Este mapa parece uma “imagem de satélite” dos incêndios na Austrália, mas é uma ilustração

Uma ilustração compartilhada milhares de vezes nas redes sociais desde 5 de janeiro de 2019, e em diferentes idiomas, afirma mostrar uma “imagem de satélite” dos incêndios na Austrália, sendo, por vezes, atribuída à Nasa. Entretanto, trata-se de uma representação de focos de incêndio registrados ao longo de 30 dias produzida por um designer gráfico.

“Imagens dos incêndios na Austrália a partir das lentes de um satélite da NASA…”, diz a legenda de uma das publicações. Somada a outras (1), a imagem foi compartilhada com esta atribuição mais de 2.500 vezes desde o dia 5 de janeiro. A suposta fotografia também viralizou em francês, inglês, espanhol, catalão e árabe, e foi publicada por celebridades como a influenciadora Khloe Kardashian - que tem 102 milhões de seguidores no Instragram - e pela cantora Rihanna.

Mostrando a Austrália de cima, tomada por círculos vermelhos ou alaranjados representando focos de incêndio, a imagem foi compartilhada muitas vezes como se fosse uma “imagem de satélite”.

Captura de tela feita em 6 de janeiro de 2020 mostra publicação viralizada no Facebook

No entanto, não se trata de uma foto em tempo real, ou mesmo de uma foto. Esta imagem foi criada pelo designer gráfico Anthony Hearseay, que publicou-a em sua página no Instagram, mencionando se tratar de uma reconstituição e com a explicação de sua abordagem.

“Uma pequena visualização 3D dos incêndios na Austrália. Isto foi feito usando dados da FIRMS [Fire Information for Resource Management System], da Nasa, entre 5 de dezembro de 2019 e 5 de janeiro de 2020 [...] Note também que nem todas essas áreas estão queimando atualmente”, indica.

A ilustração é, portanto, um retrato das áreas afetadas pelos incêndios florestais na Austrália ao longo de 30 dias. Além disso, a Nasa tem seu próprio mapa, que lista os pontos afetados pelos incêndios em várias partes do mundo e, como o mapa de Anthony Hearseay, é baseado em seus dados.

O mapa abaixo mostra os focos de incêndio entre 5 de dezembro de 2019 e 5 de janeiro de 2020 na Austrália. A coloração pode variar de amarelo a vermelho dependendo do número de incêndios numa área, isto é, um ponto pode representar vários incêndios.

Captura de tela feita em 6 de janeiro de 2020 do mapa da Nasa

Biodiversidade dizimada e 80 mil km² devastados

Embora a imagem criada por Hearsay não seja uma fotografia, as consequências catastróficas dos incêndios são reais. Desde setembro, os incêndios devastaram quase oito milhões de hectares - 80.000 km² - e deixaram 25 mortos.

No domingo, o site independente Air Visual, que mede a qualidade do ar, colocou Camberra no topo das cidades mais poluídas do mundo, à frente de Nova Delhi e Cabul, devido à fumaça produzida pelos incêndios próximos. Na terça-feira, 7 de janeiro, a capital australiana encontrava-se em segundo lugar na lista.

Diante da gravidade da crise - uma área equivalente à superfície da ilha da Irlanda foi destruída - o primeiro-ministro, Scott Morrison, anunciou em 4 de janeiro a mobilização de 3.000 reservistas do Exército para ajudar os bombeiros voluntários.

Além disso, um estudo da Universidade de Sydney estima que apenas no estado de Nova Gales do Sul, o mais afetado pelos incêndios, 480 milhões de animais foram mortos desde setembro.

Os autores do estudo afirmaram em uma declaração que a taxa de mortalidade era muito “conservadora” e que o número de mortes poderia ser “consideravelmente maior”.

Em resumo, a imagem largamente compartilhada nas redes sociais é uma ilustração feita por Anthony Hearseay da quantidade de focos de incêndio no país ao longo de um mês, não uma foto capturada por um satélite da Nasa.