Então ministro da Educação, Abraham Weintraub, participa de cerimônia no Palácio do Planalto, em Brasília em 9 de abril de 2019 (AFP / Evaristo Sa)

Weintraub não foi indicado por Trump ao Banco Mundial, que não monitora a Receita Federal nem o COAF

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Publicações viralizadas após Abraham Weintraub ser indicado a uma diretoria do Banco Mundial, no último dia 18 de junho, asseguram que o ex-ministro da Educação poderia fiscalizar as atividades financeiras de políticos brasileiros, uma vez que a entidade “monitora o COAF e a Receita Federal”.  Segundo as postagens, a indicação do ex-ministro foi feita pelo presidente dos EUA. No entanto, não há indícios de que Donald Trump tenha influenciado a indicação de Weintraub ao Banco Mundial, que não monitora estes órgãos de controle brasileiros.

“Se muitos desejavam a saída do ministro da educação de sua pasta, agora lamentam profundamente. O ex-ministro foi nomeado pelo Presidente DONALD TRUMP como diretor executivo do Banco Mundial”, começam as postagens, compartilhadas mais de 36 mil vezes no Facebook (1, 2, 3) desde o último dia 20 de junho.

“Todos os serviços de inteligência militar e policial de quase todos os países trabalham em harmonia e paralelismo com o banco Mundial. Inclusive eles monitoram a COAF e Receita Federal. Deu pra imaginar?”, continua o texto.

A mensagem, compartilhada também no Twitter (1, 2), afirma que por essa razão Weintraub terá a “a chave dos segredos” e poderá monitorar todos aqueles que “tiveram laranjas” nas suas empresas ou “negociações dúbias”: “Lula e seus filhos, juntos aos governadores e prefeitos corruptos”, listam as publicações. 

Captura de tela feita em 25 de junho de 2020 de uma publicação no Facebook

Algumas versões das postagens asseguram, ainda, que Donald Trump solicitou que Weintraub seja colocado sob escolta do FBI “por tempo indeterminado”.

As alegações são, contudo, enganosas.

Indicado por Trump?

Não há qualquer indício de que o presidente dos Estados Unidos tenha influenciado a nomeação de Weintraub ao Banco Mundial - que não é um órgão subordinado ao governo americano, mas uma instituição de desenvolvimento governada por 189 países membros.

Envolvido em polêmicas desde que assumiu o Ministério da Educação em abril de 2019, Weintraub renunciou ao cargo em 18 de junho deste ano, após desgaste político por afirmar que gostaria de ver presos os ministros do Supremo Tribunal Federal (STF), a quem chamou de “vagabundos”.

No vídeo em que anunciou sua saída da pasta, o economista também informou que havia recebido o convite para ser diretor do Banco Mundial, agradecendo ao presidente Jair Bolsonaro (sem partido) por ter “referendado” a indicação.

No mesmo dia, o Ministério da Economia confirmou em nota oficial que o governo brasileiro oficializou a indicação de Weintraub para diretor-executivo do grupo de países que o Brasil lidera no Banco Mundial. Não havia, no comunicado, qualquer menção ao presidente dos EUA, Donald Trump.

Questionado pelo Comprova - projeto de verificação coletiva do qual o AFP Checamos faz parte - se a indicação do ex-ministro brasileiro havia sido feita pelo mandatário norte-americano, o Banco Mundial afirmou, apenas, que “recebeu uma comunicação oficial das autoridades brasileiras” indicando Weintraub para o cargo.

A informação coincide com o processo de nomeação oficial detalhado no site da entidade.

O conselho administrativo do Banco Mundial possui 25 cadeiras. Destas, seis são indicadas diretamente pelos maiores acionistas da instituição, entre eles os Estados Unidos. O restante das cadeiras é ocupado por blocos divididos por critérios geopolíticos, chamados de “constituency”.

O grupo do Brasil é composto por oito outros países: Colômbia, República Dominicana, Equador, Haiti, Panamá, Filipinas, Suriname e Trinidad e Tobago. Estas são as nações que devem aprovar, ou não, a nomeação de Weintraub.

O nome do ex-ministro ainda não foi chancelado por estes países. Embora seja considerada uma formalidade, uma vez que o número de votos do Brasil supera o de todos os outros integrantes do “constituency”, Weintraub não foi oficializado, por enquanto, como diretor-executivo do banco, como sugerem as postagens.

No último dia 24 de junho a Associação de Funcionários do Banco Mundial enviou uma carta ao Comitê de Ética da instituição pedindo a suspensão da indicação de Weintraub, até que seja conduzida uma investigação sobre falas preconceituosas do ex-ministro.

“De acordo com várias fontes, Weintraub publicou um tuíte de acusação racial que zomba do sotaque chinês. (...) Weintraub deu declarações públicas contra a proteção dos direitos das minorias e a promoção da igualdade racial”, listou a associação, na carta. “Portanto, solicitamos formalmente ao Comitê de Ética que reveja os fatos subjacentes às múltiplas alegações, com vistas a suspender sua indicação até que essas alegações possam ser revisadas”, diz o pedido.

Banco Mundial monitora o COAF e a Receita Federal?

Questionada pela AFP sobre se o Banco Mundial monitora o COAF e a Receita Federal, e se, por isso, Weintraub poderia monitorar as atividades financeiras de políticos brasileiros - como alegam as postagens - a entidade classificou as afirmações como “incorretas”.

“Ninguém do staff ou de qualquer board do Banco Mundial tem acesso a contas bancárias de terceiros”, acrescentou Juliana Braga, representante de Assuntos Externos da entidade, em Brasília.

O Banco Mundial tem como objetivo fornecer assistência financeira e técnica a países em desenvolvimento. Para isso, oferece empréstimos e créditos a juros baixos, além de bolsas. A instituição também facilita financiamentos e oferece recomendações sobre políticas.

Os diretores desta entidade se reúnem aproximadamente duas vezes por semana para supervisionar os negócios do Banco Mundial, incluindo a aprovação de empréstimos, de novas políticas, do orçamento administrativo e de estratégias de assistência a países, como explica o site da organização.

Proteção do FBI

O texto viralizado assegura, também, que Donald Trump solicitou que Weintraub seja colocado sob escolta do FBI “por tempo indeterminado”.

O FBI é uma agência de inteligência dos EUA que busca manter a segurança nacional por meio da proteção das leis do país. As investigações são focadas em violações da lei e monitoramento de possíveis ameaças. Ao todo, os EUA têm 17 agências de inteligência ligadas a departamentos distintos e com propósitos diferentes.

O Comprova entrou em contato com o FBI, tanto no escritório mantido no Brasil, dentro da embaixada de Brasília, quanto na sede em Washington, mas não obteve retorno até a publicação deste texto.

De acordo com o site do Departamento Nacional de Inteligência, diferentemente do que alega a postagem a respeito de Weintraub, a proteção a presidentes, chefes de estado e outras autoridades cabe ao Serviço Secreto —  braço do Departamento de Segurança Interna (DHS) e que, embora possa atuar junto do FBI, funciona de forma separada.

É tarefa do Serviço Secreto, segundo o site oficial, fornecer proteção a “chefes de estado visitantes, ou outras autoridades, e cônjuges, além de outros estrangeiros ilustres que estejam visitando o país”.

Procurado por email, o DHS não respondeu se Weintraub recebeu proteção do serviço de inteligência.

Em resumo, é enganosa a publicação que afirma que o ex-ministro da Educação, Abraham Weintraub, teria sido nomeado diretor-executivo do Banco Mundial pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump. O texto induz a acreditar que a nomeação de Weintraub ao cargo já foi aceita e que o mandatário americano teria participação direta no processo. Ainda, fornece informações equivocadas sobre o papel desempenhado pela instituição.

Esta investigação faz parte do Projeto Comprova. Participaram jornalistas da AFP e do UOL.

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