Em entrevista à Jovem Pan, Silva e Luna não atribuiu alta da gasolina a processo nos EUA

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Usuários afirmam em redes sociais que o presidente da Petrobras, Joaquim Silva e Luna, teria dito, em entrevista à rádio Jovem Pan, que a alta do preço da gasolina no Brasil estaria acontecendo porque os Estados Unidos entraram com uma “ação na Justiça pelos roubos da era Lula e Dilma na Petrobras”. As mensagens têm sido compartilhadas centenas de vezes desde pelo menos 14 de janeiro de 2022. No entanto, não há registro dessa frase e a assessoria da estatal afirmou à AFP que o trecho viralizado “não corresponde às declarações feitas pelo presidente da Petrobras”.

“A gasolina está cara? Ontem o Presidente da Petrobrás, Joaquim Silva e Luna, foi na Jovem Pan e disse: ‘Nós estamos terminando de pagar a ação indenizatória que o povo americano (acionistas) entrou na justiça por causa dos roubos que Lula e Dilma roubaram da Petrobrás e fez a empresa quase falir’”, afirmam as publicações no Facebook (1, 2), Instagram (1, 2) e Twitter (1, 2).

As alegações circulam, ao menos, desde janeiro de 2022 e voltaram a ser compartilhadas após o anúncio em março pela Petrobras do aumento do preço dos combustíveis e o subsequente repasse aos consumidores brasileiros. As publicações ainda expressam que a declaração teria sido feita “ontem”, sem, no entanto, mencionar a data em que o presidente da Petrobras teria feito tais afirmações.

Captura de tela feita em 17 de março de 2022 de uma publicação no Facebook ( . / )

Mas a frase atribuída a Joaquim Silva e Luna, presidente da Petrobras, é falsa. Não foram encontrados registros de declarações suas com esse teor, nem em entrevista à Jovem Pan, nem a outros veículos de comunicação.

Uma pesquisa por esses termos, "Joaquim Silva e Luna", "Petrobras" e "Jovem Pan", leva a uma entrevista de novembro de 2021 no programa Os Pingos nos Is, da rádio Jovem Pan. Essa é a última entrevista de Luna concedida ao veículo citado nas publicações virais, até a data de publicação deste texto.

Na ocasião, ele foi questionado sobre a política de preços da Petrobras e o aumento dos combustíveis repassado ao consumidor final. Na entrevista, de 24 minutos e 45 segundos de duração, Silva e Luna não faz qualquer relação entre o aumento dos combustíveis e uma “ação indenizatória” nos Estados Unidos.

Mas o assunto aparece a partir do minuto 23:19 da entrevista, quando o ex-ministro do Meio Ambiente do governo Jair Bolsonaro, Ricardo Salles, pergunta: “Nós já recuperamos tudo aquilo que foi roubado da Petrobras? Várias ações já foram ajuizadas, inclusive nos Estados Unidos e tudo. Como é que tá esse processo de recuperação dos ativos que foram desviados, general?"

Silva e Luna responde: “A nossa dívida, Ricardo, ela foi concluída. Nós conseguimos terminar com essa dívida. Ainda tem processo em andamento. Com relação aos Estados Unidos, concluímos esse processo há pouco mais de um mês, terminamos. Inclusive, temos que fazer periodicamente o relatório, prestar informação ao Departamento de Justiça dos Estados Unidos. Isso foi dado como concluído. Esse processo está encerrado”.

E continua: “Todas essas dívidas já estão saldadas, 160 bilhões de dólares. Corresponde a uma Vale do Rio Doce, há vários bancos Itaús. Esse foi o preço que nós tivemos que pagar com esses maus investimentos do passado, vamos dizer assim, esses desvios. Mas essa dívida está saldada. Ainda temos processos em andamento, ainda temos alguns que estão tramitando, mas são de valores menores e que não tramitaram cem por cento em julgado”.

Em 4 de outubro de 2021, a Petrobras anunciou que as obrigações previstas no acordo assinado com o Departamento de Justiça dos Estados Unidos haviam sido concluídas.

Sobre as publicações virais, em nota enviada à AFP em 18 de março de 2022, a assessoria da estatal afirmou que “o trecho citado não corresponde às declarações feitas pelo presidente da Petrobras, Joaquim Silva e Luna, nas entrevistas ao veículo mencionado, que ocorreram em novembro de 2021”.

Em 10 de março de 2022 a empresa emitiu comunicado em que atribuiu o reajuste ao conflito na Ucrânia, após a invasão do país pela Rússia.

“Apesar da disparada dos preços do petróleo e seus derivados em todo o mundo, nas últimas semanas, como decorrência da guerra entre Rússia e Ucrânia, decidimos não repassar a volatilidade do mercado de imediato, realizando um monitoramento diário dos preços de petróleo. Após serem observados preços em patamares consistentemente elevados, tornou-se necessário promover ajustes nos preços de venda às distribuidoras para que o mercado brasileiro continue sendo suprido, sem riscos de desabastecimento”, diz a nota.

Vários países da região estão sentindo os efeitos da alta dos preços dos combustíveis como consequência do conflito na Europa.

Política de preços da Petrobras

Em 2016, no governo de Michel Temer (MDB), a Petrobras anunciou uma mudança em sua política de preços. “A nova política prevê avaliações para revisões de preços pelo menos uma vez por mês. É importante ressaltar que, como o valor desses combustíveis acompanhará a tendência do mercado internacional, poderá haver manutenção, redução ou aumento nos preços praticados nas refinarias”, informou a empresa em nota de 14 de outubro daquele ano.

Desde então, os ajustes da estatal acompanham a cotação do dólar e o valor internacional do preço do barril de petróleo. Por isso, com a desvalorização do real frente à moeda norte-americana o preço da gasolina fica mais alto, é a chamada  “política de paridade de preços de importação”.

Conteúdo semelhante foi verificado pela Agência Lupa.