A “bandeira vermelha” não foi hasteada pela “primeira vez na história” em uma mesquita no Irã

Publicações compartilhadas dezenas de milhares de vezes em diversos idiomas afirmam que uma bandeira vermelha, símbolo de vingança, foi hasteada pela primeira vez na história em uma mesquita da cidade de Qom, no Irã, após a morte do general Qassem Soleimani - assassinado por um ataque norte-americano. Esta bandeira é, no entanto, hasteada regularmente nesta mesquita e em outros locais do mundo xiita.

Captura de tela feita em 7 de janeiro de 2020 mostra publicação viralizada no Twitter

“‘Pela primeira vez na História, a bandeira vermelha foi hasteada em cima da sagrada mesquita de Jamkarān, em Qom, no Irã. Bandeira vermelha: Um símbolo de uma grande batalha a caminho’ ou uma batalha severa está por vir”, garante uma das publicações, compartilhada no Twitter desde 4 de janeiro, junto com o vídeo de uma bandeira sendo hasteada no topo de uma edificação. 

A mesma alegação aparece em diversas outras postagens no Facebook, YouTube e em múltiplos sites (1, 2, 3), somando mais de 30 mil compartilhamentos. A referência à bandeira também circula amplamente em francês e inglês, sendo reportada, inclusive, por veículos como o Daily Mail e o Daily Express

Para estas publicações, a bandeira é o símbolo da vingança que está por vir após a morte do comandante mais popular do Irã, o general Qassem Soleimani, homenageado por uma multidão em Teerã na segunda-feira, 6 de janeiro.

A bandeira realmente foi hasteada?

Sim, a bandeira vermelha foi realmente hasteada no topo da cúpula principal da mesquita Jamkaran de Qom.

O vídeo que acompanha as publicações viralizadas foi filmado pelo serviço de imprensa do santuário, como confirmou à AFP o hojatoleslam Yassine Hossein Abadi, um dos responsáveis pela administração da mesquita e encarregado de questões culturais. No entanto, a gravação não está disponível no site do santuário.

Esta é a primeira vez que bandeira é hasteada nesta mesquita?

Ao contrário do que afirmam as publicações, esta bandeira vermelha (cor do sangue dos mártires) é utilizada muito frequentemente no Irã durante o mês do Moharram (mês do luto, que terminou no último dia 29 de setembro), seja ela hasteada em mesquitas, ou utilizada em procissões. Por exemplo, neste vídeo sobre o Moharram da própria mesquita Jamkaran, é possível ver uma bandeira sobre o templo (aos 27 segundos).

A mesma bandeira foi amplamente vista nas ruas de Teerã na última segunda-feira durante uma homenagem pública a Soleimani, sem necessariamente ter uma conotação de vingança.

De acordo com Hossein Abadi, a utilização desta bandeira na mesquita Jamkaran é relativamente recente: ela começou a ser hasteada no domo da mesquita para o período de luto de Moharram (que marca a morte do imã Hussein, venerado pelos xiitas) “três anos atrás”. Esta não é, portanto, a primeira vez que a bandeira é hasteada no domo.

Por que a bandeira foi hasteada desta vez?

O que é incomum, é que a bandeira seja hasteada fora do mês de Moharram.

Multidão presta homenagem ao general Qasem Soleimani em Teerã, em 6 de janeiro de 2020

“Devido ao martírio [...] do general Qassem Soleimani e de seus camaradas, e após escutarmos a mensagem do guia supremo pedindo uma vingança dura, nós instalamos esta bandeira para que todos os fiéis [xiitas] pelo mundo, assim como todos os combatentes da liberdade se reúnam sob esta bandeira para vingar o sangue injustamente derramado de Qassem Soleimani, que nós consideramos como um dos melhores companheiros do imã oculto”, explicou Hossein Abadi à AFP. 

Foi, portanto, realmente com uma conotação de vingança que a bandeira foi hasteada.

O que significa esta bandeira?

A bandeira traz a inscrição em árabe “Ya la-Tharat al-Hussein”, que pode ser traduzida em português para “Ó você que busca vingar Hussein”.

O imã Hussein, neto de Maomé, é uma das figuras sagradas mais veneradas do islã xiita, para o qual ele encarna a Justiça. Ele foi morto na batalha de Carbala (território atualmente localizado no Iraque) em 680 por tropas do califa Yazid.

Esta batalha e o “martírio” de Hussein é o elemento fundador do xiismo, que marca a cisão definitiva desta corrente com o sunismo.

O imã oculto é o último de doze imãs reconhecidos pelo xiismo duodecimano, religião oficial do Irã desde o início do século 16. Para os fiéis, ele deverá voltar no final dos tempos, acompanhado de Jesus Cristo, para instaurar um reino de justiça eterna.

De acordo com algumas tradições iranianas xiitas, a frase “Ya la-Tharat al-Hussein” deve servir como um grito de guerra a seus fiéis no momento de seu reaparecimento.

Por quanto tempo a bandeira permanecerá no topo do domo?

Questionado se a bandeira continuará hasteada na mesquita até que a morte de Soleimani seja vingada, como afirmam algumas publicações, o responsável pelo santuário afirmou que isso “é totalmente falso”.

Hossein Abadi disse que a bandeira deve permanecer hasteada por “um certo tempo”, sem precisar a data em que será removida.

Qual é a importância da mesquita Jamkaran de Qom?

A mesquita de Jamkaran fica localizada no subúrbio de Qom, cidade sagrada xiita e principal centro de ensino de teologia do Irã.

Ela ganhou uma importância oficial para a República Islâmica após a ascensão ao poder do líder supremo do Irã Ali Khamenei, em 1989.

De acordo com alguns teólogos xiitas, a mesquita foi construída no local onde o Mádi deve voltar, mas essa teoria está longe de ser unânime entre o clero.

De acordo com o site do santuário, Qassem Soleimani era apegado ao lugar, por onde passava frequentemente para rezar.

A mesquita Jamkaran passou por amplas expansões nos últimos 30 anos e conta com cinco cúpulas, o que é absolutamente inédito no islamismo iraniano, cujas mesquitas contam tradicionalmente com apenas uma cúpula.

Em resumo, é verdade que uma bandeira vermelha foi hasteada na mesquita Jamkaran, em Qom, após os Estados Unidos abaterem o general iraniano Qassem Soleimani. Segundo um dos responsáveis pelo santuário, a bandeira realmente foi utilizada com uma conotação de vingança. Esta não é, contudo, a primeira vez que a bandeira é hasteada seja nessa mesquita, ou no mundo xiita.

Guillaume Daudin
AFP Brasil