.

“Os sistemas de ar-condicionado de automóveis não emitem benzeno e sua vedação é verificada a cada revisão técnica”, complementou Pujol.

Várias organizações avaliaram até que ponto a presença de sistemas de ar-condicionado poderia estar correlacionada com maiores concentrações de benzeno no ar. 

A organização Airparif, responsável pelo monitoramento da qualidade do ar da região de Paris, mediu em outubro de 2007 a correlação entre o ar-condicionado e a concentração de benzeno na cabine de um carro.

Segundo o documento, “no que diz respeito ao benzeno, parece que outras causas, como o histórico do veículo ou mesmo a quantidade de gasolina, determinam os níveis de exposição", mas as medições realizadas em carros que funcionam com ar-condicionado ativo não mostraram concentrações significativamente mais altas em comparação com os veículos com ar-condicionado desligado.

Uma concentração de benzeno muito baixa

De acordo com diferentes estudos científicos analisados pela AFP, as concentrações de benzeno no ar-condicionado dos automóveis são muito baixas em comparação aos níveis considerados perigosos.

Um estudo realizado na Coreia do Sul em 2001 analisou a exposição a alguns compostos que os passageiros de um automóvel ou do transporte público podem ter. A pesquisa indicou que pessoas dentro de um carro, de fato, têm uma maior exposição ao benzeno do que fora dele, mas as concentrações desse químico provêm do combustível utilizado nos veículos, e não dos componentes internos, como o sistema de ar-condicionado.

A pesquisa da Coreia do Sul também descobriu que a exposição ao benzeno parece ser maior no inverno do que no verão, e por isso não consideraram o ar-condicionado como tendo um grande impacto nesses níveis. Em nenhum momento do estudo as concentrações de benzeno presentes nos carros analisados foram relacionadas ao risco de câncer.

Outra pesquisa, realizada na Alemanha em 2007, analisou os efeitos na saúde humana do ar-condicionado de um carro novo e de outro com três anos de uso, estacionados ao sol, e não registrou riscos nos compostos de nenhum dos dois.

Em um artigo, publicado em inglês pela Universidade canadense de McGill em 2017, o professor de química de Quebec Joseph Schwarcz descartou qualquer risco relacionado ao benzeno para os passageiros de um automóvel. 

Para ele, se o rumor sobre a presença do benzeno no interior dos veículos contém “uma pequena parte de verdade”, ela está exagerada em grande medida. “A suposta toxicidade do benzeno de um automóvel não é um problema”, concluiu o químico.

Como limitar a exposição ao benzeno?

Em seu site, a Sociedade Americana contra o Câncer (ACS, na sigla em inglês) publicou uma série de recomendações para limitar a exposição a este químico, que incluem “ficar longe da fumaça do cigarro”, pois é “uma importante fonte de exposição ao benzeno”.

A ACS também recomenda evitar o contato da pele com o benzeno, e “usar o bom senso com qualquer produto químico que possa conter benzeno”, limitando ou evitando a exposição aos vapores de solventes e tintas, especialmente em locais sem ventilação.