Vídeo não mostra a execução de manifestantes chilenos por militares

Um vídeo em que militares reprimem e arrastam um grupo de pessoas foi compartilhado centenas de vezes em redes sociais com a alegação de que mostra a execução de manifestantes no Chile. No entanto, as pessoas vistas na imagem, que foram detidas, não estavam mortas; outros vídeos e fotos feitos no mesmo local permitem chegar a esta conclusão.

Captura de tela feita em 28 de outubro de 2019 mostra interação de artigo de acordo com a ferramenta Crowdtangle

“Vídeo nas redes do Chile mostra execução de pessoas por militares em plena rua (imagens fortes)”, diz o título de um artigo compartilhado mais de 1.200 vezes no Facebook desde 22 de outubro, segundo a ferramenta Crowdtangle

Outra gravação do mesmo momento feita a partir de um ângulo semelhante foi compartilhada milhares de vezes em espanhol (1, 2, 3) com a mesma alegação. 

Os vídeos viralizaram no momento em que violentos protestos abalam o Chile. Desencadeados no último dia 18 de outubro devido a um aumento no preço de transportes, os confrontos deixaram  mortos e denúncias de violações de direitos humanos por parte das forças de segurança, além de sérios danos materiais.

Nas imagens, filmadas de cima, é possível ver homens uniformizados arrastando os corpos imóveis, ou praticamente imóveis, de supostos manifestantes e os reunindo em uma área próxima a uma praça. Na gravação também é possível ver uma padaria chamada Geno e uma unidade da pizzaria Papa John’s.

A equipe de checagem da AFP identificou o local no cruzamento entre a rua Santos Dumont e a avenida Recoleta, na comuna de mesmo nome, em Santiago, em frente ao Parque Cerro Blanco. No vídeo é possível identificar um canteiro circular e outro triangular, que também são vistos nas imagens do Google Street View, tiradas em 2015. 

Comparação entre captura de tela do vídeo viralizado (esquerda) e do Google Street View

No Google Maps também é possível identificar os estabelecimentos Geno e Papa John’s, além de uma unidade da cadeia chilena de supermercados Tottus.

Uma busca no Twitter pelos termos “Tottus”, “Recoleta”, “Cerro Blanco” e “Santos Dumont” encontra publicações feitas em 20 de outubro deste ano entre 19h30 e 20h30 do horário local (equivalente ao horário de Brasília), nas quais é dito que um grupo de pessoas estava saqueando um supermercado Tottus.

Uma testemunha

O fotógrafo Mauricio Bernal registrou a ação das forças de segurança durante o saque, como reproduzido pela chilena Agência Uno e por meios de comunicação locais (1, 2). Em entrevista por telefone com a equipe de checagem da AFP, Bernal contou que capturou as imagens a partir da varanda de um apartamento e confirmou que os agentes vistos no vídeo são militares.

O fotógrafo relatou que os fatos ocorreram por volta das 20h de 20 de outubro e afirmou acreditar que os militares foram ao local devido ao saque do supermercado Tottus. Nesse momento, o toque de recolher imposto pelo governo de Sebastián Piñera pelo segundo dia seguido estava vigente há uma hora e “ainda havia luz” natural, indicou Bernal.

Bernal acredita que as pessoas detidas pelos agentes no vídeo não eram manifestantes porque neste local “não havia barricada, nem protesto, nem fogo, nada”. Além disso, conta que vários deles chegaram com mochilas, bolsas e ferramentas que utilizaram para forçar a porta lateral do supermercado.

Segundo o fotógrafo, agentes dos Carabineiros, a polícia chilena, passaram pelo local em duas ocasiões dispersando as pessoas, mas nas duas vezes seguiram seu caminho. “Os militares que estavam nos veículos atiravam para cima, mas os que desceram não [efetuaram disparos], disse Bernal à AFP.

“Eles os controlaram, faziam colocar as mãos na cabeça, os pegavam pelo cinto e os arrastavam e amontoavam. Eles não atiraram contra eles, não os chutaram, estavam à vista”, afirmou o fotógrafo.

Isso pode ser confirmado em vídeos do mesmo momento filmados a partir de ângulos diferentes (1, 2).

Em resumo, é falso que os militares vistos nas imagens viralizadas estejam executando pessoas. Outros vídeos do mesmo momento mostram que as pessoas foram detidas por relação, segundo várias testemunhas, com o saque de um supermercado.

Guillaume Daudin
AFP Brasil